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Por que há falta de mulheres protagonistas na Shonen Jump?

20 abr

Estava eu na minha costumeira romaria em grupos otacos no Facebook, procurando pauta e saciando desejos masoquistas de ler burrices, e me deparei com um post muito interessante. Um membro de um dos grupos postou a capa recente da Shonen Jump que coloca seus protagonistas todos e levantou uma pergunta muito precisa: falta mais representatividade feminina nos mangás shonen? Afinal as mulheres dessa capa basicamente são secundárias.

Bem, daquela discussão vou ficar apenas com o questionamento do rapaz, até porque trazer comentários de que mulher não pode ser protagonista de quadrinhos shonen é ter uma limitação mental maior que a quantidade de fillers em Naruto Shippuden. Mas vale a pena a gente se perguntar porque não encontramos protagonistas mulheres na Shonen Jump num geral.

Um argumento muito usado para explicar isso é a demografia da Shonen Jump, afinal ela é destinada para garotos de 11 a 17 anos. Sendo assim, para uma mentalidade de quinta-série, ~faz sentido não ter personagem feminina~ já que a revista precisa conversar com o público leitor daquele gênero e daquela idade, certo? Acontece que essa demografia não representa necessariamente o público consumidor, porque quase metade dos compradores da Shonen Jump são mulheres (e isso que estou excluindo os leitores que já passaram dos 17 anos faz tempo).

Há alguns anos, bem antes do hiato aqui do Mais de Oito Mil, lembro de ter publicado uma crítica sobre One Piece dizendo que eu achava a série apenas legal. Veja bem, eu nem ao menos falei que ela era ruim, falei apenas que não era a coisa mais incrível do mundo e isso me rendeu uma montanha de comentários dizendo que eu não poderia entender One Piece, afinal era um mangá feito para homens. Vou até resgatar um print daquela época:

Na época eu precisei responder com um texto do próprio Oda:

Cinco anos se passaram e ainda rola uma dificuldade de aceitar mulher no universo dos mangás shonen. Isso quando não rola a falta de aceitação de que pode muito bem existir uma série de ação ou luta protagonizada por uma mulher.

Isso fica evidente quando pensamos em algo bem fora da tal representação. Ignore qualquer “função social” do mangá e pense apenas no dinheiro (lembre-se que a Shueisha não é instituição de caridade e lança seus mangás para ganhar dinheiro com isso). Não faria sentido ter personagens femininas mais importantes, sendo que quase metade do público consumidor é composto de mulheres? Por que motivos os editores da Shonen Jump não tentam agradar esse público que é tão importante nas vendas? Eu arrisco uma resposta: porque vai afastar o outro público consumidor, os homens.

Apenas o mais imbecil preconceito que brota nas menos pensantes cabeças masculinas justifica esse pavor de consumir uma série protagonizada por uma mulher, mas ele existe. E não pense que isso funciona apenas no Japão, porque o resto do mundo também é esse atraso de vida (ou por que você acha que não temos um filme da Viúva Negra e muito menos brinquedos dela quando sai um novo filme dos heróis Marvel, mesmo ela estando em pé de igualdade com outros protagonistas do filme?). Arrisco até dizer que esse preconceito nos quadrinhos japoneses acaba sendo estimulado pelos próprios editores e essa mentalidade antiquada de separação de mangás para homens e mulheres.

Vamos falar a real: não existe mangá exclusivamente para homem, até porque não existe um mangá em que seja fundamental a utilização de um pênis durante a leitura. E ler um mangá protagonizado por uma mulher não vai arrancar a ~masculinidade~ de ninguém. Ponto final. Temos séries ótimas com mulheres protagonistas, como A Lenda de Korra, e se algum cara não assiste por ter uma mulher no papel principal podemos apenas lamentar que está perdendo uma maravilhosa série de ação, melhor que muito shonen aí.

E assim encerramos mais um post da seção Problematizando. SIM, esse é mais um post da odiada seção do Mais de Oito Mil, e só tô revelando isso agora para não afastar o pessoal que odeia essa palavra. Kissus!

