Eventos

Papo sobre Naoki Urasawa teve (muita) informação e treta sobre “capa preta”

Eu achava que o ciclo de palestras sobre mangá na Japan House tinha se encerrado com o painel apresentado por Akira Yamada, Embaixador do Japão no Brasil que inclusive compartilhou minha matéria em suas redes sociais, mas acabei sendo surpreendida por mais um DLC gratuito. Muito legal todos os bate-papos relacionados, mas a exposição “Isto é Mangá” é sobre Naoki Urasawa, então é claro que faltava uma palestra sobre o mestre do suspense japonês. E assim, na noite desta terça-feira (17) estiveram na Japan House duas pessoas da Panini: Levi Trindade, editor de quadrinhos da editora, e Beth Kodama, editora responsável pela área de mangás.

Acredito ter sido a primeira vez que muitos detalhes sobre a edição brasileira de Monster foi feita, como a bagunça na hora de montar o volume. O motivo é devido a uma “pequena” desorganização da editora japonesa, que enviou os quadros, balões e etc em separado, transformando o trabalho da editora em um quebra-cabeça com muitíssimas peças. No fim, Beth revelou que a edição brasileira antiga já usava ilustrações e o texto da edição de luxo do mangá no Japão.

Durante as explicações de processos editoriais, Levi Trindade e Beth Kodama não estavam muito alinhados sobre algumas características do mangá. Beth explicou que eles não podem começar a trabalhar antes da editora japonesa mandar as amostras do mangá, mas ela brincou dizendo que dava seus pulos. “Sim, você pode conferir uma outra edição do mangá, por exemplo”, acrescentou Levi Trindade, que logo foi corrigido por Beth. “Não! São coisas diferentes, o texto é diferente”.

Por estar profundamente envolvida na edição das duas versões de Monster (a normal e a de capa dura), 20th Century Boys e Pluto, Beth Kodama monopolizou o assunto… não que isso seja uma coisa ruim. Com um didatismo bem impressionante, a editora sênior explicou com muita paciência o método de publicação de mangás no Japão, os inúmeros formatos, as diferenças e por que Naoki Urasawa tem algumas regalias: “porque ele é um mestre” foi a justificativa para colocá-lo acima de outros “mangakás escravizados” como o pobre Eiichiro Oda. Ao final da explicação, ela conseguiu explicar que na publicação de edições posteriores do mangá o autor costuma corrigir desenhos e mudar textos, o que impossibilitava a utilização de outra edição do mangá.

Beth ainda contou que foi uma treta na hora de licenciar Monster, porque antigamente o mangá era publicado pela editora Conrad e foi cancelado no volume 10, quando a editora foi para as cucuias. Após o êxito em licenciar One Piece, outro mangá que a Conrad  abandonou, a Panini procurou Naoki Urasawa para licenciar também Monster, mas teria recebido como resposta que o autor do mangá estava muito pistola com as capas da Conrad, que usavam um fundo preto no lugar do fundo branco das capas originais. “Tá bem, usamos a capa branca”, teria sido a mensagem da Panini (escrita de um jeito formal, claro).

Algumas pinceladas de sincericídio também deram as caras no bate-papo, quando Levi Trindade usou uma de suas poucas falas na palestra para dizer que infelizmente Naoki Urasawa não vendia no Brasil, pois o brasileiro parece preferir um shonen de lutinha. Beth então tentou defender o autor, dizendo que Pluto havia vendido bem. “Perto de quem? Perto do próprio Urasawa né?”, disse Levi durante o painel realizado na exposição do mesmo Naoki Urasawa.

Verdades sendo ditas à parte, esse painel da Panini me fez refletir sobre uma crítica recente que fiz à editora durante o painel da CCXP. Naquele evento, Levi Trindade levou um séquito de editores especializados em várias áreas de quadrinhos, mas a parte de mangás ficou com ele mesmo e foi dita com um pouco de desleixo e muito desconhecimento (tipo quando ele disse que o mangá das Quíntuplas era um “shoujo harém”). O Levi conhece muito sobre quadrinhos americanos, europeus etc, mas sabemos que ele precisou aprender sobre mangás para fins de trabalho e, ocasionalmente, umas gafes dessas acabam sendo ditas.

A questão é: a Panini tem uma equipe enorme de editores de mangás. Não só a Beth Kodama (que, de novo, fez uma palestra de conteúdo impressionante), mas muitos outros editores de mangás da Panini conseguiriam representar a área sem falar um absurdo. Por que ninguém é chamado, ao contrário de editores de outras áreas? Falta de pessoal não é, seria então descaso da Panini com os mangás?

Assim como em 20th Century Boys, o mistério vai ficar no ar e será resolvido após algum time skip desnecessário. Vamos aguardar até lá.