Aleatoriedades · Vergonha Alheia Televisionada

Sem fanbase para reclamar, Band picota Super Onze e dificulta compreensão

Com a atenção da Band focada para a exibição de séries japonesas com três décadas de idade, muitas vezes até nos esquecemos que existem outras produções orientais sendo exibidas aos finais de semana. Uma dessas séries é o anime Super Onze, que conta a trajetória de um time infantil de futebol que mistura disputas empolgantes, poderzinhos demoníacos no meio do jogo e conflitos interpessoais entre as partidas… quer dizer… não na Band. Acredite ou não, mas em sua transmissão a emissora paulista faz questão de cortar qualquer desenvolvimento de história e até mesmo gols importantes.

Com o hiato dos animes em simulcast para assistir nas manhãs de domingo, pegamos um hábito curioso aqui em casa: acompanhar à transmissão de Super Onze pela Band. Não cheguei a acompanhar o anime quando estreou no Brasil pela RedeTV em meados de 2010, mas sempre achei a premissa muito mais atraente para mim do que o Super Campeões e seus campos de futebol com 18 quilômetros de comprimento.

Cena do desenho Super Onze

Porém, nas vezes em que assistia ao anime aqui em casa tínhamos dificuldades de entender o que estava rolando. Claro, não somos muito assíduos e assistimos somente quando acordamos cedo, o que nos faz perder alguns pedaços, mas mesmo assim algumas coisas não seguiam uma cronologia muito lógica.

Hoje (5), no entanto, acordamos cedo com o objetivo de ver tudo de Super Onze e percebemos que a compreensão do anime está prejudicada por causa da transmissão da Band.

Cortes da Emissora

Super Onze ocupa uma hora da grade da Band, sempre aos domingos. Nesse período de tempo, a emissora enfia quatro episódios das aventuras de Endo e os outros, e já aí percebemos que a conta não bate. Cada episódio dura 24 minutos, então é impossível exibir quatro dentro de uma hora, certo? O jeito mais fácil para conseguir o feito é usando a boa e velha tesoura.

Para suprimir o equivalente a 10 minutos de cada episódio, a Band corta abertura (exibindo apenas uma montagem de uns 20 segundos no lugar), encerramento, cenas do episódio anterior, cenas do próximo episódio e trechos de dentro do anime. E não pense que apenas momentos de contemplação ou de exclamações de figurantes que não são exibidos, nos episódios exibidos neste domingo rolou cortes de gols inteiros.

Como se picotar 10 minutos de um anime já não fosse o bastante, percebi um corte MUITO estranho feito pela Band. Ao final da exibição dos episódios 61 e 62 (“A batalha final” partes 1 e 2), o público é surpreendido com uma jogadora derrotada chutando a bola contra seu técnico. O que vai acontecer? Confira no próximo episódio! Acontece que a Band não exibiu o episódio 63 (“A Ameaça Infinita”), pulou direto para o 64 (“O Raimon vs Raimon Enfrente”), com o começo de uma nova partida.

Foi aí que eu percebi o que a Band está fazendo: além de cortar trechos de episódios para caber em 15 minutos, a emissora joga fora episódios inteiros que não têm partida de futebol! Quer saber os conflitos dos jogadores, treinamentos etc? Infelizmente não vai rolar, pois a Band prefere exibir somente as partidas de futebol de Endo e os outros.

Descaso para uns…

Fui pega de surpresa com esse descaso com a exibição do anime, mas me chamou a atenção porque ninguém falava sobre isso. Na verdade não é muito difícil de explicar isso.

Grande parte da imprensa otaka ou pessoas relevantes não assiste ao Super Onze, e a fanbase da animação (basicamente formada por crianças que acharam o anime sem querer e fãs nostálgicos da exibição na RedeTV) não tem um décimo da mobilização dos viúvos da Manchete que levantam tag semanalmente para super sentai dos anos 80.

Como tokuku é mais chato com a exibição de seus clássicos, a ponto de implicar até com a cor da barra lateral usada para manter os tokusatsu no formato original (e isso porque antes reclamavam que os tokusatsu estavam com zoom para cobrir a televisão inteira), a Band “toma mais cuidado”. Já com os animes, como não há reclamação, eles fazem o que bem entendem (e ainda tem o agravante que Super Onze é uma exibição local, ou seja, apenas algumas cidades transmitem).

A estratégia da Band com Super Onze é de um amadorismo muito grande. Na ânsia de conquistar quem estiver zapeando sempre com as partidas de futebol do anime, ela ignora que a pessoa pode decidir ficar na emissora para ver a série e terá sua compreensão prejudicada porque não existe qualquer desenvolvimento de roteiro. É um objetivo que não consigo entender.