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Meu Passado Otaku – Seria Bambuluá o grande seriado tokusatsu brasileiro?

13 dez bambulua-capa

Muitas pessoas acham que a invasão da Grande Nação Japonesa no Burajiru ocorreu em 1994 quando a Manchete introduziu um anime velho pra caralho que vem sendo requentado até hoje. Ledo engano, Leda Nagle. Os animes surgiram já nos anos 60/70 por aqui e faziam muito sucesso. No entanto, nos anos 80, quem atraia a atenção da mídia eram os seriados tokusatsu, aqueles lá de heróis mascarados, produção capenga e muitas explosões em uma pedreira. Changeman, Jaspion e o ninja Jiraya mudaram para sempre o conceito de heróis, e seu legado continuou nos anos 90 com o americaníssimo Power Rangers. Isso quer dizer que o nosso país ficou de fora da tentativa de emplacar um seriado tokusatsu? Claro que não! Em meados dos anos 2000, a Rede Globo penhorou todas as fantasias a TV Colosso para conseguir levantar dinheiro para seu projeto mais ambicioso: UM TOKUSATSU NACIONAL. Vamos relembrar hoje o icônico BAMBULUÁ.

No meio de 2000, a Globo separou um terreninho no Projac e prometeu para Angélica que ela iria ganhar um programa grandioso. Cansada de ser humilhada diariamente com a exibição dela cantando e dançando a abertura de Digimon Adventures, a loira topou na hora o projeto. Iniciou-se então a construção de uma cidade cenográfica dos sonhos chamada Bambuluá, um local em que alternariam histórias de aventuras e desenhos animados ruins importados da Fox Kids exibidos numa emissora fictícia chamada TV Globinho.

Para a parte da ficção, a Globo convidou os autores Julio Fischer e Claudia Souto para criarem aquele que seria o primeiro seriado tokusatsu do Burajiru, fortemente inspirado em Power Rangers. E quem duvida que esses dois tinham um pezinho na Cultura Mais Rica é só ver o currículo deles: Julio atualmente escreve a novela Sol Nascente e Claudia fazia parte da equipe por trás da novela Morde & Assopra que misturava dinossauros com o Japão. Nascia então Bambuluá, o tokusatsu que não tem fotos em qualidade boa na Internet:

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Bambuluá era exibida no meio da programação matutina em quadros de uns 10 minutos, sendo posteriormente compilados numa reprise torturante aos sábados de manhã. A trama não fica devendo aos mais clássicos tokusatsus da Grande Nação Japonesa e conta a história da apresentadora Angélica (interpretando ela mesma) que foi fazer um show de seu último CD na cidade de Bambuluá e que mal desconfiava que isso era um truque orquestrado pelo Senhor Dubem (que nome criativo). O mago revela que o show de seu último e decadente CD era apenas um pretexto para atrair Angélica para a cidade, pois eles estavam prestes a enfrentar uma crise agravada não pelo impeachment da autoridade, e sim pela tentativa de invasão do dominador da cidade de Magush, o maléfico Senhor Dumal (que… nome… criativo).

Angélica logo pensa que precisará usar um vestidinho verde e reencarnar a Fada Bela, mas o Senhor Dubem conta que ela está lá apenas para auxiliar os Cavaleiros do Futuro. Este é um grupo de crianças que vestem roupas coloridas com microfones de YouTubers, e seus poderem envolvem arremessar feixes de luz que eram o que o orçamento da Globo conseguia fazer depois de gastar uma fortuna para tirar Dragon Ball Z da Band. Cada uma tinha um poder especial baseado nos sete elementos: Sol, Luz, Vento, Eletricidade, Água, Magnetismo e Internet (sério).

“Mas Mara, sua blogueira implicante, você reclama até dos maravilhosos tokusatsu atuais! Aposto que os efeitos de Bambuluá não eram tão ruins assim!”

