Aleatoriedades

Muitos sonhos e poucos releases: Anistage vislumbra um mercado de animes brasileiros

Dependendo das conexões de sua bolha nas redes sociais, você pode ter dado de cara com a imagem que ilustra essa matéria. Um pôster com nome em inglês e com desenho ao estilo anime trazendo todos os elementos que esperamos de um shonen adultão. Se trata de um dos animes que devem integrar o catálogo do Anistage, uma empreitada de fãs de animes para lançar um serviço de streaming próprio no Brasil e em outros países.

Como sou uma pessoa com muitos pés atrás, até por ter feito cobertura de outras empreitadas como o livro Ash vs Red, achei que as informações disponíveis na internet sobre o Anistage eram muito vagas. Não tinha visto a notícia aparecendo em nenhum site de notícias grande, nem nos mais nichados e humildes, apenas no perfil do Otakus Brasil no Twitter. Convenhamos, anunciar algo apenas em um perfil no Twitter, por maior que ele seja, e ignorar a imprensa me parece algo muito inusitado.

Precisava de mais informações sobre o Anistage, sobre seu anime nacional Decay of the Knights e, principalmente, descobrir quem são as pessoas envolvidas nesse projeto. Tirei da gaveta minha carteirinha de jornalista que estava embaixo de um Nintendo DS empoeirado e saí pelas ruas atrás dos envolv… ok, a situação é menos jornalismo gonzo do que eu gostaria: conversei com um dos idealizadores do projeto, o Jailson PS Junior, através das redes sociais. E consegui (algumas) respostas.

O Anistage será um serviço de streaming com assinatura mensal para a transmissão de animes nacionais feitos de forma independente. “É difícil você ver alguma produção independente entrando com facilidade no catalogo dessas grandes empresas (como Netflix, Prime Video), nosso objetivo é deixar flexível essa possibilidade“, comentou Jailson ao Mais de Oito Mil. Como se fosse um agregador de conteúdo, o Anistage visa tornar possível o streaming para pequenos estúdios ou grupos que tenham conteúdo de qualidade, mas sem lugar para publicar. Ele resume a proposta: “Um local com foco no indie, um local seguro e amigável“.

O primeiro grande projeto do grupo é o anime Decay of the Knights, que reúne uma quantidade impressionante de características adultas que atraem o público adolescente: há uma ambientação medieval, a presença de sangue, personagens dúbios e corrompidos e um pomposo nome em inglês. “É para o público adulto“, diz o produtor.

A história é ambientada em um país fictício da Europa medieval, em que o jovem Arthur Pride depara-se num confronto direto com as forças do mal em uma trama com poderes baseados na Bíblia. A sinopse, que luta pela atenção do público através de frases feitas de trailers norte-americanos, é encerrada com uma lista de palavras que são quase como hashtags do que encontrar na produção: “Inocência, lealdade, valores, ambições, dúvidas, luz e trevas. Essas são as palavras-chaves que permeiam a trama de DECAY OF THE KNIGHTS!“.

Tive curiosidade de conhecer as inspirações do grupo na concepção de Decay of the Knights, e a resposta do Jailson me deixou bem surpresa. Eu esperava uma já-esperada referência ao mangá Berserk, um clássico do capa e espada edgy adorado pelo público otaku brasileiro, mas a inspiração é de uma outra produção algumas décadas mais recente: a série Castlevania da Netflix.

Talvez você leitor do Mais de Oito Mil nunca tenha apertado o play na produção, mas Castlevania é uma animação “ao estilo anime” e produzida por Adi Shankar, um otaku americano fervoroso que imprimiu às suas produções os elementos estéticos mais perceptíveis em animes, como os olhos grandes. Me surpreendi com a citação a Castlevania porque a produção é de 2017, mas se for fazer as contas já é possível dizer que temos atualmente jovens adultos no mercado profissional que foram impactados na juventude pela produção vampiresca.

Decay of the Knights é produzido pelas mãos de um grupo composto por vários jovens animadores que já atuam profissionalmente em trabalhos remotos na área. Mas como um anime não é produzido apenas por boa vontade e softwares de animação, eles contam também com planos grandiosos: “O roteiro ficou a cargo de 3 pessoas, estudantes da UFRN que cursam Artes Visuais e trabalham no estúdio de animação da própria faculdade“, iniciou as explicações sobre o tamanho da produção, “trilha sonora, pós-produção, dublagens e figurinos temos grupos e parceiros envolvidos“. Com dedicação total, é possível finalizar cada um dos 10 episódios previstos em dois meses.

A Jesse de Pokémon já dizia que “quando vamos sonhar já temos que sonhar grande“, e o Anistage já vê bem além do nosso território nacional. Jailson explicou que têm a intenção de transmitir para além do Brasil, Portugal e países de língua portuguesa, e pensando nisso já fizeram a aquisição de um servidor localizado na França (para não restar dúvidas, um emoji com a bandeira do país foi mandado na conversa). “A equipe de dublagem está preparada para deixar a série em outros idiomas, são mais de 200 vozes pertencentes à equipe que é um novo estúdio que está para surgir junto“, finaliza.

Confesso que achei a proposta e a iniciativa interessantes, mas vejo alguns pontos de atenção que precisam ser trabalhados. A divulgação do serviço Anistage e de seus animes exclusivos tem sido feita exclusivamente nas redes sociais do projeto, sem qualquer plano para além disso. As poucas matérias que surgiram em sites informativos foram de pessoas que esbarraram no tweet do pessoal e compartilharam as informações. Também é bem comum os posts terem erros de português, algo que pode tirar a credibilidade do projeto e precisa ser melhor trabalhado com uma revisão mais atenta.

Cheguei a solicitar um release várias vezes na conversa, até pra poder colocar aqui a sinopse do Decay of the Knights, mas sempre era informada para ver o vídeo lançado no perfil do Otakus Brasil. O vídeo no caso é um teaser do projeto com a história narrada usando os efeitos visuais de Star Wars:

Percebi também que algumas perguntas que fiz pegaram o grupo de surpresa, como quando queria saber se eles têm uma projeção de assinantes para tornar o Anistage viável. Questionamentos sobre lançar outros projetos paralelos de Decay of the Knights (talvez um mangá) ou então a possibilidade de licenciar o anime para algum serviço de streaming tiveram respostas hesitantes.

O que vejo é um grupo bem intencionado, mas igualmente cru. Talvez falte uma assessoria para lidar com situações que eles não estão acostumados, ou mesmo um certo conhecimento de marketing para fazer a notícia furar a bolha de perfis de Twitter que atingem muitos otakus adolescentes. Embora expressivo, esse grupo pode acabar se voltando contra o projeto dependendo do que eles rejeitarem, tanto que o próprio perfil do Otakus Brasil chegou a perguntar sobre a viabilidade uma assinatura mensal de 5 reais e recebeu algumas mensagens do tipo “não pago por anime” ou “minha mãe/pai não deixa gastar dinheiro em algo da internet“.

Enquanto eles compartilham em redes sociais cada vez mais projetos e informações de worldbuilding de uma animação que nem trailer foi divulgado, acho que é legal encerrar a matéria com uma aspa positiva do responsável. Perguntei a Jailson qual era o sonho do Anistage, e ele respondeu “Ser grande o suficiente para crescer o mercado nacional de animações mais sérias, e gerar mais oportunidades“. Como já dizia um grande mestre, eu me pergunto se não seria conveniente que os adultos tivessem um pouco dessa fé que têm os mais novos.