Mercado Nacional

“Brasileiro gosta de lembrar do passado”: os desafios de quem trabalha com animes no Brasil

Uma das poucas iniciativas otakas do ano que conseguiram ir além do nicho, a exposição “Isto é Mangá” na Japan House tem realizado um ciclo de palestras com profissionais dessas nossas otakices. Após uma mesa redonda com editores de mangá, com pessoas se desdobrando para resolver problemas de uns 10 anos atrás, o encontro realizado no último sábado (9) teve um tom um pouco diferente. Estavam reunidos profissionais de empresas de action figures, de jogos, de streaming de animes e de licenciamento de produtos, e todos eles compartilharam as peculiaridades deste mercado brasileiro.

Em um bate papo mediado por Renato Siqueira (que está nos bastidores deste mercado nacional há mais tempo que a duração do anime de Sazae-san no Japão), acompanhamos um grupo de especialistas no mercado otaku: Leonardo Galli, representante de vendas da Bandai Namco (empresa especializada em joguinhos, principalmente de séries japonesas), Paulo Facchini, gerente comercial da PiziiToys (empresa de figures e estatuazinhas), Yuri Petnys, gerente da Crunchyroll Brasil (e a pessoa que matou o bingo do Mais de Oito Mil) e, por fim, Luiz Angelotti, dono da Angelotti Licensing e que cuida de todas aquelas franquias nostálgicas da Toei (além de outras séries, tipo Naruto e Black Clover) desde épocas pré-internet.

A julgar pelas aspas que coloquei no título da matéria, dita por Paulo Facchini da PiziiToys, você pode imaginar “ah, mais uma palestra com uma galera puxando o saco daqueles animes da época da televisão 4:3 e incapaz de pensar que o mercado mudou“. O nostalgismo esteve sim presente no papo, e em algumas empresas ele se faz bem presente na hora de tomar decisões, como na hora de trazer figures de Cavaleiros do Zodíaco ou quando a Angelotti ajuda a trazer camisetas de Sailor Moon ao Brasil, mas me impressionei como esse pessoal está ciente que há necessidade de renovação.

Uma das discussões mais interessantes que deram as caras veio, de novo, de uma pergunta da plateia. Gustavo Almeida, lá do Anime Crazies, aguentou um longo papo sobre grandes animes do passado para fazer uma pergunta bem pertinente: “para esse público mais novo, que não conhece Jaspion ou Cavaleiros, o que vocês estão fazendo? Afinal, eles que estarão aqui no futuro!”. Maravilhoso questionamento.

A pergunta não foi necessariamente destinada à Crunchyroll, que já traz séries simultaneamente com o Japão, e nem tanto para a Bandai Namco, cujos jogos recentes englobam séries deste século como One-Punch Man ou My Hero Academia, mas trouxe respostas interessantes. Para Paulo da PiziiToys, o “brasileiro gosta de lembrar do passado“, e isso acaba sendo um quesito importante na hora de trazer figures do Japão para venda no Brasil.

“Eventualmente a gente pega um produto novo, de algum anime mais recente, pra gente fazer um teste”, explicou a respeito da preferência pela enésima coleção de bonequinhos de Cavaleiros do Zodíaco no lugar de uma série mais recente. No fundo faz sentido, até porque o público que consome novidades na Crunchyroll não é o mesmo público que tem as condições financeiras de pagar 600 reais num Cloth Myth (linha de luxo dos guerreiros criados pelo Kurumada).

Mas confesso que a resposta mais surpreendente para mim foi do Luiz Angelotti. Diversas vezes nos últimos anos critiquei algumas decisões sobre licenciamento no Brasil, como a insistência em exibir velharia dublada na TV aberta, mas agora a empresa parece trabalhar de uma forma mais… “moderna”. Multiplicou o número de itens geek das séries licenciadas pela Angelotti nas lojas, mesmo sem qualquer anime passando na televisão. Não é preciso o SBT reprisar Naruto para que as pessoas identifiquem as estampas do ninja em lojas e coisas assim.

Angelotti também falou sobre como há tentativas de se renovar o público para as velhas franquias através de novas séries. Embora ele tenha citado Cavaleiros do Zodíaco Ômega como uma tentativa falha de conquistar o filho do fã dos Cavs, ele ressaltou como Dragon Ball Super renovou a franquia de Akira Toriyama e que até o Cavaleiros da Netflix conseguiu um público novo que não ousaria assistir àquela velharia dos anos 80. Vale lembrar que ele tem em seu catálogo também novas séries, como Black Clover (cuja maior promessa é estourar os tímpanos das crianças com o grito do protagonista, mas até isso pode ser usado em produtos franqueados).

As peculiaridades do mercado brasileiro também foram tema de algumas conversas, duas compartilhadas pelo representante da PiziiToys. A primeira foi sobre uma coleção de Cavaleiros do Zodíaco que não fez sucesso em canto algum do mundo, apenas no Brasil. Por apresentar modelos simples de plástico, sem a possibilidade de trocar abertura, os fãs internacionais não se afeiçoaram muito pela coleção e ela acabou cancelada pela Bandai. Entretanto, por causa do preço ser quase um sexto do valor de um Cloth Myth, ela fez muito sucesso no Brasil por ser mais “acessível”. As aspas têm um motivo: o negócio custava uns 150 reais.

