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“Sua mãe pode ter varrido a casa com o Speed Racer”: as histórias dos veteranos da imprensa

Após o sucesso das palestras de cultura pop japonesa realizadas pela equipe da Japan House, a casa decidiu organizar mais alguns bate-papos com profissionais da área. Depois de falar sobre mangás, licenciamento e quadrinhos nacionais, faltava mais o quê? Uma conversa com os veteranos da nossa imprensa especializada!

Na noite desta terça-feira (10), o palco do auditório da Japan House recebeu grandes nomes responsáveis por espalhar a cultura otaka com a mesma eficiência de uma gripe num ônibus fechado. Estavam lá Marcelo Del Greco (editor da JBC, tradutor de animes e o único homem que incorporou o estilo de falar dos personagens de Cavaleiros), Cassius Medauar (jornalista, tradutor e conhecido pelos mais antiguinhos como “editor do dragão”), Ricardo Cruz (cantor, professor de japonês, Youtuber e dono de uma tatuagem escrita “tsuzuku”) e Sérgio Peixoto (organizador de eventos, jornalista e responsável pelo famoso B.O. na Animax). Uma coisa é inegável: as pessoas reunidas tinham uma quantidade sobrenatural de histórias sobre o cenário otaku no Brasil.

Estavam ali pessoas que ajudaram os primeiros eventos de anime a se organizarem. Sérgio Peixoto, por exemplo, precisou criar o Animecon após muita gente encher seu saco pedindo na revista Animax “um evento igual aqueles dos EUA”. Ricardo Cruz é outro que se envolveu também nessa empreitada e ajudou na principal atração do recém-criado Anime Friends: os artistas internacionais. E mesmo Marcelo Del Greco acabou se metendo nesse rolo, seja organizando um evento para fãs de Ultraman quanto apresentando aos organizadores do Animecon e do Anime Friends um local para a realização de suas edições anuais.

O impacto dessas pessoas em tudo o que consumimos hoje é grande. Del Greco e Cassius Medauar estavam por trás dos primeiros mangás lançados no Brasil: enquanto o atual editor da JBC publicou pela Conrad o mangá de Pokémon (porcamente alterado pelo licenciante americano), Cassius Medauar esteve envolvido em Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco, nada menos que os primeiros mangás lançados em sentido oriental no Brasil. O antigo “editor do Dragão” relembrou alguns perrengues já conhecidos, como a tradução vinda do francês (para os Cavs) e em espanhol (para DB), as dificuldades de se ensinar às gráficas como se encadernava um negócio de trás pra frente e até as antigas aprovações de capa através de um aparelho primitivo conhecido como fax (o que talvez explique a aprovação das capas excessivamente coloridas e psicodélicas de Dragon Ball, pois o fax envia imagens apenas em preto e branco).

Mas eles não apenas organizaram eventos e lançaram mangás, eles estiveram envolvidos no nascimento da nossa imprensa especializada. Se hoje em dia eu estou aqui falando que um YouTuber mimado mobilizou seus fãs para atender seu pedido egoísta de ter um mangá em um papel caríssimo é porque essas pessoas pavimentaram a estrada da imprensa desse meio. Sérgio Peixoto e Marcelo Del Greco explicaram todas as dificuldades do passado não só de se conseguir material do Japão como também informações sobre as produções tão queridas. O primeiro foi editor das revistas Japan Fury, Animax e Anime EX, todas especializadas em anime e mangá, enquanto Del Greco foi um dos principais nomes da revista Herói e da Henshin, e em ambos os casos rolava a busca por pessoas que lembravam das informações de cabeça, afinal a internet seria um luxo (e um pesadelo) que se popularizaria apenas alguns anos depois.

Além da falta de registros sobre animes exibidos no passado da televisão brasileira, um outro problema lembrado pelos especialistas é que muito material literalmente se perdeu. Peixoto explicou que, com a falência da Tupi, muitos funcionários saíram saqueando itens físicos na emissora com o intuito de tirar alguma graninha, e muito rolo de filme foi vendido para empresas que fabricavam… vassouras de piaçava. “Isso quer dizer que sua mãe pode ter varrido a casa com um episódio de Speed Racer“, comentou com pesar. Alguns outros animes dublados se perderam em enchentes, incêndios e outros tiveram um fim um pouco mais inusitado: Marcelo Del Greco, com sua amizade com um antigo funcionário da Tupi, conseguiu guardar consigo cópias de vários animes “perdidos”. Infelizmente nada disso pode ser disponibilizado por questão de direitos autorais.

Mas beleza, você chegou até agora nessa matéria e quer saber sobre o climão. Como eu já havia lembrado nesta matéria, Marcelo Del Greco e Sérgio Peixoto tiveram uma desavença décadas atrás que culminou numa agressão física. Peixoto chegou a cobrir o barraco no editorial da revista Animax, e teve até publicação de um Boletim de Ocorrência. Muito tempo se passou, uma pedra foi colocada em cima disso, mas ainda havia um grande elefante no recinto. Todo mundo lá presente sabia da treta entre os dois, mas ninguém falou nada sobre o assunto… pelo menos até abrirem para perguntas da platéia.

Com uma cara de pau admirável, a primeira pergunta feita pela platéia foi justamente “mas e aí, o que foi essa história do boletim de ocorrência?“. Após gargalhadas de nervosismo e constrangimento, os dois decidiram não contar a história, afinal é coisa do passado. Peixoto explicou somente que muita gente ia no seu ouvido falar mal do Del Greco e vice-versa. Como duas pessoas civilizadas, os dois se comportaram muito bem em sua primeira aparição pública e provaram que ainda há esperança de paz entre desafetos.

(Claro, desde que o desafeto não seja uma pessoa intolerante, racista, homofóbica ou que acredite em delírios de filósofo caduco)

É inegável que devamos respeitar e agradecer ao trabalho desses profissionais que décadas atrás pavimentaram o caminho até hoje, mas senti falta de alguma palestra ou bate-papo com o pessoal da atual geração. Entendo que é muito interessante saber a rotina de quem escrevia em revistas e trocava fitas VHS com episódios de Dragon Ball Z sem legenda, mas será que não seria interessante também conversar com a galera que atualmente movimenta esses assuntos com o pessoal no presente? Um youtuber de anime, um influencer, um blogueiro? Há muita gente aí interessante (ou seja, estou me excluindo) e que poderia mostrar as diferenças da atual imprensa especializada.

Fica a sugestão, porque a valorização extrema de um passado romântico é legal, mas ficar somente preso ao passado é o tipo de mentalidade de pessoas que acreditam que a solução é a volta da TV Globinho com a exibição de animes da Manchete.