Tag Archives: Bon Clay

Problematizando a transfobia em One Piece

13 abr

Assim como Naruto nas bancas brasileiras, a seção Problematizando aqui do Mais de Oito Mil já garantiu um espaço para voltar sempre. A repercussão do primeiro post sobre a objetificação das mulheres em Nanatsu no Taizai foi muito maior do que eu imaginava! Foram milhares e milhares de leitores que refletiram sobre as coisas que escrevi (ou que simplesmente prefeririam ignorar qualquer argumento coerente e me chamar de petista mal-comida pra baixo). Mas mantenho a seção viva, até porque o que não falta é mangá com coisa a se problematizar. Inclusive o queridinho da Shueisha, o gigantesco One Piece.

One Piece é uma obra de personagens estereotipados com muitos “mas”. Quer exemplo? As personagens femininas têm seus atributos avantajados para agradar ao público jovem punheteiro da Grande Nação Japonesa, MAS elas são construídas com uma boa profundidade e o Oda já deixou bem claro que as mulheres são tão importantes quanto os homens. Outro exemplo: assim como vários personagens, os homossexuais em One Piece são extremamente caricaturizados de forma quase ofensiva e sempre afetadíssima, MAS também ganham profundidade e se colocam num mesmo grau de importância dos protagonistas (vide o maravilhoso Bon Clay que sempre tá lá sambando na cara dos personagens com sua indefectível saia bufante e penteado atrevidamente exótico). Mas, afinal, há um problema com isso? Bem…

bon-clay

Uma coisa que existe no mundo e poucos percebem é que não sabemos como entender a dor alheia. Por mais que eu me esforce, nunca saberei entender o peso de algo racista pelo motivo que não sou uma pessoa negra. E com isso eu acabei quase caindo numa cilada e achando que One Piece era o topo da representatividade da sigla LGBT nos mangás shonen porque… né, o Bon Clay é maravilhoso e a Emporio Ivankov é uma transexual fodona. No entanto, me surpreendi ao ver que meu ponto de vista estava errado.

Curiosa para saber como era a aceitação dos personagens não-heteros entre os leitores da série, acabei caindo numa discussão no Reddit perguntando a opinião do pessoal LGBT sobre os personagens de One Piece. Quase toda a totalidade de gays, lésbicas, bis etc se mostrou favorável à eles, principalmente ao Bon Clay. Mesmo apontando os estereótipos e as caricaturas (aquelas pernas cabeludas formam uma imagem de zombaria… Além de falta de Veet), o Bon Clay chamou a atenção por ser apenas um personagem bom, carismático e forte que por algum motivo é gay (ou seja, sua orientação não é tão importante num primeiro momento). E quando eu achava que os personagens não eram problemáticos, pessoas trans surgiram lá na discussão e desmistificaram a ideia que a Iva é alguém tão inclusiva assim.

iva-sama

Antes de começar o papo, aviso que o post tem spoilers de coisas irrelevantes que não vão estragar a sua leitura de One Piece. E também alerto que estamos julgando One Piece apenas pelos primeiros 60 volumes, que é o que foi publicado no Burajiru pela Panini. IKIMASU problematizar.

A Iva é uma personagem fortíssima em One Piece, pareando-se com outras pessoas muito poderosas no mundo dos piratas. Seu poder, além de ter o visual chupinhadíssimo de Rocky Horror Show e se safar sem levar uma intimação judicial, é conseguir manipular hormônios. Ouseje, é capaz de mexer em seus próprios hormônios e nos alheios e preparar mudanças de gêneros com uma rapidez maior que a do Togashi ao encerrar o arco final de Yu Yu Hakusho. Além disso, ela consegue fazer o corpo das pessoas combaterem toxinas mortais e outras regalias desnecessárias como o poder de inflar seu cabeção apenas para o Oda abusar de páginas duplas.