Claro que você leitor pensou nisso, e por isso fiz questão de providenciar GIFs animados das cenas de ação, todas filmadas em fundo verde e sem ninguém socando ninguém porque é a Globo produzindo:

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Vocês podem falar que a Globo quis fazer um programa sem violência, mas na verdade ela estava bebendo inspiração do tradicional RPG japonês Dragon Quest em que vemos heróis e vilões atacando em planos diferentes. Que homenagenzona, né não? No entanto, nem eu consigo inventar qualquer explicação possível para explicar a qualidade da CG do Senhor Dumal, este que é quase a vida passada de Dollyinho atuando como vilão de tokusatsu:

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Ok, temos uma cidade lúdica em apuros, um grupo de crianças que lutam, um porco em CG de Saturn… e onde entra a Angélica? Simples, caro leitor, ela não serve para absolutamente nada na história. Ela é apenas uma figura importante na trama que não tem importância alguma além de ser mais famosa que todo o resto do elenco. Para ela não ficar tão avulsa assim na trama, eles colocaram ela para fazer par romântico com o robô maléfico Bruck, que logo é convertido para as forças do bem e se veste igual a um jedi:

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Porém, a Globo não contava com a repercussão nula da história e com a falta de talento de 97% do elenco. A saída então foi tirar do cu um arco de envelhecimento dos protagonistas os mandando treinar dentro do Cristal (que funciona como a Sala do Tempo do Dragon Ball Z) e assim começar uma nova fase em Bambuluá Shippuden com todo o elenco infantil trocado por adolescentes que falharam nos testes de Malhação. Se ficou bom?

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Essa imagem do arco final com a Angélica trancafiada numa estrela frutuante em 2D e o Cavaleiro do Futuro verde suando na virilha por causa da temperatura do traje já indica que Bambuluá Shippuden era uma roubada sem tamanho. Eles botaram até o pipoqueiro e a professorinha da cidade numa roupa de guerreiro medieval pra batalhar numa pedreira no arco final:

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Após o apressado arco final, a Globo aposentou a cidade de Bambuluá e transformou a TV Globinho na principal atração das manhãs, rendendo até hoje uma geração de milenials que não superaram a saída de Super Pig ou de horríveis temporadas de Digimon da televisão brasileira. E assim morreu o primeiro tokusatsu nacional, que é tão esquecido pela própria Globo que nem ao menos achamos fotos e informações no Memória Globo. Que tristeza.

Meu Passado Otaku: As Apostas da Henshin para as estreias de 2002

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Onde vocês estavam em janeiro de 2002? Usando internet discada? Juntando dinheiro para ir ao Animecon? Comprando a linha completa de mangás da JBC que, naquele momento, correspondia a apenas quatro títulos? Não sei qual é a resposta, mas você provavelmente lia alguma revista de anime e mangá publicada na época. Para você que está acostumado a ver notinhas traduzidas do Anime News Network nos blogs da vida, é bem estranho pensar que no começo dos anos 2000 as pessoas compravam revistas quinzenais ou mensais apenas para se informar.

Uma das revistas mais populares da época era a Henshin, que hoje é nome apenas do canal online da editora que traz vídeos que abastece os otakus com informações e memes do Cassius Medauar. Mas, naquele tempo, as matérias e entrevistas com pessoas na área vinham nesse tipo de publicação. E, assim como os sites de hoje em dia, acabava rolando muita informação que não se concretizava, principalmente nas tradicionais matérias que traziam um preview do que viria ser exibido na televisão naquele ano. Quer uma prova disso? IKIMASU ver a matéria de preview 2002 feita pela revista Henshin em sua edição de número 30!

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2002 era o ano que Dragon Ball Z ainda tinha uma audiência absurda, então estavam todos muito animados com a promessa da exibição de Dragon Ball GT. Sabe como é, as pessoas ainda não sabiam a ruindade que era uma série com o Guil e um Vegeta com bigode do Tom Selleck. Infelizmente, o anime acabou demorando um pouco… só no final de 2002 ele foi estrear no Cartoon Network, dentro do bloco Toonami. Para dar aquela enrolada, a Globo passou a exibir a série original Dragon Ball toda picotada e com dublagem problemática na TV Globinho. Já o Patlabor que ganhou um box pequenininho na matéria nunca foi exibido mesmo.

