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Pirate Warriors 4: MUSOU é o único gênero possível para a história de One Piece

Talvez eu esteja desrespeitando todas as regras existentes de reviews de jogos, mas dane-se: One Piece – Pirate Warriors 4 é um jogo muito bom e você deveria jogá-lo caso seja fã da saga do pirata Luffy. A aventura é gostosa de controlar, os personagens agem tal qual suas contrapartes no mangá e anime e a recriação do universo de One Piece sob as regras de um Musou é ótima, tudo isso você já deve ter visto em vários outros reviews deste lançamento da Bandai Namco, mas com essa matéria eu quero na verdade explicar como o Musou é o único gênero capaz de comportar a obra que é One Piece.

O que é esse tal de MUSOU?

Antes é preciso fazer um pouco de contextualização, afinal tem muita gente aí lendo esse texto que não faz ideia do que é um “Musou”. Essa palavra define um gênero de jogos criado pela Koei Tecmo com seu jogo Dinasty Warriors (ou Shin Sangoku Musou no original), que nada mais é que uma grande guerra muito louca em que o jogador controla um único guerreiro. Misturando porradaria, hack’n slash e centenas de adversários pipocando na tela, sua função é cumprir os objetivos, tomar bases inimigas e auxiliar as pessoas do seu exército.

Em um Musou tradicional você é jogado em um campo de batalha dividido em várias áreas, que podem ser fortificações ou lugares fechados. Ao chegar numa dessas áreas, você enfrenta uma multidão de inimigos infinita até você acabar com a “barra de energia” desse local, aí um líder mais forte chega para lutar. Ao derrotá-lo, você domina aquela região e seu exército passa a controlar a área, impedindo o avanço de inimigos. Quanto mais áreas você dominar, mais tranquila fica sua luta contra o exército adversário.

Você pode escolher entre vários personagens para as missões, mas depende se esses personagens participaram do mangá naquele momento.

 

Após uma derrota, todos os inimigos ficam com medo do seu personagem.

Mas não pense que a coisa é tão ordenada assim: enquanto você tenta dominar uma base, outros combatentes do seu exército estão realizando missões simultâneas por todos o mapa. Como o jogador encarna o papel de “general” do combate, cabe a ele resolver qualquer problema que apareça (e eles vão aparecer). Muitas vezes você é obrigado a recuar porque um companheiro está prestes a morrer, então você larga o que estiver fazendo para ir salvar o pobre coitado.

O jogo original tinha como tema as guerras feudais japonesas, mas o estilo e regras do jogo eram tão amplas que podiam ser reutilizados em vários outros temas. Muitas empresas donas de outras franquias foram se aproximando da Koei Tecmo com o intuito de criar versões “musou” de suas franquias, e normalmente o resultado fica bem positivo. A Nintendo transformou Zelda e Fire Emblem em Musous (com os ótimos Hyrule Warriors e Fire Emblem Warriors), a Atlus colocou os Phantom Thieves de Persona 5 pra guerrear em Persona Scramble e até Hokuto no Ken ganhou uma versão Musou.

A série Pirate Warriors

O computador vai controlar os outros personagens do seu bando.
Às vezes é difícil saber o que está acontecendo.

Lançado em 2012, One Piece Pirate Warriors chegou no PlayStation 3 e tinha como objetivo contar toda a história da série até o momento, do começo da jornada de Luffy até o final da guerra de Marineford. O jogo foi bem o suficiente para ganhar algumas continuações com o passar do tempo, sempre revisitando a história da série (menos no segundo jogo, que conta com uma história original). Um dos grandes méritos da série Pirate Warriors é como consegue “gameficar” a história criada pelo Eiichiro Oda, respeitando a narrativa e tornando algo muito divertido de se jogar.

Uma missão normal no mangá de One Piece não envolve um grupo de personagens subindo ordenadamente doze casas enfileiradas em um planalto grego, se a gente for comparar com a estrutura clássica de um shonen. One Piece é uma bagunça generalizada, seria o Luffy voando direto para a casa de Peixes, o Zoro se perdendo e indo parar na Ilha da Rainha da Morte e a Nami arranjando uma forma de roubar a flecha de ouro no peito da Atena e fugir no helicóptero da fundação Graad. E essa zona não é facilmente representada em videogames, mesmo os jogos mais bagunçados ainda possuem uma “ordem”.

Nesse jogo introduziram os chefes gigantes, ou seja, se prepare para o gigantesco Pica.
Desespero total: às vezes a missão muda e todo seu planejamento precisa ser refeito na hora… igual em One Piece.