Problematizando o ensino atual através de Assassination Classroom

14 nov

Essa é a terceira vez que faço um post problematizando algum aspecto de alguma série e só de ler essa palavra aposto que muitos leitores já começaram a digitar no campo dos comentários que sou uma ~feminazi que quer que o mundo mais chato e que quer a censura~, quando na verdade até mesmo uma capivara consegue entender que a problematização quer apenas que pensemos sobre algum assunto, e não que o persigamos com tochas e ancinhos como se fosse no tempo da caça às bruxas. Dito isso, vamos falar sobre esse mangá que é publicado pela Panini aqui no Brasil, o Assassination Classroom (sem spoilers, tá? Pode ler à vontade).

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A história do mangá é mais fácil do que a Nintendo mandar derrubar romhacks de Pokémon: existe um monstro amarelo parecido com um polvo que destruiu parte da lua e que anunciou o mesmo destino para a Terra. Aí ele aproveita e diz que será professor da turma 3-E da Escola Kunugigaoka e agora seus alunos têm a difícil tarefa de matar esse docente com poder de velocidade que alcança Mach 20. Pronto, só isso.

Por trás de um nome enganador e de uma proposta apenas bacaninha, Assassination Classroom esconde embaixo de seus tentáculos uma discussão maravilhosa sobre ensino. A Escola Kunugigaoka funciona através de uma metodologia de ensino criada pelo diretor Asano em que todos os alunos são ranqueados em suas avaliações, e os melhores alunos ficam na turma A, os de notas menores na turma B e assim indo até chegar a Turma E. A questão é que, para incentivar que os alunos estudem um monte, é institucionalizado que ocorra uma humilhação pública à turma E, com todo o tipo de bullying possível (falta só obrigar os alunos a lerem o mangá de Toriko). A turma dos exilados é distante inclusive geograficamente, pois as regras dizem que eles precisam assistir às aulas em um prédio caindo aos pedaços no topo de uma montanha, a uns 20 minutos de caminhada do prédio principal da escola.

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Embora mostrado como uma grande caricatura, o método educacional do diretor Asano tem muitas características que vemos no ensino atual. Quando eu era mais nova e estava no Ensino Médio (numa época que nem era chamado de “Ensino Médio”), minha escola pública decidiu dividir os alunos pelas salas usando a mesma proposta de Assassination Classroom: a turma A ficava com os mais inteligentes no ranqueamento do ano anterior e a turma I tinha só a nata dos alunos com piores notas. Preciso nem falar a alegria dos professores em darem aulas para as turmas de letras mais baixas, né?

Outra faceta interessante do método de ensino de Asano é que ele considera os alunos uma grande bacia na qual você pode enfiar cada vez mais conhecimento. Tanto que, em certos momentos da série, Asano incentiva que seus alunos aprendam conteúdo do Ensino Médio para que sejam superiores aos outros. Esse método, que já foi definido por Paulo Freire da mesma forma, é basicamente o que vemos nas salas de aula do Brasil e até mesmo nos ~inovadores~ cursinhos: chega o professor, solta todo o conteúdo e cada um que se vire para acumular aquele tanto de conhecimento que logo vai desaparecer por falta de utilidade na vida após o vestibular ou concurso público. Escola virou praticamente uma gincana de absorção de conteúdo.

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De um lado temos Koro-sensei num treino ninja, do outro o diretor Asano

Mas se o autor de Assassination Classroom coloca este método de ensino como o “errado“, qual é o “certo“? Bem, é o praticado pelo monstro Koro-sensei. Lecionando para uma turma que ninguém bota muita fé, Koro-sensei se especializou em ensinar de forma quase particular, conhecendo bem as habilidades e talentos de cada aluno e preparando uma metodologia única para cada um (claro que sua velocidade Mach 20 ajuda nisso). Sem contar que ele considera que qualquer atividade lúdica ou tarefa (como seu próprio assassinato) sempre pode ser usado para os meios educativos. Com Koro-sensei, tudo tem um propósito na vida da pessoa que ela poderá usar no futuro no que decidir fazer.

O nosso atual método é baseado em conceitos do século XIX (veja uma escola do começo do século passado na foto abaixo e perceba que ainda é igual ao modelo de hoje) e já nem acompanha as mudanças bruscas na sociedade. O celular, por exemplo, é proibido em muitas escolas quando, na verdade, poderia ser usado como uma forma de melhorar o aprendizado. O mesmo pode se dizer a respeito da utilização da mídia como forma de ensino, inclusive para se ensinar os alunos a terem uma análise crítica do mesmo. O que se tem como unanimidade é que o ensino como está atualmente não funciona, e que devemos buscar uma forma de ensinar de uma forma diferente. E, por coincidência Koro-sensei se assemelha muito à tentativa de se buscar uma nova forma de ensino que ocorre há anos no meio acadêmico, em que há um tratamento horizontal na sala de aula, com o professor aprendendo com as experiências dos alunos e vice versa.

