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Pirataria, ausência de editor e otakus apegados a papel: um bate papo sobre mangás digitais

Bela iniciativa que tenta trazer os mangás japoneses para fora do nicho é a exposição “Isto é Mangá” na Japan House tem realizado um ciclo de palestras com profissionais dessas nossas otakices. Após uma mesa redonda com editores de mangá, com pessoas se desdobrando para resolver problemas de uns 10 anos atrás, e um bate papo sobre empresas que trabalham com animes, o encontro realizado na última terça-feira (12) falou sobre o futuro. Não, não foi um debate sobre como será o fim de One Piece em 2028, e sim sobre mangás digitais Estavam reunidos profissionais da JBC, da Kobo Rakuten e do serviço de distribuição da Bookwire para debater sobre essa nova forma de ler mangás.

Camila Cabete, gerente sênior da Kobo Rakuten (um dos players do mercado de livros digitais) disse que não tinha ideia de como seria difícil trabalhar com mangás. “Eu esperava que fosse um mercado jovem, inovador, à frente de seu tempo. Não! Super apegados ao papel, ao formato. Mas eu entendo, é uma obra de arte. Foi uma quebra de paradigma bizarra”. Para o brasileiro adentrar no mercado digital foi um processo que começou há mais de uma década, e do lado dos quadrinhos houve um intermediário inusitado: a pirataria.

Foi através da pirataria que as pessoas começaram a ler scans, quadrinhos americanos não lançados no Brasil e se acostumaram a acompanhar uma história por uma tela em vez de papel. Tanto Camila quanto Isadora Cal, gerente de contas da Bookwire, explicaram que a pirataria é um bicho que não vai ser derrotado, mas que dá para tirar algum proveito. Segundo as profissionais, o processo para se quebrar as travas do produto oficiais são tão complicados que as pessoas acabam preferindo pagar pelo original mesmo, embora sempre exista aquela pessoa que terá um trabalho hercúleo para piratear um livrozinho. Esse não tem jeito mesmo: ” ele pirataria até a mãe”, brinca a gerente sênior da Kobo.

Oferecer um produto melhor e mais ágil que os piratas parece ser o mote da JBC com sua empreitada de mangás digitais. Edi Carlos Rodrigues, gerente de marketing da editora, contou ter recebido uma mensagem de um grupo que pirateava Nanatsu no Taizai, publicado pela editora simultaneamente com a publicação japonesa, e o pessoal contou que parou de fazer os scans porque eles levariam muito mais tempo que a própria JBC (que recebe os arquivos antes do Japão). Porém, Edi Carlos deu uma diquinha para colocarem um link para a venda dos oficiais e ainda ganharem uma porcentagenzinha no processo.

Já Isadora mostrou que a pirataria pode servir inclusive como chamariz do produto oficial, e citou o episódio da pessoa que vazou prints do livro da Anitta escrito pelo Leo Dias através de stories de Instagram. Não dava para fazer nada sobre aquele caso, mas a degustação virtual contribuiu para que a biografia da cantora chegasse ao topo dos rankings de venda.

 

 

Um dos assuntos também abordado é a “democratização” dos mangás (e livros) digitais. “Quando você está no Sudeste e tem essa conversa é muito diferente de quando você está no Norte e no Nordeste“, explica a gerente da Bookwire, “Eu sou nordestina e às vezes é muito difícil encontrar todos os livros que você quer nas livrarias, porque hoje a gente vive na mão de grandes redes (…) e aqui as coisas chegam muito rápido, o frete é mais barato que o produto. Sites falam que fazem entrega para todo o Brasil, mas tem um asterisco que exclui metade do país, que é o Norte e o Nordeste. E o digital resolve isso, ele está disponível a qualquer momento, em qualquer lugar que você tem internet”.

Mesmo com todas as maravilhas dos mangás digitais, a coisa não funciona sozinha, é fundamental que haja uma divulgação da possibilidade de ler digitalmente. Uma das falas da Isabel foi “Deixe claro para o seu consumidor que você tem digital. Se o consumidor não sabe, ele não vai procurar“, o que pode funcionar também como uma indireta para a editora Panini.

