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BNA na Netflix – Tudo bem ser um anime mediano?

O estúdio Trigger sempre se envolveu em animes de muita relevância no meio otaku, e olha que eles com frequência variam os estilos de suas histórias originais. O estúdio foi desde um anime de bruxinhas quase-infantil a até mesmo um quero-ser-evangelion com história tão profunda quanto o comercial da Panificadora Alfa, um bem distante da qualidade do outro, mas será que existe problema em ficar ali na metadinha do caminho, não sendo excelente e nem um desastre? BNA: Brand New Animal, que chegou hoje (30) à Netflix, está aí para provar que não.

Os portões dos furries foram abertos por Zootopia e Beastars, e esse novo anime se aproveita disso. BNA é ambientado numa cidade habitada apenas por animais (que conseguem se transformar em humanos porque né, é bem mais prático animar a galera homo sapiens). A protagonista da série é Michiru, uma garota-tanuki que procura na cidade uma explicação para sua “maldição”: ela era uma humana até outro dia, e agora está no corpo de um animal muito estranho com capacidade de se transformar. Por sorte (e por vários empurrões do roteiro) ela logo faz amizade com o homem-lobo Shirou, e juntos eles vivem várias aventuras para descobrir os mistérios dessa cidade.

BNA é o que esperamos de boa parte dos animes do Trigger: a animação é linda nos episódios em que houve uma dedicação maior da produção, já nos demais ela é apenas bastante competente. Os personagens são marcantes, a história é desenvolvida de forma normal e há algumas reviravoltas interessantes (mas óbvias) no desenrolar dos 12 episódios. Mesmo assim, alguma coisa ali parece incomodar.

Talvez por terem feito um anime curto, você vê a mão do roteirista forçando a todo momento as situações. Quando surge Pinga, o homem-pássaro com conhecimento de fatos importantes, o roteiro faz com que ele caia literalmente no teto do quarto da protagonista. Tudo bem, uma ou outra coincidência são aceitáveis em um anime, mas o roteirista da vez transforma Michiro em uma imã de personagens que são relevantes para o mistério principal. Todos introduzidos da forma menos sutil possível.

E o que dizer dos poderes? A garota-tanuki consegue dar outras propriedades para seu corpo, como uma perna de guepardo para correr mais rápido ou asas. Tudo isso é muito legal, mas lá pela metade você que que o estúdio estava com sérios problemas de gerenciamento de tempo e precisou pular algumas etapas necessárias para o anime. Durante o episódio em que Michiru decide invadir um centro médico, ela utiliza um poder de camaleão para ninguém vê-la. O problema é que esse poder não havia sido introduzido em momento algum da série, você fica lá com cara de “ah… tá bom então”. A própria solução final dada pela protagonista na batalha decisiva foi tirada do éter.

Contrariando a galera que pede para assuntos políticos não serem inseridos em animes, o pessoal do Trigger enfiou discussões bem interessantes: há um debate sobre racismo, desigualdade social e uma história bem forte sobre como a religião é usada para mover a vontade das pessoas. No entanto, nenhum desses assuntos é muito bem desenvolvido, talvez pela falta de espaço. Eles levantam a bola mas esquecem de mandar alguém para cortar. É como se eles quisessem que o pessoal que assiste ao anime desenvolva discussões sobre o assunto em blogs ou vídeos, quase como uma terceirização de debate que eles mesmos não conseguiram desenvolver.

O meu maior “problema” com BNA, na verdade, foi o fato dele não ser muito marcante. Para escrever essa matéria, por exemplo, precisei jogar na Wikipedia para relembrar que a protagonista se chama Michiru. O nome da amiga? Não sou capaz de responder nem se me prometerem um Mupy de Maracujá geladinho se acertar.

Parece um anime feito com todas as características de uma série da Netflix: as pessoas conversam sobre ela durante dois dias, todo mundo maratona de uma vez e dá aquele bom momento quando você assiste, mas amanhã você percebe que não lembra de muita coisa. Daqui duas semanas, provavelmente, sua mente estará entretida com qualquer outra produção.

Acredito que essa minha sensação de “esperava mais” veio por causa do histórico do estúdio e dos nomes envolvidos, mas no fim não há qualquer problema em ser um anime mediano. Sou bem mais um anime que me distraia e me divirta momentaneamente do que algo que me irrite ou aborreça. Ninguém precisa ser o aluno aplicado que só tira 10, ser o aluno que passa ali com 6 ou 7 está super de boa.

BNA tem uma ambientação muito interessante, fico curiosa sobre o tipo de história que poderia sair se o estúdio não precisasse correr para encerrar a trama no número de episódios prometidos. Do jeito que está, é uma diversão interessantezinha para matar o tempo, mas nada além disso.