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Um Koro-sensei do começo do século XX

Isso quer dizer que a educação pode ser resolvida se mudarmos completamente a educação para o que se estuda nesses novos cursos ou então se aproximar do que o Koro-Sensei faz em Assassination Classroom, certo? Bem, não é assim. Embora o mangá mostre qualidades impressionantes no método de ensino de Koro-Sensei, não podemos esquecer que ele faz isso apenas porque é um monstro com velocidade Mach 20. Mais fora da realidade ainda é imaginar que os professores devem ter MAIS TRABALHO para que a educação vá pra frente, enquanto não se investe o necessário na educação (não só esse Governo como o anterior, e o anterior, e o anterior…) e se mantém uma mentalidade de dois séculos atrás.

Uma das coisas mais interessantes de Assassination Classroom é que a série faz algo que quase nunca vemos nos mangás ou na própria mídia: uma valorização da profissão professor. Porque, né… a Shonen Jump está aí há décadas publicando mangás das mais diversas profissões, esportes ou guerreiros que têm talentos próprios e que vão salvar o mundo… mas quantos professores protagonistas vemos nos quadrinhos? Por que só vemos mangás de médicos, advogados, engenheiros, escritores etc e não dessa profissão importante? Querendo ou não, representação na mídia ajuda sim a incentivar novas gerações a decidirem por determinados esportes e profissões (lembre como Captain Tsubasa proliferou o futebol no Japão).

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O mote da Shonen Jump é a amizade, mas nos mangás os protagonistas sempre resolvem as situações basicamente sozinhos. Precisou vir um mangá de comédia com um pouco de ação para mostrar que embora seja importante se valorizar o talento pessoal que todos temos, apenas com o trabalho em equipe e esforço mútuo é capaz de se mudar alguma coisa na sociedade. E, para que tudo isso aconteça, é fundamental a orientação de um professor. Seja esse professor um monstro amarelo superveloz ou apenas um professor ensinando num colégio caindo aos pedaços por falta de investimento.

Problematizando a transfobia em One Piece

13 abr

Assim como Naruto nas bancas brasileiras, a seção Problematizando aqui do Mais de Oito Mil já garantiu um espaço para voltar sempre. A repercussão do primeiro post sobre a objetificação das mulheres em Nanatsu no Taizai foi muito maior do que eu imaginava! Foram milhares e milhares de leitores que refletiram sobre as coisas que escrevi (ou que simplesmente prefeririam ignorar qualquer argumento coerente e me chamar de petista mal-comida pra baixo). Mas mantenho a seção viva, até porque o que não falta é mangá com coisa a se problematizar. Inclusive o queridinho da Shueisha, o gigantesco One Piece.

One Piece é uma obra de personagens estereotipados com muitos “mas”. Quer exemplo? As personagens femininas têm seus atributos avantajados para agradar ao público jovem punheteiro da Grande Nação Japonesa, MAS elas são construídas com uma boa profundidade e o Oda já deixou bem claro que as mulheres são tão importantes quanto os homens. Outro exemplo: assim como vários personagens, os homossexuais em One Piece são extremamente caricaturizados de forma quase ofensiva e sempre afetadíssima, MAS também ganham profundidade e se colocam num mesmo grau de importância dos protagonistas (vide o maravilhoso Bon Clay que sempre tá lá sambando na cara dos personagens com sua indefectível saia bufante e penteado atrevidamente exótico). Mas, afinal, há um problema com isso? Bem…

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Uma coisa que existe no mundo e poucos percebem é que não sabemos como entender a dor alheia. Por mais que eu me esforce, nunca saberei entender o peso de algo racista pelo motivo que não sou uma pessoa negra. E com isso eu acabei quase caindo numa cilada e achando que One Piece era o topo da representatividade da sigla LGBT nos mangás shonen porque… né, o Bon Clay é maravilhoso e a Emporio Ivankov é uma transexual fodona. No entanto, me surpreendi ao ver que meu ponto de vista estava errado.