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Doraemon era a representação do ditado “Quem espera sempre alcança”, porque era um dos animes que mais tentou chegar ao Burajiru sem sucesso. Primeiro tentaram nos anos 80 colocando a Angélica dançando ao lado de uma versão furry do protagonista, e aí passaram o resto das décadas de 90 e 2000 tentando emplacar o anime. Doraemon só veio voltar ao Burajiru com a estreia do anime na Netflix, e a sua cara de dúvida agora mostra que a presença do título na plataforma online não é tãããão sucesso.

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2002 já estavam cotando Yu-Gi-Oh! e Cavs na televisão brasileira, mas as coisas não foram tão bem. Yu-Gi-Oh! chegou na Nickelodeon no final do ano num esquema de exibição porquíssimo com episódios exibidos apenas nos finais de semana, e os Cavs ficaram só para o final de 2003. E, ao contrário do praguejado pelo redator da matéria, mexeram sim na dublagem. Ah, e nem preciso falar que Kamen Rider só foi ter chance muitos anos depois com a versão americana da série, né?

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Hamtaro acabou chegando ao Burajiru só em 2003, e realmente foi um sucesso. Tanto que aparece naqueles posts de nostalgia de “se você não assistiu isso quando era criança, você não sabe o que é ter infância” que as pessoas babacas compartilham. Mas, mesmo com o sucesso, Hamtaro só durou 3 temporadas na Grande Nação Japonesa. Minha teoria é que isso tem a ver com a expectativa de vida de apenas 3 anos dos hamsters, então uma criança que comprou um ratinho na primeira temporada acabou vendo a morte de seu Hamtaro depois desse tempo e ficou traumatizada.

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Essa matéria tem vários erros:

1- Slayers é chata pra caralho

2- Chamar a personagem de Rina em vez de Lina não é exatamente um “erro”. Erro estapafúrdio foi chamar o Gourry de Gaudi.

3- Que plano de trabalho de licenciamento??? O anime estreou em 2003 como tapa-buracos do programa de pegadinha do Otávio Mesquita e depois sumiu do mapa!

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Se você acompanha revistas informativas dos anos 2000 com certeza já deve ter ouvido falar de Magical Doremi, anime shoujo no estilo Sailor Moon que sempre quase chegou aqui no Burajiru, mas fracassou todas as vezes. Depois a Toei conseguiu emplacar Pretty Cure e nós no país ficamos apenas com a Eliana fazendo cosplay de Sailor Moon distópica no espaço

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No geral, a Henshin acertou boa parte das coisas. Falaram de Gundan Wing, Sailor Moon Super Star, Medabots… só erraram mesmo em coisas que acabaram chegando depois ou nunca foram licenciadas (ou seja, já ficou melhor que os históricos previews de começo de ano do Jbox). O triste mesmo é ver como animes estão tão fora da televisão hoje em dia, além da falta de relevância na Netflix… mas aí é assunto pra outra matéria.

Meu Passado Otaku – A revista de anime que publicou… um Boletim de Ocorrência (!!!)

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Não sei vocês, mas já ouvi muito caso de gente que brigou de verdade por causa de alguma indiretinha dada num post de Facebook. Ou seja, quer dizer que as discussões físicas começaram a existir apenas com a invenção das redes sociais? Claro que não, pois o nosso arcabouço da memória otaku do Burajiru tem um exemplo maravilhoso de uma briga que rolou lá pelos idos dos anos 90 e que foi publicado em capítulos mensais pelas revistas informativas na época. IKIMASU acompanhar como rolou a treta entre Sérgio Peixoto, editor da revista Animax, e Marcelo Del Greco, então redator da revista Herói.