iva-rocky-horror

Mas como uma personagem tão maravilhosa pode ir de um exemplo de representatividade a alguém que aparece nas problematizações do Mais de Oito Mil? Bem, perceba essa cena que aparece logo na apresentação da personagem:

one-piece-transfobia-01

one-piece-transfobia-02

one-piece-transfobia-03

Para você que não entendeu (talvez porque o traço do Oda é meio poluído mesmo), tem esse homem que quer vingança. Eis que Iva usa seus poderes e transforma o homem numa mulher contra a vontade dele. “mas Mara, eu não vi nada de grave nessa cena” é o que alguns leitores estão pensando, então vou usar um outro exemplo. Numa situação que não vou explicar os detalhes por motivos de spoilers, o mulherengo Sanji acaba indo parar no reino da Iva que é uma ilha apenas com pessoas LGBT. Daí que todas elas saem correndo desesperadamente atrás de Sanji querendo pega-lo, botar um vestido nele etc. Você pode argumentar que é só humor, mas um lado muito perverso está por trás disso.

transfobia-one-piece

Lembra da discussão no Reddit que falei ali em cima? Bem, a moça argumentou que embora Iva seja uma personagem forte e positiva na série, ela não ajuda em nada a ajudar a combater os preconceitos e as dúvidas que a maioria das pessoas tem a respeito das trans. Ela ate contou que quando contou para seu amigo a respeito da própria mudança de sexo, o colega otaku falou “ah, então você vai ser que nem a Emporio Ivankov”. Além de ser retratada como uma caricatura até mais bizarra que as outras caricaturas da série, a Iva ainda alimenta essa ideia que as pessoas têm de que as pessoas LGBT são desesperadas para converter os outros para seu mundo, como se não houvesse respeito pela orientação e identidade das pessoas. Não se esqueçam que não há nada mais frágil que a masculinidade, pois parece que ela pode ser destruída por quase tudo aparentemente.

Isso quer dizer que a Iva deveria surgir em One Piece fazendo panfletagem sobre transexuais e dar uma aula no meio do mangá? Claro que não (embora ela tenha um discurso bem legal sobre gêneros em sua primeira aparição), mas se deve ter muito cuidado para não perpetuar algumas idéias erradas não-intencionalmente, escrever sobre minorias oprimidas exige cuidados sim.

E podemos estender a falta de cuidados ao retratar as pessoas trans até mesmo na tradução feita pela Panini. Ao contrário do inglês e do japonês, o português usa gêneros nas palavras, e a Panini ainda tratou a Iva como “o travesti” ou “o travecão” em vários momentos:

one-piece-transfobia-04

one-piece-transfobia-05

“Mas Mara, sua blogueira que não está seguindo a língua culta, eu encontrei esse post aqui de 2008 do UOL falando que o correto segundo o dicionário é O TRAVESTI”Então, não sei se você sabe, mas a nossa língua é beeem preconceituosa. A própria definição de “travesti” apresentada nessa matéria é bem escrotinha: “Homossexual que se veste e que se conduz como se fosse do sexo oposto”. Assim como você gosta de ser chamado pelo seu nome correto, pela sua arroba do Twitter ou pelo apelido que usa num fórum de animes falido, todo mundo deveria ter o direito de ser chamado da forma que acha melhor, e as travestis preferem o artigo feminino.

Claro, essas falas mostradas ali em cima são de vilões, então entende-se que não há a necessidade de respeitarem o artigo feminino porque tá aí na função de ofender mesmo, mas por outro lado em momento algum há algum personagem “do bem” falando da forma que as travestis preferem ser tratadas. E nem vou avisar que travesti não tem nada a ver com transexual porque não tenho conhecimento da língua japonesa pra falar se o termo estava no original ou se foi colocado na tradução brasileira. De qualquer forma, o responsável foi bem irresponsável no uso da palavra.

Isso tudo quer dizer que eu acho que One Piece deva ser censurado pela Shueisha e o Oda ser queimado em Marine Ford? Claro que não, mas não mata ninguém você ter um senso crítico para se abrir a problemas que você não enxerga porque é algo longe da sua realidade. O Oda tem um espaço incrível e sabe fazer personagens ótimos, além de ser bem intencionado, então apenas espero que ele não cometa esses erros em volumes futuros.