Curiosa para saber como era a aceitação dos personagens não-heteros entre os leitores da série, acabei caindo numa discussão no Reddit perguntando a opinião do pessoal LGBT sobre os personagens de One Piece. Quase toda a totalidade de gays, lésbicas, bis etc se mostrou favorável à eles, principalmente ao Bon Clay. Mesmo apontando os estereótipos e as caricaturas (aquelas pernas cabeludas formam uma imagem de zombaria… Além de falta de Veet), o Bon Clay chamou a atenção por ser apenas um personagem bom, carismático e forte que por algum motivo é gay (ou seja, sua orientação não é tão importante num primeiro momento). E quando eu achava que os personagens não eram problemáticos, pessoas trans surgiram lá na discussão e desmistificaram a ideia que a Iva é alguém tão inclusiva assim.

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Antes de começar o papo, aviso que o post tem spoilers de coisas irrelevantes que não vão estragar a sua leitura de One Piece. E também alerto que estamos julgando One Piece apenas pelos primeiros 60 volumes, que é o que foi publicado no Burajiru pela Panini. IKIMASU problematizar.

A Iva é uma personagem fortíssima em One Piece, pareando-se com outras pessoas muito poderosas no mundo dos piratas. Seu poder, além de ter o visual chupinhadíssimo de Rocky Horror Show e se safar sem levar uma intimação judicial, é conseguir manipular hormônios. Ouseje, é capaz de mexer em seus próprios hormônios e nos alheios e preparar mudanças de gêneros com uma rapidez maior que a do Togashi ao encerrar o arco final de Yu Yu Hakusho. Além disso, ela consegue fazer o corpo das pessoas combaterem toxinas mortais e outras regalias desnecessárias como o poder de inflar seu cabeção apenas para o Oda abusar de páginas duplas.

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Mas como uma personagem tão maravilhosa pode ir de um exemplo de representatividade a alguém que aparece nas problematizações do Mais de Oito Mil? Bem, perceba essa cena que aparece logo na apresentação da personagem:

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Para você que não entendeu (talvez porque o traço do Oda é meio poluído mesmo), tem esse homem que quer vingança. Eis que Iva usa seus poderes e transforma o homem numa mulher contra a vontade dele. “mas Mara, eu não vi nada de grave nessa cena” é o que alguns leitores estão pensando, então vou usar um outro exemplo. Numa situação que não vou explicar os detalhes por motivos de spoilers, o mulherengo Sanji acaba indo parar no reino da Iva que é uma ilha apenas com pessoas LGBT. Daí que todas elas saem correndo desesperadamente atrás de Sanji querendo pega-lo, botar um vestido nele etc. Você pode argumentar que é só humor, mas um lado muito perverso está por trás disso.

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Lembra da discussão no Reddit que falei ali em cima? Bem, a moça argumentou que embora Iva seja uma personagem forte e positiva na série, ela não ajuda em nada a ajudar a combater os preconceitos e as dúvidas que a maioria das pessoas tem a respeito das trans. Ela ate contou que quando contou para seu amigo a respeito da própria mudança de sexo, o colega otaku falou “ah, então você vai ser que nem a Emporio Ivankov”. Além de ser retratada como uma caricatura até mais bizarra que as outras caricaturas da série, a Iva ainda alimenta essa ideia que as pessoas têm de que as pessoas LGBT são desesperadas para converter os outros para seu mundo, como se não houvesse respeito pela orientação e identidade das pessoas. Não se esqueçam que não há nada mais frágil que a masculinidade, pois parece que ela pode ser destruída por quase tudo aparentemente.

Isso quer dizer que a Iva deveria surgir em One Piece fazendo panfletagem sobre transexuais e dar uma aula no meio do mangá? Claro que não (embora ela tenha um discurso bem legal sobre gêneros em sua primeira aparição), mas se deve ter muito cuidado para não perpetuar algumas idéias erradas não-intencionalmente, escrever sobre minorias oprimidas exige cuidados sim.

