Mercado Nacional

Esse mangá precisava de um título em inglês?

No JBC Bits exibido ontem (7), a editora JBC revelou a capa de seu próximo mangá, uma trama fantasiosa anunciada um ano atrás durante a palestra do Anime Friends. O mangá é “I sold my life for ten thousand yen per year“, e pela imagem mostrada deu pra reparar que a JBC optou por lançar o mangá com esse título aí em inglês.

Decisão editorial? Imposição dos japoneses? Não sabemos qual será a desculpa explicação dada para essa decisão, afinal até hoje sou ironizada pelos editores por ter perguntado sobre a vírgula de “Boa Noite Punpun” (sic). Mas como eu já sou conhecida mesmo como a chata do meio editorial, a que fica torcendo contra e tudo mais, decidi fazer uma matéria (um pouco longa, desculpa aí) sobre como essa parece ser uma decisão equivocada a ser tomada.

Japão e seus nomes compridos

A gente reclama do número de coisas que a Panini despeja sempre nas bancas, mas a quantidade de mangás lançados no Japão é gigantesca. Sabendo que a disputa pela atenção do leitor na livraria corre solta, cada título apela como pode para atrair o comprador. Além das capas apelativas, uma tendência japonesa são títulos imensos que servem como sinopses estampadas na capa com letras garrafais.

Isso se popularizou bastante com o gênero isekai, e é o caso do próximo lançamento da JBC, o Jumyou Wo Kaitotte Moratta, Ichinen Ni Tsuki, Ichiman En de. Se um japonês chega numa livraria e vê esse título numa capa, ele logo entende que está escrito “eu vendi minha vida por dez mil ienes por ano“.

O título tem uma construção muito inusitada, pois a proposta dele é deixar a pessoa curiosa para saber do que se trata. O título grande é a primeira estratégia de marketing dessa história sobre um homem que é bem pobre e ele faz um pacto em que ele vende o período que resta de sua vida.

Como a área de divulgação não é necessariamente a mais funcional aqui das editoras de mangá, chegamos a um impasse.

O problema do inglês

A primeira vez que ouvi falar desse mangá foi naquela palestra da JBC no Anime Friends, através do nome americano: I sold my life for ten thousand yen per year. Como tive a oportunidade de aprender o idioma inglês, consegui entender a premissa quando olhei o nome. O título me pegou pela curiosidade e provavelmente irei comprá-lo, mas esse efeito não aconteceria se uma pessoa não conhecesse o idioma.

Atualmente o mercado de mangás está numa crise com vários culpados, e comicamente as editoras nunca assumem uma parcela da culpa. Foi-se construindo um mercado nichado, pequeno e sem qualquer pretensão de expandir. Pelo contrário, qualquer decisão tomada a fim de popularizar mangá no Brasil é recebida aos golpes de katana da fanbase. Alguém aí lembra o surto que rolou quando o mangá Ataque dos Titãs da Panini foi lançado com o nome em português em vez de trazer o americano Attack on Titan ou o japonês Shingeki no Kyoujin? Teve até otaku dizendo que o fã da série seria incapaz de reconhecer os garranchos do autor se visse o nome em português na capa!

Como as editoras passaram anos alimentando esse monstrinho chamado otaku, agora elas são reféns das vontades desse grupelho cheio de preconceitos e receios de popularização. E uma coisa que otaku gosta muito é a sensação de superioridade, de saber  apreciar um produto que outras pessoas não conseguem, e a barreira do idioma funciona dessa forma.

Precisava ser em inglês?

Uma coisa é o autor da história dar um nome em inglês para seu mangá. Às vezes ele quer um título que mais gente no mundo pode conhecer ou então porque ele quer “palavras de impacto” que podem ou não fazer sentido.

Dragon Ball.

Black Clover.

Great Teacher Onizuka.

Não são mangás que é necessário você entender o título, até eles saíram assim no país original e não é todo mundo que fala inglês por lá e pode entender aquelas palavras.

Mas outra situação completamente diferente é quando a proposta do título é contar alguma coisa, sendo necessário que o leitor bata o olho e entenda o que está escrito. Nessa caso, é recomendável a tradução do título todo, como rolou com Ataque dos Titãs, ou colocar um subtítulo como Wotakoi – O Amor é difícil para otakus.

Esse exemplo do Wotakoi é ótimo: o título em si é “Wotaku ni Koi wa Muzukashii” uma frase em japonês, mas a série ficou mais conhecida no Japão como “Wotakoi”. Ao lançar no Brasil, a Panini decidiu colocar o apelido dos fãs e uma adaptação do título, até porque a palavra “Wotakoi” significa absolutamente nada. Ótima decisão e quem bate o olho sabe mais ou menos o que esperar, uma comédia romântica sobre otakus.

I sold my life for ten thousand yen per year não é conhecido o suficiente para poder sair com o nome original, e o título não é simples como um Dragon Ball que permita ser lançado com o nome em inglês. Isso porque nem estou considerando a barreira econômica por exigir que a pessoa saiba mais ou menos quanto vale dez mil ienes.

Colocar o nome desse mangá em inglês só torna o título mais inacessível, acaba com a intensão dos criadores de ser uma sinopse identificável na capa e ainda exige que a pessoa busque conhecer a trama de outras formas. Sei lá, vai ver a JBC já considera que a pessoa veja a sinopse na capa de trás, ou então nos vídeos deles ou nos posts do Biblioteca Brasileira de Mangás, mas convenhamos que eles perderam o melhor lugar de conquistar o leitor.

Mas assim, estou aqui falando que discordo totalmente da decisão editorial, mas a coisa sempre pode ir para um outro lado. Assim como a minha pergunta sobre as regras das vírgulas foi transformada em chacota pelos editores, toda essa matéria pode ir ao chão se a editora usar sua carta armadilha mais preciosa: “não podíamos traduzir o nome porque foram ordens do licenciante”.

Será?

Tradução fora do Brasil

Fui lembrada gentilmente pelo pessoal do Biblioteca Brasileira de Mangás e pelo site Lacradores Desintoxicados que o I sold my life for ten thousand yen per year ganhou nomes diferentes em cada lugar que foi publicado. Veja:

https://platform.twitter.com/widgets.js

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Em italiano o mangá se chama “O Preço de Uma Vida“, já em francês é “O Preço do Resto de Minha Vida“. O curioso caso do licenciante que deixa alguns traduzirem/adaptarem, outros não. Inclusive muito legal o título francês, porque ele tem o mesmo tom de “ué?” que o original traz, mas parece mais um título que o escolhido pela editora brasileira.

A JBC tomou uma decisão estranha recentemente no mangá do Slime, cujo título no Brasil é em inglês quando no resto do mundo é traduzido para o idioma local. Claro que nesse caso deve ter pesado o fato do anime ter sido lançado no Brasil pela Crunchyroll com o nome em inglês, mas até aí quem disse que a escolha da Crunchyroll foi acertada? O streaming também tem o péssimo costume de colocar nomes em inglês porque a fanbase reclamaria de uma tradução ou porque passa a impressão de sofisticação.

O fato é que qualquer explicação que possa ser dada a respeito da escolha deste nome (imposição de japoneses ou o que for), apenas reforça o comportamento da editora de tornar cada vez mais de nicho o mercado de mangás e como ela vai depender cada vez mais do otaku genioso de internet.