Desabafo

Oi, eu sou a Mara: os 10 anos do Mais de Oito Mil

Oi, ao contrário do que diz o título deste post, aqui quem está falando não é a “Mara”. Me chamo Fábio e, bem… eu sou a Mara.

Escrevo neste site desde 2009, mais especificamente o dia 1º de dezembro de 2009, e naquele dia eu tive a ideia de fazer um blog em que eu pudesse zoar as coisas otakas, seguindo uma linha parecida com a de blogs que eu acompanhava na internet. Com o tempo, fui deixando de lado a linha editorial 100% galhofa e passei a fazer matérias mais pertinentes, mas sempre tentando deixar a coisa bem humorada. A ideia de usar uma personagem, a Mara, pareceu natural na época. Com o tempo, fui entendendo que ela não era necessariamente uma pessoa inventada por mim, e sim um lado meu que durante muito tempo fui tentando me conectar mais.

É impossível não mudar em 10 anos, ainda mais em tempos tão dinâmicos quanto os nossos. Gostos mudam, formas de enxergar coisas mudam e com isso encontro muitas diferenças entre a Mara de 10 anos atrás e a de hoje. Tenho meus arrependimentos sobre a forma na qual conduzi certos assuntos, discordo veementemente de certas atitudes e em algumas ocasiões conversei com as pessoas envolvidas para pedir desculpas por algum mal entendido. A vida é assim, estamos sempre mudando e dispostos a melhorar, o que não dá é ficar eternamente implicando com alguma coisa sem dar qualquer chance.

Nesses dez anos de Mais de Oito Mil muita água rolou: o mercado de Home-Video foi substituído pelo streaming, exibição de animes na TV aberta morreu de vez e o mercado de mangás passou a se fechar dentro do próprio nicho para não precisar se preocupar com estratégias de aumentar o público. Deixamos de ser presença constante na televisão e nas pautas da grande mídia para se tornar apenas um grupinho exótico, tema de reportagens curiosas sazonais em programas de variedade, e um mercado que sobrevive graças à boa vontade de quem admira essa arte.

Nunca imaginei que o site chegaria aos 10 anos de idade. Ao mesmo tempo que me traz uma satisfação enorme saber o tamanho alcançado por um projeto que faço sozinho, até porque foi justamente por causa deste site que conheci muitos amigos e até meu marido, também sinto um cansaço muito grande. Nos últimos meses cheguei a pensar em muitas coisas para os 10 anos do Mais de Oito Mil, indo desde uma série de matérias especiais até mesmo encerrar de vez o site, e confesso que até os 45 minutos do segundo tempo não havia chegado numa decisão. Esse texto que você lê deve ser a quinta versão, entre outras mais otimistas e pessimistas.

Foram incontáveis vezes que eu pensei em desistir deste site, pelos mais diversos motivos. Crises pessoais, depressão, altos e baixos financeiros, problemas de saúde, crises amorosas… tudo o que pode passar pela vida de uma pessoa em 10 anos com certeza aconteceu comigo. Produzir conteúdo para internet não é fácil. Em um momento de extremo cansaço cheguei a ficar alguns meses num hiato, que me ajudou a colocar a cabeça no lugar e me fez diminuir a cobrança que fazia comigo mesmo. Eu parei de me obrigar a escrever até duas matérias por dia e me permiti fazer quando tivesse vontade e assunto. Mas mesmo esse ritmo mais tranquilo não evitou dores de cabeças, por sorte tive muitos bons amigos que estiveram ao meu lado esses tempos e sempre ouviram os desabafos sobre as dificuldades.

A repercussão daqui sempre me surpreendeu. Tive a sorte de ter muitas matérias bastante debatidas pela internet, seja pelo pessoal que concorda como por quem discorda. Aliás, sempre me diverti muito com os comentários de quem acha meu conteúdo é um lixo, mas que sempre volta para ler mais. Algo que também me diverte bastante são as palavras de desdém de muitos profissionais da área quando falam a respeito do conteúdo do site, seja através de recalque após uma crítica ou indireta em uma palestra ou post na internet. Acho que eles preferem sites que trabalham de forma informal como assessoria de imprensa, divulgando e espalhando informações que eles mesmos são incapazes de fazer.

Mesmo com toda a diversão envolvida no feedback, não posso esquecer que se passou uma década inteira. 10 anos é tempo demais para se dedicar a fazer esse projeto, e me daria desespero ouvir pessoas hoje mandando o clichê “parabéns, que venham mais 10 anos”. Eu olho pra trás e a última coisa que quero são mais 10 anos! Acredito que tudo tem um ciclo, e é natural as coisas nascerem, crescerem e morrerem, e com este site não vai ser diferente.

Não tenho mais energia para cobrir mesa redonda de editores de mangás, já me esgotaram as ideias de como falar pela enésima vez que um mangá teve um preço reajustado e, embora as discussões sobre problemas pertinentes de animes e mangás faça um pessoal pensar num outro lado, o saldo que tenho no geral é somente desgaste. Não ganho um único centavo com esse site, nem adsense eu coloco aqui, então no fundo a sensação que fica é a de que estou apenas tirando um tempo que eu poderia relaxar, jogar meus joguinhos e me dedicar às pessoas próximas. Talvez seja a hora de deixar que novas pessoas, com novas ideias, apareçam para se importar com este mercado que muitas vezes não se importa muito com a saúde do próprio público.

Não vou parar o site de uma vez, até porque eu me conheço e sei que não aguentaria muito tempo assim, mas meu plano é ir com mais calma a partir de agora. Tenho minha vida, tenho outros projetos pessoais que demandam mais tempo e sinto que continuar aqui com o trabalho de sempre seria igual ao meme do velho gritando com as nuvens. Continuarei ativo no Twitter, tanto no meu pessoal quanto no do site, e matérias continuarão aparecendo, porém numa quantidade provavelmente menor. Pelo trabalho envolvido, também não teremos mais o Troféu Imprensa Especializada e pretendo desligar o campo de comentários do site, afinal as discussões já acontecem normalmente fora daqui, nas redes sociais.

A quem me acompanha desde o começo, ou que conhece o site há pouco tempo, o meu muito obrigado por tudo.