No auge das revistas informativas, que nada mais eram que versões analógicas dos blogs que hoje postam apenas notícias do Anime News Network e resuminhos pedantes com impressões dos animes da temporada, havia uma rixa entre várias publicações. Tínhamos a pioneira Herói, a Heróis do Futuro (cujo diferencial era oferecer cenários dos cavaleiros pra você recortar e montar suas próprias colunas jônicas) e a revista Animax, única realmente especializada na cultura da Grande Nação Japonesa. E num belo dia dos anos 90, se um leitor comprasse a edição número 21 da Animax encontraria algo MUITO INUSITADO na parte editorial da revista. Confira:

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Acredite, quando eu disse que encontraria algo muito inusitado eu não estava falando desse design maravilhuóso que apenas os anos 90 podiam nos proporcionar (o que é essa Lucy no fundo da página??), e sim do conteúdo. Um relato de Sérgio Peixoto contando como foi agredido por Marcelo Del Greco, escrito com toques poéticos e ganchos para que a história se tornasse a próxima saga do torneio de luta desse shonen protagonizado por jornalistas. Vamos dar um zoom e conferir como foi essa treta, né?

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Resumindo esse trecho: incomodado com a qualidade editorial de uma matéria sobre Evangelion na Herói, uma pessoa aí escreveu no site da Animax uma crítica sobre a crítica e isso incomodou muito Marcelinho, que após os 27 minutos necessários para conseguir se conectar à internet nos anos 90 se enfureceu e decidiu procurar Sérgio Peixoto para tirar satisfações. O que será que aconteceu depois????

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Não sei se achei mais emocionante a comparação dramática com futebol, provavelmente prevendo a estreia de Super Campeões na Manchete, ou se foi ver que os amigos do Peixoto são apelidados como os personagens de Mighty No.9 (aquele jogo que vem competindo com o Star Fox Zero para saber quem sai por último). Mas o relato do editor da Animax terminou com algumas perguntas ao rival:

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Depois de mais poesia, Sérgio Peixoto fez o que achamos inimaginável. Se já nos parecia bem absurdo a discussão pública que rolou no grupo da Ação Magazine entre os editores da revista, imagine que nos anos 90 uma página inteira de uma revista especializada em coisas da Cultura Mais Rica foi ocupada por um BOLETIM DE OCORRÊNCIA. Se o Mais de Oito Mil existisse na época, com certeza isso renderia pautas por um mês inteiro (provavelmente o tempo que vocês leitores levariam para carregar todas as imagens na internet discada).

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Impressionante, né? A história ainda se arrastaria um pouco mais, pois a revista se preocupou até em dar o desfecho da história aos leitores, informando em um segundo editorial que Marcelinho foi condenado a pagar uma multa e o caso foi encerrado.

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O tempo passou e ninguém sofreu calado. Sérgio Peixoto comprou um megafone e começou a cuidar de eventos de anime enquanto Marcelo Del Greco arranjou um trampo na editora JBC como editor de revistas informativas e de mangás. Já as respectivas revistas informativas, Herói e Animax, morreram e hoje sobrevivem apenas através de um livro recentemente lançado e um grupo no Facebook.

(Obrigado ao leitor Conrado pela ajuda em encontrar essas imagens)

Meu Passado Otaku – Como eram os eventos de anime no começo dos anos 2000

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Um dia eu estava na rua voltando da banca de jornal após comprar algum volume de mangá superfaturado quando um otaku com bandana do Naruto me abordou: “Mara, como que eram os eventos de anime na época que não haviam fotos digitais? Temos poucos registros disso na Internet”. Achei uma dúvida muito interessante, pois muito otaku frequentador de Anime Friends hoje em dia não faz ideia que rola evento de anime desde os anos 90 e… veja bem… pouca coisa mudou.

O meu dever jornalístico superou o medo de uma iminente rinite e desbravou fotos escondidas no fundo do meu armário ao lado de volumes de mangás que eu preferiria esquecer que comprei, como Busou Renkin. E com a ajuda de um scanner que levei menos de oito horas para fazer funcionar, trago aos leitores várias fotos mostrando como eram os eventos de anime no começo da década passada. IKIMASU se aventurar naquela época repleta de meio-tankos e animes populares na televisão.

***

Pra começar, essa é uma tomada aérea do Animecon 2002. Na época, o Animecon era o maior evento do Burajiru até ser desbancado no ano seguinte pelo surgimento do Anime Friends, que trouxe a inovação de promover shows com Artistas Internacionais. Uma década depois, Hironobu Kageyama veio tanto ao Burajiru fazer show em evento da Yamato que desconfiamos que ele mora secretamente num puxadinho na Liberdade.

