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Dinheiro e falta de gestão são os grandes vilões dos tokusatsu na TV brasileira

Após 26 semanas com tokukus (os fãs do gênero tokusatsu) vibrando a cada hashtag ou ponto de audiência não-consolidado, o sonho acabou na Band. O gênero de atores japoneses lutando em pedreiras sofreu duas grandes derrotas nos últimos dias e isso colocou em cheque a permanência do tokusatsu na televisão brasileira. Enquanto os fãs otimistas buscam culpados para essa derrota, venho aqui para dar o nome dos dois culpados que atrapalharam o advento dos guerreiros de armadura na tv: dinheiro e falta de tato seriam os vilões desse rolê.

Basicamente os tokusatsu da Band foram derrubados pelo retorno do futebol à grade. Lá em março a emissora topou reprisar enlatados japoneses antigos porque, com o começo da pandemia, havia um buraco na programação. Como eles vinham de um bom relacionamento com a Sato Company graças ao sucesso da exibição de Orange is the New Black, eles aceitaram botar Jaspion e seus amigos no horário.

Mesmo com uma audiência mais animadora que o futebol, os heróis japoneses eram apenas um prejuízo: não havia anunciantes dispostos a apostar no horário. Nostalgia é muito difícil de vender na TV, poucos fazem um plano inteligente como quando a Rede Brasil reexibiu Cavaleiros e Dragon Ball Z apenas para bombar comercialização de camisetas e kits escolares. Como eu já disse na época da estreia do Jaspion, mesmo se o futebol desse 0,1 ponto de audiência, ainda seria mais vantajoso porque há patrocínio no esporte.

Com a chegada do futebol alemão, que veio nessa nova tentativa da Band de ser novamente “o canal do esporte” bem no horário dos tokusatsu. A saída lógica seria eles mudarem de horário, certo? Afinal, se dão uma audiência legal eles podem ser usados em outro horário, talvez servir pra bombar a audiência de outro programa… mas aí esbarramos no problema de falta de tato na hora de se negociar as séries.

Falta de tato” pode ser uma palavra meio dura para se referir a este caso, até porque a empresa envolvida sempre prezou por licenciar materiais oficialmente com japoneses e tudo mais como manda a lei, mas a gestão dos tokusatsu e de suas dublagens pela Sato foi um pouco questionável. Após o final de Jaspion, a empresa conseguiu emplacar uma exibição de Kamen Rider Black com visual restaurado e dublagem inédita do último episódio… porém a empresa colocou o seriado no ar sem assinar todos os documentos necessários para isso.

Como a thread acima já contou, o dublador Élcio Sodré (ninguém menos que O Kamen Rider Black) não entrou em um acordo com a Sato e havia entrado com um pedido para que o programa fosse retirado do ar. Diante desse golpe, a Sato publicou em suas redes sociais duas notas de esclarecimento bem ruins que serviram apenas para incendiar a já-muito-tóxica fanbase tokuku, que começou a atacar o dublador cujo objetivo era só receber o que lhe era devido conforme determinado pela lei.

Foi bem pouco sagaz criar uma nota de esclarecimento insinuando uma pessoa como a grande culpada por acabar com os sonhos dos tokukus (sim, a palavra “sonho” foi usada no esclarecimento), pois logo outras pessoas do meio artístico começaram a tomar partido do dublador. Inclusive dubladores que afirmam não terem assinado documentos de cessão de direitos de voz dos seriados já exibidos pela Band.

Se os tokusatsu tinham alguma chance em outro horário, ela foi jogada fora pela emissora que se viu no meio de um turbilhão. A exibição de seriado não só não dava dinheiro como também acabou indo parar em todas as notícias, o que nenhuma emissora gostaria de se envolver.

Alguma coisa pode mudar no futuro? Claro, mas faz sentido imaginar que a Band deve estar com todos os pés pra trás agora.