Aleatoriedades

Novo Digimon Adventure já superou Digimon Tri (não que seja difícil)

A Toei recentemente encerrou a enésima versão de GeGeGe no Kitaro, e deixando uma vaga no tradicional bloco nas manhãs de domingo ao lado do One Piece. Todo mundo achou que seria a deixa para entrar no lugar uma nova temporada de Dragon Ball Super, mas a surpresa foi um reboot de Digimon Adventure. Cheguei a assistir aos dois primeiros episódios, motivada apenas pelo espírito do jornalismo gonzo e pela insistência de meu marido digifã, e preciso confessar que estou positivamente surpresa com esse Digimon Adventure: (sim, tem dois pontos no título).

A estreia desse reboot de Digimon Adventure se deu poucas semanas após o lançamento do filme ~adultão~ que encerrou a franquia original, um grande acontecimento se levarmos em conta a dificuldade que a Toei tem de dar um final para seus projetos. Nos últimos tempos, a empresa se escorou na nostalgia para lançar animações mostrando os personagens do anime de 20 anos atrás como adultos vivendo dilemas chatos de pessoas crescidas em histórias com roteiro sempre muito deficiente.

Não cheguei a acompanhar o filme Kizuna, mas acho difícil fugir do que Digimon Tri trouxe para a franquia: personagens esticados, dramas cafonas e muitas cenas contemplando o horizonte feitas na esperança do público conseguir encontrar alguma profundidade que o roteirista não conseguiu pensar.

 

A perspectiva não parecia muito boa para a nova aventura de Tai e seus amigos (não era fã na época da Globo, mas mesmo assim esses são os nomes que conheço os personagens e continuarei chamando assim). Digimon Adventure Dois Pontos parecia apenas uma animação barata feita para requentar a nostalgia pela enésima vez, mas a animação chega a ser surpreendente e se sagra como um dos animes mais promissores da temporada.

Enquanto Pokémon introduziu o vago conceito de soft-reboot em sua atual temporada, o novo Digimon Adventure não teve medo de se jogar de cabeça em uma história totalmente nova. Mais uma vez veremos Tai, Matt, Izzy e os outros personagens se jogando no Digimundo neste grande isekai dos anos 2000, mas os roteiristas decidiram fazer tudo de uma forma muito diferente. Esqueça toda a narrativa do original, a evolução dos acontecimentos e até a camiseta verde do Matt: tudo foi mudado para uma história que não só dialoga com o público infantil de 2020 (o público alvo) como também respeita as memórias dos antigos fãs.

Dessa vez a história começa focada no Tai (tanto que ele estrela cerca de 80% da abertura), e os demais personagens vão sendo introduzidos aos poucos. Nesses primeiros episódios apenas dois dos digiescolhidos vão parar no mundo digital, e precisam resolver problemas de interferência dos digimons em nosso cotidiano. Inclusive problemas sérios, pois ao final do segundo capítulo acontece algo tão surpreendente que até esquecemos se tratar da segunda semana de exibição.

Digimon Tri comprovou a dificuldade da Toei em trabalhar com um público mais velho. O anime comemorativo criou uma história de monstrinhos com a proeza de ignorar tanto o público infantil, incapaz de entender a relação entre os personagens por não terem assistido ao anime original, quanto o público adulto, que teve sua nostalgia violada por anos em um OVA que perdia o sentido a cada nova leva de episódios. Mas se a Toei sofre para realizar um anime destinado às pessoas mais velhas, ela nada de braçada na empreitada de se criar um anime para todas as idades. O próprio GeGeGe no Kitaro era um exemplo de anime infantil, mas assistível para adultos e discutindo temas que muito anime seinen não arriscaria fazer.

A trama de Digimon Adventure Dois Pontos é infantil, mas nem por isso menospreza o público alvo e nem exclui o público mais velho, capaz de entender algumas nuances imperceptíveis aos mais novos. Enquanto os mais jovens podem se divertir com as impulsividades infantis dos personagens e o suposto carisma dos monstros, aos mais velhos cabe apreciar a animação muito bem feita e os debates sobre como a população é dependente da tecnologia em troca de suas facilidades, entre outras coisas. Tudo isso com uma animação que parece seguir por uma linha diferente de trabalhos recentes da Toei (ou seja, é muito boa mesmo).

Nas discussões sobre Pokémon vs Digimon que aconteciam por aqui sempre defendi Pokémon, o que me fez não assistir ao anime dos monstros digitais na época. Talvez agora seja a hora de eu poder embarcar no Digimundo e acompanhar uma história inédita junto de todo mundo, ainda mais que está longe da péssima qualidade da série Tri.

Caso tenha interesse em ver o novo anime de Digimon Adventure, ele está disponível na Crunchyroll. Novos episódios são adicionados nas manhãs de domingo, para você poder assistir enquanto toma café-da-manhã no final de semana.