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Até parecia organizado, né? É porque eles pegaram um lugar bem maior para o evento, pois houve uma explosão de público na edição anterior, o Animecon 2001. Na próxima foto podemos ver 3 coisas muito importantes que rolava em eventos da época: bagunça generalizada, cosplayers de Dragon Ball e pastel de feira custando menos de R$ 1,50:

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E quando eu disse que tinha muito cosplay de Dragon Ball eu falo a real, afinal não era incomum você achar que ia arrasar na festa com sua fantasia de Videl e encontrar lá metade do rolê com o mesmo cosplay:

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(isso sem contar nos photobombs causados pela falta de espaço para circulação)

Aliás, reconhecem quem são essas duas pessoas na próxima foto? Dica: suas vozes inspiraram personagens que até hoje recebem fanfics toscas de aspirantes a escritores. São Fábio Lucindo e Daniela Piquet! O primeiro é/era o dublador do Ash de Pokémon (e na época ele já estava dublando a terceira temporada do anime) e a segunda é a parente do Nelsinho dubladora da Sakura de Sakura Card Captors. Sim, eventos de anime apostavam em dubladores no lugar de palestras dadaístas com YouTubers:

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E como sempre games e otakus andaram juntos (afinal ambos sofriam bullying na escola), a editora Conrad já apostava em novas tecnologias ao levar o recém lançado Gamecube ao Animecon 2001. E como é difícil manter o interesse por um videogame roxo que mais parece o fogão da Barbie, eles ainda aproveitaram que não havia problematização no Facebook para botar uma Sailor Jupiter bonitona para atrair a atenção.

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Mas vamos ao ano de 2003, quando a Yamato marcou seu primeiro Anime Friends exatamente no dia do Animecon daquele ano. E o que ela trouxe de mais? Primeiro, contou com a presença de vários cosplayers que ficavam mais parados no meio da multidão que carro viajando pro litoral no feriadão:

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Também trouxeram um grande palco para apresentações e shows, com direito a som péssimo e tudo numa altura tão elevada que metade do público passava o dia seguinte enrolado em Salompas:

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Fora a invenção do Desfile Cosplay, uma área super bem iluminada para você tirar fotos dos seus personagens favoritos:

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Ah, e a presença de artistas internacionais que davam autógrafos a qualquer um, pois isso rolou antes da invenção da cobrança por meet & greet:

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Mas o Anime Friends sofreu um baque em sua segunda edição, pois o evento mudou de local e foi para o Espaço das Américas, praticamente uma quitinete escura que precisou comportar milhares de otakus em quatro dias de evento. O local era abafado e sombrio, deixando qualquer foto que você tirasse parecendo promo do novo Atividade Paranormal:

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(Sim, já tinham costosos na época)

Isso sem contar que o Anime Friends 2004 foi o primeiro evento a contar com a participação oficial da Nintendo no Burajiru, trazendo muitos jogos de Gamecube, campeonatos e assustadores personagens da empresa inflados como um boneco de posto:

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Como o espaço do evento era péssimo, começou a tradicional mania dos otakus de tirar fotos em qualquer canto. Foto na passarela do metrô Barra Funda? Sim, isso rolava!

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Foto de grupo de Final Fantasy VIII na frente de carrinhos de cachorro quente oportunistas? Sim, também rolava!

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Foto em pracinha para os cosplayers de animes flopados da Locomotion tirarem suas fotos? Claro que rolava!!!