Como já tem até matéria aqui no site falando sobre isso, a Panini publica mangás digitais há mais de um ano, tem vários títulos importantes em seu catálogo mas comete uma falha grave: nunca os anunciou para o público. Não há qualquer menção dos mangás digitais da Panini nem no site da editora e nem nas redes sociais, apenas notícias feitas por sites como Biblioteca Brasileira de Mangás  que prestam indiretamente um serviço de assessoria de imprensa para a editora. Infelizmente não pudemos perguntar para Levi Trindade, editor da Panini, o motivo do descaso: embora previsto para participar desta mesa redonda sobre mangás digitais, a editora não deu as caras.

No fim, a maior lição que tiramos da palestra foi de que leitura digital é um hábito. Muitas pessoas, inclusive as palestrantes, demonstraram que tinham certa aversão ao formato, mas que foram sendo conquistadas pelos benefícios como alterar tamanho de fonte, poder carregar muitos livros dentro de um único aparelho e essa facilidade de distribuição. Claro que o papel tem seus fãs e continuará tendo, Camila até citou o exemplo de vinil que continua sendo vendido mesmo com Spotify. Edi Carlos mostrou que os esforços da JBC para emplacar o digital é coisa de formiguinha mesmo, e que os primeiros lançamentos vendiam na casa das dezenas (isso é o máximo de números que veremos a JBC compartilhando aproveitem). Hoje em dia, segundo o gerente da editora, os números estão mais interessantes.

E para estimular o hábito, a editora ofereceu mimos para o público (não só da palestra). Dá para você pegar os dois volumes do Henshin Mangá, almanaque de quadrinhos brasileiros em estilo mangá, na loja da Kobo (https://www.kobo.com) e levá-los de graça através do cupom henshin+2. É possível ler através do aplicativo da Kobo, além dos aparelhos Kobo. Atenção que isso só vale até amanhã (14), então corra para dar uma chance para esse mercado.

13 comentários em “Pirataria, ausência de editor e otakus apegados a papel: um bate papo sobre mangás digitais

  1. Seria interessante se todo mangá físico viesse com um código para pegar um digital, com certeza eu migraria algumas coleções e aos poucos mudaria meus hábitos.

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  2. Tanto Camila quanto Isadora Cal, gerente de contas da Bookwire, explicaram que a pirataria é um bicho que não vai ser derrotado, mas que dá para tirar algum proveito. Segundo as profissionais, o processo para se quebrar as travas do produto oficiais são tão complicadas que as pessoas acabam preferindo pagar pelo original mesmo, embora sempre exista aquela pessoa que terá um trabalho hercúleo para piratear um livrozinho.

    Comentário sensato aqui. Pena que algumas empresas como Cheirarolas da vida não aprendem isso.

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  3. Eu n curto o digital. Já tentei, mas n é a minha vibe.

    Bem a ausência do Levi já mostrou o quanto a Panini tá focada nesse meio. Se n me engano o Biblioteca Brasileira de Mangás tava trocando ideia com um usuário no twitter e eles comentaram q tem alguns mangás digitais da panini a tempos sem novos volumes. Realmente ver a Panini assim é foda, sei q nunca foi perfeita, mas atualmente eles tão de sacanagem.

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  4. Panini é uma chacota em qualquer realidade, mas o descaso deles com seus produtos digitais é algo que beira o surreal (afinal, não é como se eles estivessem dando de graça).

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  5. > Camila Cabete, gerente sênior da Kobo Rakuten (um dos players do mercado de livros digitais) disse que não tinha ideia de como seria difícil trabalhar com mangás. “Eu esperava que fosse um mercado jovem, inovador, à frente de seu tempo. Não! Super apegados ao papel, ao formato. […]”

    Meio ingênua a fala dela.
    Livros são bem mais fáceis de portar para um outro formato mudando a formatação para se adequar a tela.
    Mangás exigem bem mais trabalho e algumas coisas ainda são perdidas no processo, como por exemplo imagens que ocupam as duas páginas.
    Alguns títulos acabam exigindo muito movimento e zoom (One Piece, por exemplo) pra perceber os detalhes e torna a leitura bem mais cansativa em e-readers e telas menores.