Sei lá, eu acho Bayonetta uma confusão maravilhosa, mas ainda assim temos a protagonista levando a raba até o chão respeitando a ida do ponto A ao ponto B. Já em Musou temos apenas uma gigantesca arena dividida em várias pequenas áreas e diversos personagens importantes agindo de forma independente, e todos eles fazendo diversas missões simultâneas para completar a grande missão… como em qualquer grande arco de One Piece.

Tá, mas e esse Pirate Warriors 4 é bom mesmo?

Em Pirate Warriors 4 às vezes você será tomado pelo desespero de ter mil coisas acontecendo ao mesmo tempo, e se você se der ao trabalho de ajudar seus companheiros há compensações. Em Dressrosa eu fiquei desesperada com a contagem regressiva da Gaiola de Fios do Doflamingo, e escolhi ir direto enfrentar o Pica. Já meu marido, no save dele, optou por ajudar seus companheiros de bando em missões paralelas, e a cada salvamento o personagem decidia ajudar segurando a Gaiola, dando mais tempo para realizar a missão. No fim, os dois viveram experiências diferentes.

Revisitando uma capa do mangá: a equipe do Pirate Warriors 4 teve um cuidado muito grande.

O jogo segue fielmente a história do mangá/anime, partindo de Alabasta e passando por episódios memoráveis em Ennies Lobby, Sabaody, Dressrosa, Whole Cake e Wano. Os arcos e acontecimentos não abordados em Pirate Warriors 4 são explicados ao jogador através de animações muito competentes. Inclusive arrisco dizer que este jogo traz o melhor resumão disponível da história de One Piece, contado desde o encontro do Luffy com Shanks até a fuga da ilha de Whole Cake. Isso sem contar que algumas animações são muito bem dirigidas, a ponto de quase arrancar lágrimas de meus olhos em alguns momentos (desculpa aí, a despedida da Vivi é sempre muito triste).

“Mas Mara, como é que ele adaptou o arco de Wano se a coisa ainda está rolando no anime e no mangá?”

Chegue na bagunça metendo um socão nos inimigos.

Quando o Pirate Warriors 3 foi lançado há alguns anos, o mangá ainda não havia encerrado o arco de Dressrosa, então a equipe do jogo precisou… criar um final original. No Pirate Warriors 4 acontece a mesma coisa: embora o arco de Wano tenha as localidades originais do anime e mangá, como a prisão ou as cidades, a história é 100% fanfic (inclusive é bem qualquer coisa, mas é o que está tendo).

Mas se você é um gamer mais ligado em números técnicos e em competir sobre qual console consegue colocar mais efeitos de luz ao mesmo tempo, provavelmente você olhou as imagens que ilustram essa matéria e pensou “porra, mas que jogo feio, meu PS2 faria melhor“. Reconheço que não são os melhores gráficos já visto na atualidade, mas também sou obrigada a explicar que o grande feito técnico de um Musou nunca é o visual, e sim a velocidade.

O jogo consegue rodar direitinho centenas de personagens ao mesmo tempo na tela gritando e atacando, e o prazer por parte do jogador vem do controle impecável em meio ao caos e a completa balbúrdia. Talvez o que mais lhe passe o deleite visual do Pirate Warriors 4 seja vendo algum vídeo do jogo, e não imagens estáticas que parecem mais aqueles frames em que saímos péssimos em fotos de festas.

O clima de Pirate Warriors 4 pode parecer aflitivo à primeira vista, mas é o mais próximo de um One Piece que podemos chegar. Claro, o One Piece World Seeker (tem análise desse aqui) é um jogo divertidíssimo sendo um game de mundo aberto, mas ele só consegue isso por ter uma história original, mas me parece que a única forma 100% fiel de adaptar a bagunça gostosa de One Piece é com um Musou. E Pirate Warriors 4 consegue refinar problemas de versões anteriores, trazer uma música empolgante e uma jogabilidade divertidíssima.

Repito então o que falei no começo desse texto: One Piece – Pirate Warriors 4 é um jogo muito bom e você deveria jogá-lo caso seja fã da saga do pirata Luffy.

One Piece: Pirate Warriors 4 está disponível para PlayStation 4, Xbox One, Nintendo Switch e PC. O áudio está em japonês e a legenda está em português. Joguei no PS4 normal (não o Pro) e a cópia desse jogo foi gentilmente cedida pela Bandai Namco (relembrando que isso não afeta em nada o julgamento do jogo). Agradecimentos também ao Neto do canal Mil Páginas com a ajuda no review.