E podemos estender a falta de cuidados ao retratar as pessoas trans até mesmo na tradução feita pela Panini. Ao contrário do inglês e do japonês, o português usa gêneros nas palavras, e a Panini ainda tratou a Iva como “o travesti” ou “o travecão” em vários momentos:

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“Mas Mara, sua blogueira que não está seguindo a língua culta, eu encontrei esse post aqui de 2008 do UOL falando que o correto segundo o dicionário é O TRAVESTI”Então, não sei se você sabe, mas a nossa língua é beeem preconceituosa. A própria definição de “travesti” apresentada nessa matéria é bem escrotinha: “Homossexual que se veste e que se conduz como se fosse do sexo oposto”. Assim como você gosta de ser chamado pelo seu nome correto, pela sua arroba do Twitter ou pelo apelido que usa num fórum de animes falido, todo mundo deveria ter o direito de ser chamado da forma que acha melhor, e as travestis preferem o artigo feminino.

Claro, essas falas mostradas ali em cima são de vilões, então entende-se que não há a necessidade de respeitarem o artigo feminino porque tá aí na função de ofender mesmo, mas por outro lado em momento algum há algum personagem “do bem” falando da forma que as travestis preferem ser tratadas. E nem vou avisar que travesti não tem nada a ver com transexual porque não tenho conhecimento da língua japonesa pra falar se o termo estava no original ou se foi colocado na tradução brasileira. De qualquer forma, o responsável foi bem irresponsável no uso da palavra.

Isso tudo quer dizer que eu acho que One Piece deva ser censurado pela Shueisha e o Oda ser queimado em Marine Ford? Claro que não, mas não mata ninguém você ter um senso crítico para se abrir a problemas que você não enxerga porque é algo longe da sua realidade. O Oda tem um espaço incrível e sabe fazer personagens ótimos, além de ser bem intencionado, então apenas espero que ele não cometa esses erros em volumes futuros.

Problematizando a objetificação feminina em Nanatsu no Taizai

10 fev

Como diriam aqueles dois simpáticos limões na propaganda da Pepsi Twist, o mundo está muito chato. Imagina, não podemos nem mais fazer piadas racistas, humilhar mulheres, chochar gays que eles já surgem em bando na internet querendo uma coisa besta como “direitos iguais”. Os tempos estão mudando e muito rápido, a internet está dando voz tanto para pessoas que reclamam da qualidade de animação da Toei quanto para pessoas que estão aí lutando para que sejam tratadas com respeito, e isso tudo é maravilhoso. O próprio Mais de Oito Mil é um reflexo disso, pois passamos das críticas pré-adolescentes às fantasias de cosplayers lá pelos idos de 2009 para análises um pouco mais apuradas sobre as coisas dese universo tokuanimangático. Tudo muda, minna!

Pensando nisso, decidi criar mais uma seção fixa aqui no Mais de Oito Mil, a “Problematizando“. A ideia está longe de escrever um textão longo de Facebook que as pessoas apenas curtem ou comentam “sai sua comunista, fora PT”, o plano na verdade é fazer uma análise um pouco mais séria sobre muitos problemas que encontramos nos quadrinhos japoneses. Porque embora a Grande Nação Japonesa esteja à nossa frente no quesito educação, tecnologia e ocupação de vagas de engenharia em vestibulares brasileiros, eles ainda têm muitos problemas sociais que se refletem nos quadrinhos e animes. A ideia dessa seção é pegar um único tema sobre uma única série e conversar sobre isso, e decidi começar justamente com a objetificação feminina de Nanatsu no Taizai, algo que já comentei por cima no post dos piores mangás que li em 2015. Então vamos lá, IKIMASU problematizar.

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Para você que entrou no evento de anime agora e já quer sentar na primeira fila do desfile Cosplay, preciso contar que Nanatsu no Taizai (ou The Seven Deadly Sins, como a JBC e outros países chamam) é um mangá shonen escrito por Nakaba Suzuki, um autor que conseguiu muito sucesso misturando a ambientação das histórias medievais do Rei Arthur, um traço limpo quase sem retículas e uma história bem empolgante. “Mas Mara, sua blogueira de peso excessivo, se você deu tantas qualidades assim para o mangá, por que você o considerou como uma das piores leituras do ano?”. Simples: pelo papel que o autor submete as mulheres de sua trama.

Até onde aguentei acompanhar (li longos 7 volumes pra poder criticar isso), Nanatsu tem duas personagens femininas importantes como protagonistas, a princesa Elizabeth e a giganta Diane. E as duas têm uma relação envolvendo amor com o protagonista da série, o loirinho de 600 anos (e violentador nas horas vagas) Meliodas. Usei uma palavra pesada, né? Mas que termo eu posso usar para se referir a esses momentos?

