Desabafo · Problematizando

Os otakus precisam urgentemente repensar algumas “piadas”

Os otakus agem de forma engraçada. Muitos foram alvos de piadas e ofensas durante anos, mas quando ganharam voz e importância no mercado e no meio geek… passaram a destilar preconceito e intolerância. Como diria um velho brasileiro, “o sonho do oprimido é ser opressor”.

Por sorte nem todo mundo é assim tão retrógrado, e muitos otakus já tomaram consciência social e lutam contra preconceitos certo? Nem tanto. Infelizmente até o mais sensato dos otakus pode cometer alguns equívocos e repetir algumas ofensas sem perceber, e o objetivo dessa matéria é falar sobre algumas piadas que ainda são bem comuns e muitos não percebem o quanto machucam.

Com a entrada do mês de junho, duas coisas começam a aparecer nas redes sociais: debates sobre o mês do orgulho LGBTQ e posts reclamando do frio em várias regiões do país, afinal estamos quase no inverno. Curiosamente, os dois assuntos acabam se misturando em algumas piadas um tanto quanto ofensivas.

Um chiste bem comum nessa época é postar uma imagem da clássica cena de Cavaleiros do Zodíaco em que Shun encontra Hyoga quase morto de frio na casa de Libra, e decide salvar seu amigo com o calor de seu Cosmo. Termofisicamente a forma mais adequada de se aquecer é realizar uma troca de calor entre corpos através da aproximação, mas a cena ganhou um novo significado nas mãos dos pouco criativos fãs:

Claro, o Shun só pode ser gay! Percebam as evidências: ele usa uma armadura rosa baseada em uma constelação feminina, ele é chorão, ele é frágil, só pode ser gay! Ele é tão gay que, quando Eugene Son foi adaptar o anime para a Netflix, ele julgou conveniente transformar o único protagonista não-brucutu em uma mulher para aumentar a representatividade feminina na série. Porque né: homem gay é quase uma mulher! kkkk

Nesse parágrafo anterior eu tentei deixar claro (através da ironia) como a tal piada não tem qualquer elemento cômico.

Talvez você não saiba (falei disso somente neste post), mas por trás da Mara existe um homem gay, e durante décadas já fui alvo de diversas “piadinhas” envolvendo Cavaleiros do Zodíaco e homossexualidade. Desde criança o Shun sempre foi o cavaleiro que “faltava” nas brincadeiras da escola, afinal ninguém queria o fardo de interpretá-lo. Os bonecos do Shun ou eram fáceis de encontrar (porque ninguém queria pegar) ou então eram difíceis de encontrar (porque já nem encomendavam pois sabiam da baixa demanda). E não pense que esse tipo de comentário ficou nos anos 90!

Há uns 4 anos, cheguei a questionar em uma palestra o motivo do Shun ter sido o único cavaleiro a não ganhar uma camiseta de uma marca de roupas brasileira. Após minha pergunta, ali na frente de centenas de pessoas, o responsável pela palestra “brincou” comigo dizendo que logo fariam uma camiseta do Afrodite também.

Porque né, o Afrodite é um cavaleiro vaidoso e que luta com rosas, ele só pode ser gay!

Não busco com essa matéria me colocar como o iluminado superior, até porque com certeza em algum momento da minha vida eu zoei de forma jocosa a cena do Shun com o Hyoga. Capaz de ter feito isso inclusive aqui no site! Isso acontece porque estamos em uma sociedade extremamente machista que estimula essas piadas, e esse machismo leva a uma exaltação desmedida de figuras extremamente másculas e viris como autoafirmação. Só isso explica, por exemplo, os nerds estarem em estado de siricotico com a escolha do Robert Pattinson para o papel de Batman em vez de algum homem extremamente musculoso.

Essa mesma sociedade machista faz com que qualquer coisa que fuja da masculinidade Hokutonokeniana seja considerada… “gay”. Isso é demonstrado não só em situações extremas, como agressões causadas por homofobia, mas também perpetuado em “piadas inocentes”. Afinal, quem vai dizer que uma zoeirinha sobre o Shun aquecer o Hyoga na casa de Libra na verdade traz uma mensagem opressora para todos os envolvidos, inclusive homens (que se vêem obrigados a assumir uma postura sempre viril sob risco de ser chamado de “gay”)?

Mas a obra de Masami Kurumada não é a única que acaba sendo abalada por piadas envolvendo homossexualidade. Na mesma década de 90 qualquer criança seria zoada se dissesse ser fã do Kurama do Yu Yu Hakushô, personagem extremamente forte e não masculinizado que tinha como arma uma rosa. As piadocas afetaram até a forma como alguns personagens são chamados no Brasil: não basta o Kurapika de Hunter x Hunter ser zoado por ter uma aparência feminina, o nome do personagem foi mudado para “Korapaica” na dublagem brasileira para evitar piadas ~super engraçadas~ com o nome do personagem.

Há muito tempo o termo “gay” é usado como ofensa: se um cara te dá uma fechada na rua logo é chamado de “viado”. Se um cara pede uma bebida rósea no bar algum colega o chama de “bicha”. Se você diz que é do signo de Peixes, algum fã dos Cavs logo vai te lembrar que o seu personagem é o gay (mesmo o Afrodite nunca ter declarado em momento algum da história essa suposta orientação). E acredite: isso acontece de forma muito automática, porque está já na cultura.

Um dos meus melhores amigos da vida é heterossexual, o conheço desde a época do Ensino Médio. Fui padrinho do casamento dele, o chamei para ser padrinho do meu, e há alguns meses em uma situação de bar ele respondeu com um “eu não sou viado não, tá louco?” a uma brincadeira feita por outra pessoa também heterossexual. Algumas horas depois do rolê ele me liga para pedir desculpas por ter feito o comentário na minha presença, que foi algo que acabou escapando etc.

Conheço as intenções dele e estou ciente que racionalmente ele nunca falaria isso, foi apenas um equívoco e todos comentem pequenos erros em um processo de mudança. Não posso colocá-lo como inimigo, até porque sei de outras situações em que ele se incomodou com comentários feitos contra mim em outras situações.

Minha vontade com essa matéria é tentar mostrar como algumas piadas são extremamente ofensivas e deveriam ser repensadas. Não se sinta culpado por ter usado até ontem a ~piada~ do Shun com o Hyoga na casa de Libra, pense em mudar a partir deste momento. Ser gay não é ofensa, é uma orientação sexual. Dar a bunda não é uma ofensa, é uma prática sexual. Não deixe que o machismo estrutural que está na cultura geral seja usado para ofender uma minoria.