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Fotos em grupo eram sempre um sucesso, mas a gente tá aqui para analisar o cenário. Repare nos banners anunciando Combo Rangers pela Panini e o site Anime Pró, precursor da editora NewPOP:

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E aqui temos duas coisas que muitas pessoas juram que ficaram nos anos 90, sem saber que continuam até hoje. À esquerda temos um vendedor de filmes para máquinas fotográficas, e à direita temos Sérgio Peixoto, editor de revistas especializadas e organizador de eventos que tinha um fã-clube e andava com um megafone insuportááááável:

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Na época já rolavam campeonato de Pokémon, surpreendendo você leitor que acha que o competitivo do jogo surgiu outro dia e que você é o Pika das Galáxias breedando com apps ilegais. Isso que separam os jogadores são os pré-históricos cabo game-link, e não vemos nenhuma extensão exposta porque os Game Boys funcionavam comendo pilha AA pra caralho:

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Também é curioso ver que a idade dos participantes dos campeonatos de Pokémon no começo dos anos 2000 é igual à idade mental do fandom atualmente:

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Não tenho nada para falar sobre o local ou o evento, mas adorei a cara de susto do rapaz oriental ao ver seu almoço interrompido pela aparição da vovó Kaede de Inuyasha:

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Meu Passado Otaku – Matéria sobre o amor de Angélica por Digimon na Disney Explora em 2000

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Vocês sabem quem é a imperatriz das animações da Grande Nação Japonesa no Burajiru? Se você respondeu a Eliana, a Kira ou a Mitsui, sua resposta está errada! A apresentadora que mais contribuiu para a disseminação da filosofia oriental através de desenhos com poucos quadros de animação foi Angélica. Duvida? Além de ter apresentado Jaspion, Changeman e qualquer outro herói de roupa colada dos anos oitenta, isso sem falar no Doraemon, a loira que já fazia campanha contra o Uber na canção Vou de Táxi foi a representante brasileira do anime Digimon, aquele desenho cheio de pontos luminosos no cenário e repleto de personagens clichês que o pessoal hoje em dia venera como se fossem o suprassumo da profundidade psicológica.

No começo dos anos 2000 tínhamos uma coisa chamada “revistas informativas” nas bancas, e umas delas era a Disney Explora. Às vésperas da estreia do anime na Globo, Angélica deu uma entrevista para a Explora falando das expectativas, o que tinha achado da animação e ainda posou para uma montagem mais constrangedora que a capa da Caras da semana passada com a Ticiane Villas Boas. O texto da matéria não é encontrado na internet, então tive que dar uma forçada na miopia para transcrever tudo, ok?

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Que capa maravilhosa, minna. Todo o talento de design dos anos 2000 está representado por uma única composição em que o artista apenas pegou uma foto da apresentadora imitando uma flor de lótus se abrindo e aplicou um monte de png dos monstrinhos do anime, sem qualquer critério. Mas, melhor que a imagem, é o texto:

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Ok, IKIMASU transcrever com o auxílio do grande Bloco de Notas do Windows:

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É muita coisa maravilhosa que nem sei por onde começar. Que tal o apelido inventado pela apresentadora, DIGIMAMA!? E o que dizer do Digimon favorito dela ser o mesmo que boa parte das viúvas da série, mas que no caso da Angélica é por um motivo meramente egocêntrico??? Prestaram “atençãop”??? E para provar que no começo dos anos 2000 a Angélica já mostrava ser uma tiazona que nasceu umas duas décadas antes, ela usa a expressão “SUPERFERA EM COMPUTADORES” para adjetivar o moleque!!! É o que espero de uma apresentadora que fazia rimas mind blowing tipo essa:

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PASSEI A MINHA INFÂNCIA TODA QUERENDO IR NA TAL FESTA DA BETE!!!

(E achando que ela falava “ele é comprido” em vez de “ele é Cupido”… eu acho que a apresentadora tinha uns problemas de fono…)

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Angélica é gente como a gente, que finge ser compromissada com trabalho apenas para tirar alguma vantagem. Olha ela aí tentando dar uma indireta pra Globo levá-la pra Grande Nação Japonesa com a desculpa de ~conhecer a Terra dos Digimons~. Claro, vamos para o país da cultura mais rica pra conversar com animadores da Toei em vez de comer comida típica e pegar videocassetes de sete cabeças que os japoneses jogam no lixo.