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As apalpadas de Meliodas em Elizabeth são completamente inexplicáveis na narrativa, afinal não são importantes para a trama, não ajudam a desenvolver nenhum personagem e nem ao menos servem como alívio cômico, pois elas são tão engraçadas quanto ler reviews positivos da saga atual de Bleach (mentira, isso é bem hilário). E sabem o que é pior? A Elizabeth não gosta desse assédio nem um pouco, ela fica constrangida com a situação. “Mas é fácil, é só ela chegar para o cara e falar ‘para aê, não curti’, certo?”. Não é bem assim, migo! A posição de Elizabeth diante do abuso sexual de Meliodas é muito parecida com a de mulheres que são roçadas num ônibus e ficam com medo de chamar a atenção do violentador.

O mundo é machista sim, e isso se reflete na forma como o Nakaba conduz sua história, pois o autor deve achar apenas engraçado colocar uma mulher numa situação de objetificação. E como a Elizabeth não tem poderes de luta ou qualquer outra habilidade (pelo menos nos sete volumes iniciais), não vejo outra função para ela além de ser um brinquedo sexual na mão do personagem e do autor, que sempre arranja um jeito de colocar tanto ela quanto Diane em trajes provocantes e em situações sexualmente constrangedoras. No anime é ainda pior, porque os peitos da Diane funcionam com a mesma física que rodeia a região do busto das lutadoras de Dead or Alive por puro e desnecessário punhetismo, fora os zooms dignos do quadro da banheira do Gugu. Duvida? Então me diz qual é a necessidade desse foco no decote dela?

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Voltando para a Elizabeth… seria isso um fetiche extremo em ver uma mulher numa situação indefesa? Se esse é o caso, podemos colocar o carimbo de violentador em Meliodas sim. E olha que nem vou olhar do ponto da pedofilia, afinal teoricamente a personagem tem 16 anos enquanto seu apalpador tem mais de 600.

Mas vamos deixar um pouquinho de lado a problematização, afinal já estou vendo alguns leitores incomodadíssimos com essa “interpretação” de que Meliodas abusa sexualmente da Elizabeth só por apalpá-la de forma não consensual. Queria mostrar o seguinte print tirado de um grupo de mangás, no qual um simpático rapaz de cabeça raspada decidiu questionar um pouco o mangá. Acompanhe também o comentário logo depois:

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Curiosamente, parte do público gosta desse lado do Meliodas porque o consideram menos ~virgem~ que outros protagonistas de mangás que não assediam mulheres ou mesmo demonstram interesse nelas (COFCOFLuffyCOFCOFGokuCOFCOF). E a resposta do cidadão também vai de acordo com o pensamento enraizado na cabeça dos homens de uma sociedade machista: o Meliodas tem mais que apalpar a Elizabeth, afinal ela usa umas roupas provocantes, certo? Mas é claro que não, que lógica é essa minha gente?

Devemos lembrar que qualquer toque em seu corpo sem consentimento e que te cause constrangimento é um abuso, não importa se a Elizabeth está usando uma burca ou se ela está apenas com uma pintura corporal de esfera do dragão no peito e um tapa-sexo anti-Dilma. NENHUM TRAJE convida qualquer pessoa a apalpar a outra sem consentimento. Isso é violência sexual sim!

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Você, rapaz que está em formação tanto física quanto intelectual (ou mesmo você mais velho que deveria aprender a desconstruir alguns conceitos para viver em sociedade), vamos ao ponto principal: foram séculos de objetificação da mulher, seja em propagandas de cerveja, nos mangás harém do Akamatsu ou até em cosplayers de pernas de fora apenas para atrair público, mas devemos mudar isso já. Independente da tua roupa, se qualquer pessoa te tocar sem você querer é motivo sim para fazer barraco e reclamar com as autoridades competentes, não importa se você é uma cosplayer num evento repleto de nerd machista e babaca ou se você é uma princesa que procura sete bandidos para salvarem o seu reino de um grupo criminoso que se passa por bonzinho, o corpo é seu e só toca quem você quiser. E não compactue com esse tipo de história que mesmo sendo publicado no século XXI tem pensamentos tão retrógrados quanto esse machismo todo.

Meliodas e Nakaba Suzuki, melhorem porque tá feio.