    > Segundo as profissionais, o processo para se quebrar as travas do produto oficiais são tão complicados que as pessoas acabam preferindo pagar pelo original mesmo, embora sempre exista aquela pessoa que terá um trabalho hercúleo para piratear um livrozinho.[citation needed]

    Qualquer forma de DRM está fadada ao fracasso porque impõe custos muito maiores aos consumidores do que aos piratas.
    Tem muito mangá digital pirata em japonês por aí e os títulos mais populares são os mais vulneráveis pela própria procura, então não acredito que sejam realmente tão complicados de se quebrar.
    E além disso, apenas uma pessoa precisa quebrar as proteções para que muitos possam piratear, acaba sendo similar ao processo analógico, uma pessoa/grupo escaneia uma cópia física e depois todos usam-na para tradução/disseminação.

    As editoras brasileiras devem temer/evitar os formatos digitais com razão.
    Para o formato em papel elas são necessárias como intermediárias, não só organizando a produção/distribuição mas também absorvendo o risco.
    Para formatos digitais elas são bem menos necessárias, e é bem mais fácil pra editora japonesa cortá-las do mercado e irem direto aos consumidores.

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  6. Só me corrigindo, funfou, tem duas opções lá, tem que inserir na do topo da página a direita.

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  7. Amo e-readers, tenho um sempre por perto e já fiz vários amigos comprarem os seus.

    Já li vários e vários livros mas, sinceramente, nunca consegui ler um mangá, de forma descente, em um e-reader (importante avisar que tenho um aparelho da kobo, mesma empresa que esteve na bancada).

    Minha experiência com mangás são sempre essas: Tela cheia de “fantasmas” (rastros de imagem) quando aplicado o zoom (que é um recurso existente em todos os e-readers, mas é muito chato de se usar), fontes muito pequenas, aquelas notas de tradução em tamanho ilegíveis. Tem ainda a questão das páginas duplas, como um comentário acima falou.

    A indústria em si precisa entender uma coisa: o mangá impresso foi feito para ser impresso. No momento que começarem a escrever mangás realmente pensados para leitores digitais, respeitando tamanhos mínimos de fontes, entendendo q muitas escalas de cinza não dão leitura, sem ilustrações de tela dupla etc etc… Só a partir desse dia que um mangá digital será realmente digital. Por enquanto são só scans preguiçosos.

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  8. Eu compro hoje os mangas somente em formato fisico se não existir o digital. Facilita a leitura e o transporte dos volumes. O único porém é que tanto a Panini como a JBC demoram muito pra lançar os.volumes digitais de mangas que estão fora do catalogo impresso, como HUNTER X HUNTER e as edições iniciais de One Piece.

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  9. Eu era um leitor assíduo de mangás, mas a falta de espaço começaram a me fazer comprar cada vez menos edições até chegar ao ponto que simplesmente não comprava mais nenhum e só acompanhava os scans semanais.

    Os mangás digitais me fizeram voltar a consumir esse tipo de mídia de forma oficial, completei fairy tail e alita e estou acompanhando edens zero e seven deadly sins.

    Assim que acabar a leitura desses pegarei outros mangás da JBC.

    Gostaria muito de pegar alguns da Panini, principalmente promissed neverland, mas enquanto eles ficarem colocando arquivos bugados no Kindle eles não verão meu dinheiro.

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  10. Meus hábitos de leitura digital, praticamente, se resume a Webtoons já que esse tipo de Webcomic tem uma diagramação realmente pensada pra telas de dispositivos móveis. Mangá convencional, eu sempre tento ler no digital, também. Tenho o manga-plus da Shueisha instalado, e já adquiri alguns mangás digitais no Kobo, Kindle e Google Play livros. Mas pra mim a experiência de ler mangá convencional só é prazerosa quando leio no físico. A diagramação deles simplesmente não casa com as telas, ao meu ver. A tela em que eu acho que eles ficam menos pior é a do notebook (não tenho tablet), mas de todo jeito, continua havendo ocasiões que preciso dar zoom, e nem sempre tô com paciência pra isso.

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  11. Livro eu ainda prefiro físico (sem falar que algumas editoras – né 34 e Estação Liberdade – não tem digital) porque gosto de emprestar, doar e deixar em locais públicos para outros leitores.

    Já mangá não. É algo bem inútil, entretenimento barato mesmo, não esses mangás brasileiros de péssima qualidade entulhando minha estante, então o digital vem bem a calhar mesmo.

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  12. Como já disse em matérias anteriorea, só vou entrar nessa onda quando tiver um aparelho bom e relativamente barato que me permita rabiscar nos livros e gibis digitais.

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