Falando em Toei, ela ainda diz que queria ir à Grande Nação Japonesa perguntar quais seriam os próximos desenhos e as novidades deles. Desculpa te informar, minha tomodachi… mas o que assistimos hoje não tá muito diferente do que você vê aí em 2000:

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E pra fechar com chave de ouro, Angélica termina a matéria da Disney Explora falando isso:

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Muito antes de Gilberto Barros surgir na televisão transferindo toda a culpa da falta de controle que os pais têm nos filhos para as cartas de Yu-Gi-Oh, Angélica já se colocava em defesa dos animes dizendo que eles traziam mensagem de paz para as crianças. Seria lindo se a gente não lembrasse que se passaram 16 anos da publicação dessa matéria e que as crianças que viam o anime naquela época estão apoiando Bolsonaro, matando bebês indígenas e batendo punheta com cenas gratuitas de calcinhas em animes.

SEJAM PESSOAS MELHORES, NÃO DECEPCIONEM A ANGÉLICA!!! Quem se comportar vai ganhar um convite pra festa da Bete!

Meu Passado Otaku – Matéria sobre otakinhos na Revista Veja em 2003

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Você jovem otaku que grita ensandecidamente para pirralhos YouTubers cujas apresentações no Anime Friends consistiam em fazer gritaria deve achar que essa febre das otakices é algo muito recente, mas não. Há otakus de décadas atrás que já se reuniam para participarem de eventos ainda mais desagradáveis que os de hoje em dia. Em 29 de janeiro de 2003, a revista Veja publicou uma matéria sobre o mundo dos otakus após a realização de um evento de verão chamado Anime Festival (que não foi citado na matéria provavelmente porque São Paulo colocou sigilo de 15 anos nele), e eu achei tão maravilhosa que decidi criar até uma nova seção para o Mais de Oito Mil: que tal lembrarmos como era a cobertura de matérias antigas e comparamos com os eventos de hoje? IKIMASU!!!

A edição da famosa revista semanal tinha uma capa falando sobre diabetes (hoje já sabemos que eles só usavam matérias sobre saúde quando acontecia alguma denúncia contra o PSDB ou quando estavam sem imaginação para acusar o recém-eleito Lula), mas é no miolo que a jornalista Thaís Oyama (hoje uma das redatora-chefe da Veja) se aventurou no mundo otaku para essa matéria:

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A reportagem é muito maravilhosa porque, mesmo falando sobre o passado, muita coisa é compatível com os tempos atuais. A começar com a descrição do que é um otaku brasileiro:

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~encontro de mangamaníacos~

Mesmo com esse uso de palavras, não é que Thaís conseguiu definir bem os otakus? Ou vai me dizer que a mãe de vocês nunca chamou para mostrar qualquer matéria aleatória na TV que mostrasse a Grande Nação Japonesa? E antes de questionar as respostas da pobre estudante de computação gráfica Suzy Costa (que eu tentei em vão encontrar no Facebook), principalmente por gastar 24 horas do dia pensando em animes maravilhuósos como Love Hina, vamos ver quem foi o outro personagem escolhido para essa matéria?

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SIM, ISSO ESTÁ ACONTECENDO!!! O nosso famoso Ricardo Cruz também apareceu na matéria da revista especializada em chorume!!! Na época com 21 anos e bem longe de ser o primeiro cantor brasileiro do JAM Project, Ricardo era apenas cantor de karaokê que levava a multidão de tokukus às lágrimas com seus hinos oitentistas que exaltavam heróis com roupas de alumínio. Sorte que o tempo passa, embora Ricardinho ainda cante essas mesmas músicas levando tokukus (cada vez mais velhos) a desidratar mais um pouco.

Aliás, reparem como a revista escolheu os mangás mais representativos daquela época para ilustrar:

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(o Gen americano, as capas psicodélicas de DBZ, os meio tankos de 90 páginas da JBC e o fracasso de vendas DR Slump, que mesmo tendo sido um fracasso e não ser assim tããão divertido ainda tem otaku implorando para que seja publicado)

E já que falamos de mercado editorial:

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Peraí, tá certa essa conta de um milhão de exemplares por mês em 2003? Alguém pode dar uma luz?

E como faltava espaço para ocupar duas páginas e não tinha mais com o quê a Thaís enrolar, deram uma passadinha no andar da Capricho e prepararam um teste super atual para você saber se é um otaku:

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UFA, EU NÃO SOU OTAKU!!!