Aleatoriedades

O live-action de One Piece não é para você

Se você está lendo essa matéria, provavelmente a viu sendo compartilhada no feed de alguém, ou então acompanha o Mais de Oito Mil para saber as últimas tretas novidades sobre o mundo dos animes e mangás no Brasil. Com certeza você viu a notícia sobre Eiichiro Oda ter confirmado que a série com atores de One Piece é da Netflix, e com grande chance de acerto você ficou com um certo incômodo, afinal o histórico de live-actions ocidentais de animes não são aqueeelas coisas (alô Dragon Ball Evolution!). Se esse é o caso, infelizmente tenho um aviso para você. Aviso este que pouca gente tem se atentado: essa nova produção de One Piece não foi feita para você.

Recentemente a Netflix teve um de seus maiores lançamentos, a série The Witcher. Protagonizada por um musculosíssimo Henry Cavill, a produção medieval pode não ter alcançado o tamanho de um Game of Thrones como muitos torciam (afinal nem Game of Thrones teve o tamanho de Game of Thrones em seu início), mas foi o bastante para ser uma das três mais assistidas do ano na plataforma. Ela foi fortemente inspirada tanto no livro quanto no jogo, mas curiosamente o objetivo da produção não era a fanbase já existente. Mesmo reproduzindo o meme do Geraldão no banho.

No Japão, os animes existem basicamente como uma propaganda de outras coisas. A animação de Demon Slayer não foi produzida para que os produtores transformassem o mangá em arte com efeitos CGI, e sim para fazer um merchan dos produtos licenciados e, principalmente, do mangá. O resultado deu super certo e, após o anime, Demon Slayer é uma das séries mais compradas no Japão. Infelizmente essa divulgação não funciona sempre, e animes como Hinomaru Zumou não chegaram a salvar a popularidade do mangá. Teve até caso de Keijo, cancelado logo após o fracasso do anime.

A produção de The Witcher seguiu essa mesma estrutura japonesa, pois a série tinha como objetivo atrair o público órfão de séries medievais, e não os jogadores ou leitores do original. Com o sucesso entre o público leigo, a série voltou a ficar em evidência e garantiu boas vendas nas fontes originais: o livro voltou a ser bastante vendido e o jogo de The Witcher 3 teve seu pico de usuários na Steam, superior à época do próprio lançamento. Ou seja, podemos dizer que novas pessoas descobriram The Witcher 3 graças à série, e olha que o jogo só não está em mais consoles que Resident Evil 4.

Por mais que o live-action de One Piece venha a trazer os personagens que gostamos e o selo de aprovação do Eiichiro Oda, com toda a certeza a ideia não é agradar os fãs do original. Embora um sucesso no Japão, One Piece nunca foi um estouro no ocidente se comparar com Naruto ou Dragon Ball, e o tamanho da série chega a ser um impeditivo para quem decide se aventurar agora. Uma nova série, bem mais compacta e recente, poderia atrair o interesse do público ocidental e fazer One Piece ser descoberto por novas pessoas, que passarão a consumir o original tal qual os antigos fãs.

Com apenas 10 episódios para cobrir a parte de East Blue inteira, a série precisará tomar algumas decisões de roteiro que a afastarão do original. Pode ser uma boa saída, é só ver como os filmes da Marvel no cinema são apenas livre-interpretações de histórias famosas há décadas nos quadrinhos. O público novo gosta e muita gente se sente encorajada a acompanhar o original, embora boa parte da fanbase marvete tenha surtos a cada mudança mínima no roteiro que diferencie o filme do quadrinho.

Se você está lendo este texto, muito provavelmente já faz parte do meio de animes e mangás e terá uma grande inclinação a detestar o live-action. Séries episódicas como Cowboy Bebop, são mais fáceis de se adaptar numa série com conteúdo inédito, mas One Piece precisa realizar algumas concessões por motivos de tamanho ou orçamento. Sei lá, é possível fazer todos os arcos de East Blue acontecerem uma única ilha, e o Luffy recrutar todos seus amigos neste lugar, mas com toda certeza você não verá toda a maluquice do mangá refletida no live-action. Não é porque você é fã de uma série que todas as produções dela são para você… E não há problema nisso, é só uma adaptação. Não é como se o próprio One Piece já não tivesse feito isso antes, só ver os filmes que fazem um “resumão” de arcos inteiros e misturando coisas (tipo colocar o Oars e o Franky no arco da Ilha de Drum). 

Mas não tenha medo caso a série venha a te desagradar, porque o mangá original vai continuar existindo e o anime continuará com mais de mil episódios para você assistir o quanto quiser. Quanto a mim, sigo muito curiosa em como a equipe vai conseguir adaptar One Piece numa série de atores, e quem sabe consigo ver com uma mente aberta para apreciar uma releitura de um mangá que eu gosto tanto?