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“Espero me tornar o embaixador otaku”: Akira Yamada, o embaixador que ama mangá

Uma galera bem diferente do habitual estava na platéia do auditório da Japan House de São Paulo. A casa de cultura, que realizou nas últimas semanas várias palestras sobre o mercado brasileiro de mangás e as áreas que receberam suas influências, recebeu um pessoal bem clichê de otaku, com jovens de cabelos coloridos e mochilas repletas de buttons. Porém, no último sábado (14), a visão era outra: muitas pessoas mais velhas, orientais e com roupa social ocuparam as cadeiras daquele auditório. A razão era bem simples, pois o palestrante da vez não era um editor de mangá ou então um desenhista de quadrinho, e sim o embaixador do Japão aqui no Brasil.

Akira Yamada é o diplomata enviado pelo Japão ao Brasil para cuidar das relações entre os dois países. Sem precisar de indicação de pai, Yamada-san conseguiu o posto de embaixador estudando muito: fez direito na Toudai (mas nunca esbarrou com a Naru Narusegawa por lá), entrou no Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão em 1981, passou por diversos países e, desde 2017, é o responsável pela Embaixada Japonesa aqui no Brasil. Mas por que uma pessoa tão ilustre está ganhando uma matéria no Mais de Oito Mil? Bem, porque ele também é otaku.

Grande entusiasta da cultura pop japonesa, Akira Yamada realizou uma palestra na Japan House que foi uma mega-aula sobre o mercado cultural japonês. Devido ao apreço por quadrinhos japoneses e por animes, Akira deixou sua marca nos fãs dos países em que atuou como embaixador: “No México fui chamado de ‘embajador otaku“, declarou com orgulho. Yamada-san externou seu desejo de ser o “embaixador otaku” no Brasil, mas reconhece ter um caminho a percorrer: “infelizmente ainda não me tornei tão conhecido“.

O papo sobre mangás começou com… um vídeo institucional japonês. Mas não pense que foi algo chato, o embaixador decidiu exibir aquele maravilhoso vídeo japonês exibido na festa de encerramento da olimpíada do Rio em que o Primeiro Ministro do Japão se vestiu de Super Mario e interagiu com o Doraemon. Além de dar um clima de shonen de esporte para a competição realizada a quatro anos, o vídeo mostra com perfeição como a cultura pop japonesa está tão ligada à cultura tradicional do país que um vídeo desses seria até estranho se não tivesse a participação de vários personagens.

A explicação sobre mangás e suas demografias ora alternava entre obviedades (como as informações de sucesso mundial de Dragon Ball ou as tiragens da Shonen Jump) e ora dava declarações que serviriam como alfinetada para boa parte dos otakus brasileiros. Após explicar o que significava a demografia shonen e a shoujo, Akira Yamada não teve medo de dizer que as barreiras entre os dois termos estão desaparecendo. Outra indireta (pelo menos aos ouvidos de uma pessoa admiradora de tretas como eu) foi quando o embaixador contou que os mangás no Japão são uma forma de entretenimento acessível ao público, popularizado em um contexto histórico na qual o país estava quebrado. É uma constatação do óbvio, mas muita editora brasileira parece ter esquecido desse caráter de acessibilidade por aqui.

Assim como EUA com seu cinema e séries, países como Japão e Coréia do Sul descobriram a mina de ouro que é exportar produtos culturais. Naruto, Goku ou Eren acabam se tornando embaixadores culturais involuntários, espalhando e popularizando um estilo de narrativa próprio, filosofia de vida e aspectos culturais. E se em alguns países enormes da América do Sul a cultura popular, como funk ou novela, são desconsiderados pela elite local, os japoneses em sua maioria reconhecem a importância da cultura e o quanto dinheiro isso pode render.

Durante as perguntas da platéia, alguém perguntou qual seria a série favorita do embaixador otaku, e sem muita surpresa ele respondeu “Dragon Ball“. Já suspeitávamos disso, principalmente após os inúmeros exemplos da história de Goku que foram usados na palestra, como a habilidade do saiyajin de recrutar inimigos para juntos enfrentarem um mal maior. Ele até citou uma história de seu próprio filho que mostra como a cultura pode unir as pessoas. Yamada-san explicou que seu filho estava fazendo turismo no México e acabou encontrando um grupo de mexicanos, e um deles estava com a camiseta do Mestre Kame. A partir dali, nasceu uma amizade de viagem, afinal todos eles haviam descobrido uma paixão em comum por Dragon Ball. Ao final do passeio, eles decidiram registrar os laços criados em uma fotografia, e a pose escolhida foi… todo mundo soltando um kame-hame-ha.

Outra pergunta feita, e que ganhou uma bela defesa do embaixador otaku, foi a de um pai de uns 40 anos. Acompanhado de dois filhos pequenos, ele se mostrou surpreso com a variedade de temas retratados nos mais diversos mangás e perguntou o motivo de apenas os títulos com maior quantidade de violência serem trazidos ao Brasil. Percebendo se tratar de uma pergunta sobre “mangá não é muito violento?”, Yamada-san explicou que o mais importante das obras não era a violência, e sim os valores passados, e que os mangás destinados aos mais novos sempre reforçam as vantagens de se viver em paz. “Descrever violência não significa aplaudir violência“, finalizou. Aos interessados, rolou stream da palestra pelo Facebook da Japan House.

Fui pega completamente de surpresa com essa palestra do Akira Yamada, o embaixador do Japão no Brasil. Ele é uma pessoa extremamente inteligente, articulada e parece ser um dos poucos diplomatas que percebem a importância da cultura pop. Ele disse no começo que gostaria de ser mais conhecido, para que possa ser chamado de “embaixador otaku” aqui no Brasil, então me sinto no dever moral de escrever essa matéria para contar o que aconteceu. Se depender de mim, ele já é o Embaixador Otaku.