Vergonha Alheia Televisionada

Changeman, Jiraiya e Jaspion estrearam na Band para agradar crianças de 40 anos

Neste domingo (22) a Band realizou um sonho antigo dos fãs de tokusatsu e dos donos das licenças de séries dos anos 8. A emissora aproveitou um buraco na programação causado pela crise do coronavírus e colocou (como tapa-buraco) a exibição de três séries clássicas: Changeman, Jiraiya e o famoso Jaspion. Tive a oportunidade de ver essas séries pela primeira vez sob os olhos da vida adulta, e tive impressões impressões interessantes e uma dúvida sincera.

Minha relação com tokusatsu é antiga: em meados dos anos 80 meus pais diziam que eu era fascinada por essas séries. Assistia sempre Changeman e Jaspion na televisão e tinha até um brinquedo que era uma réplica da espada e escudo dos heróis coloridos. Com o passar do tempo isso acabou ficando pra trás e eu acabei me enfiando mais na área dos animes e mangás, deixando os chroma key e as pedreiras da Toei na infância.

Acompanhar essas séries em pleno 2020 numa televisão aberta é muito estranho. Pra começar, é importante ressaltar a qualidade de todas essas séries… pelo menos a julgar pela época de exibição original no Japão. Todas têm coreografias muito elaboradas, efeitos especiais criativos e saídas muito interessantes para recriar um ambiente fantasioso de forma verossímil.

Os roteiros variam bastante em qualidade: enquanto Jiraiya é muito competente em criar uma história para introduzir o herói na aventura, os cinco escolhidos para formar o esquadrão relâmpago Changeman se transformaram nos heróis e lutaram sem nem ao menos se perguntar “que porra é essa de alienígenas e roupas coloridas?”.

Talvez por ter sido convencida por comentários de tokukus (os otakus de tokusatu) nas últimas décadas, cheguei a imaginar que as tais clássicas séries tokusatsu dos anos 80 eram ~muito mais maduras do que esses sentais com dancinha da atualidade~. Ledo engano: mesmo com armas de fogo, facas e um Jaspion de pernas de fora com roupa de Tarzan, esses tokusatsu ainda são séries infantis.

Há um exagero que atrai o público infantil, diálogos e motivações são rasos, bastante humor e, em alguns casos, até efeitos sonoros dignos de desenho animado para reforçar a graça da cena. Elas só “parecem” (com muitas aspas) mais maduras que as atuais porque as crianças de 2020 são encantadas por outras coisas.

As séries tokusatsu do anos 80 são reflexos da época em que foram exibidas. O primeiro episódio de Jaspion traz muitos elementos que agradavam o público mais jovem da época, como uma ambientação espacial meio “Star Wars baixo orçamento“, enquanto Changeman aposta em uma versão light daqueles filmes de brucutus militares que eram sucesso nos cinemas daquela década.

As séries também ainda não haviam descoberto a mina de dinheiro que é ter trocentos robôs diferentes para entulhar as lojas de brinquedo, mas ainda assim são programas infantis. E é daí que vem uma grande pergunta: para quem é essa exibição?

O bloco Mundo Animado da Band já havia exibido séries como Super Onze e Beyblade, séries não tão recentes mas ainda com grande apelo ao público infantil (tem jogo de videogame e brinquedos nas lojas). Mas quem é o público desses tokusatsu? Com certeza não é o infantil, que encontra muito mais identificação nos Jovens Titãs em Ação, nos Detetives do Prédio Azul ou em temporadas mais recentes dos Power Rangers.

As séries infantis dos anos 80 tem um ritmo mais moroso, mesmo tendo muito menos explicação, e acho difícil agradar o público infantil de hoje em dia. Claro, vai aparecer algum fã de tokusatsu dizendo que catequizou um filho ou um primo para ver os ~tokusatsu de qualidade dos anos 80~, mas estamos aqui falar da regra, não da exceção.

A exibição dessas séries é apenas para conquistar o fã que era criança há 30 anos, e que busca nesse tipo de produção um resgate a um tempo com menos preocupações. O ponto é: a série só funciona com quem tem esse laço com o passado, e não com o público alvo dessas produções (que são as crianças).

Talvez o ideal fosse ir atrás de um Power Rangers recente, ou voltar com os desenhos tapa-buraco. Se bem que, em tempos de crise, parece uma boa saída para a emissora apostar em um material mais barato por ser extremamente datado. De qualquer forma, vale pela curiosidade dar uma olhada nesses tokusatsu antigo, principalmente para quem gosta de ver como eram produções de sucesso de algumas décadas atrás.