Paulo classificou o fã brasileiro como vaidoso, que busca conseguir os produtos o mais rápido possível para poder exibir em redes sociais, e isso afetou um produto feito para o nosso mercadinho. Alguns anos atrás, a Bandai procurou vendedores de figures brasileiros para estudar um modelo exclusivo, e chegaram à conclusão que seria legal lançar algo do Jaspion pela importância nostálgica. Faz sentido, afinal o público alvo é aquela galera que nos anos 80 não tinha dinheiro para comprar produtos do herói de infância. Mas a situação se desdobrou de uma forma curiosa…

Metade da produção do Jaspion foi para o Japão e metade seria enviada ao Brasil, chegando às lojas três meses após o lançamento japonês (devido às dificuldades alfandegárias). Como o fã brasileiro é muito afoito, muitas pessoas importaram de lojas japonesas o figure do Jaspion, e quando foi lançado oficialmente no Brasil não teve as vendas esperadas pois todo mundo já havia comprado antes. Com isso, um figure do McGaren da série Jaspion foi cancelado, afinal oficialmente o Jaspion não vendeu no tempo esperado no Brasil.

Embora não seja um mercado gigantesco, o próprio Luiz Angelotti explicou que mercado de massa é apenas de grandes títulos americanos, as empresas que trabalham com produtos otakus estão cientes que têm um público bem numeroso, que dá lucro mesmo com peculiaridades próprias. A tendência parece ser, então, compreender como essa galera funciona e trazer cada mais produtos para esse pessoal.

8 comentários em ““Brasileiro gosta de lembrar do passado”: os desafios de quem trabalha com animes no Brasil

  1. Fica visível que o mercado nacional pra se renovar capenga mais porque o que os representantes não são tão competentes em conquistar público com as novas produções.

    Agora foi totalmente infeliz ao falar que não há tentativas para conquistar novo público com produções orientais. Bey Blade é um exemplo de marketing que rende muito para a Hasbro, já que esta está sempre lançando produtos comprovando que a animação vende.

    Sem contar que é isso que falta: desenho, animação e afins tem que vir com produtos atrelados para ajudar até mesmo no custos da produção. Isso cria um legado. Por isso que ainda se vende produtos do Dragon Ball e Cavaleiros.

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  2. BayBlade é sucesso até hoje, assim como as temporadas novas de Pokémon.
    Como o amigo ali em cima falou, ter uma linha de produtos é fundamental, eu lembro de perder muito hype por Gash Bell por não achar nenhum boneco do negócio e ficar fissurado em Bakugan, já no final da infância, pois dava pra encontrar as bolinhas por aí.

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  3. Quanto a licenciamento o ocidente melhorou muito. Lembro de quando na TV eu via diversos desenhos e depois ao pesquisar sobre eles hoje vejo que eles tinham brinquedos entre outros produtos para se sustentarem na mídia. Foi por isso que Cavaleiros está até hoje na memória de muitos. Esse tipo de parceria mercadológica entre fabricantes de brinquedos e estúdios é a magia das produções audiovisuais animadas.

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  4. Nossa fiquei ate espantado, os caras mostraram q a um estudo de mercado e tudo. E bem curioso esse caso da importação do boneco do Jaspion. Só q um ponto a se destacar dele é q tbm as vezes é muito mais barato importa do Japão do q comprar aqui no Brasil.

    Visto q eu mesmo já comprei bonecos a 70 ate uns 130 reais (isso já com frete) q aqui no brasil custam uns 250 (sem frete) , é foda pq a gente vira refem do lojista e muitas vezes n dá pra saber se esse preço tá pq o país tem uns tributos muito escrotos q ferram o vendedor ou se o vendedor é só um grade filha da puta oportunista q se aproveita daqueles q n caçam produtos pela internet a fora.

    Mas agora é interessante ver q a um minimo de estudo por parte desses caras, já no lado editorial…

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  5. Acho que se tenta sim renovar o publico, mas não do jeito certo, por exemplo Beyblade é sucesso até hoje mesmo quase sem divulgação alguma por parte do Cartoon Network, e Yokai Watch teve um sucesso rasoavel com o anime, mas os brinquedos encalharam de um jeito que cancelaram a linha por aqui logo na primeira temporada.
    Os brinquedos de Dragon Ball Super tiveram pouquissimo estoque, e os de Pokémon sequer eram vendidos em lojas de brinquedo (apenas com Pokémon GO alguem se mexeu e mudou isso).
    Nos anos 2000 isso era ainda pior, pois se tinha mais a animes e menos produtos, se tivesse um album de figurinhas era incrivel, e teve animes que não conseguiram nem isso, como Zatch Bell e One Piece.

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  6. Os cavaleiros tiverem como propulsor os álbuns de figurinhas, e os bonecos falsi. Para os ricos tinham os bonecos originais. Daí vc vai procurar algo de Naruto já era um pouco mais complicado, de My Hero Academia então.

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  7. Acho que na real, o grande problema é que nós temos muitos fãs de Dragon Ball ou de Cavaleiros e poucos fãs de anime no geral.

    Eu tenho 28 anos, assino Crunchyroll, consumo pelo menos umas 10, 12 séries por ano, mas a maioria dos caras/minas que eu conversava na infância que assistiam animes também, pararam no tempo e só assistem aquilo que eles já conhecem.

    Hoje o cara de 28 anos tá chorando porque o Homem de Ferro morreu no Vingadores (sendo que há 10 anos atrás, nem sabia o que era HQ), ao invés de procurar um anime novo pra ver.

    A popularidade e a renovação só vai acontecer ao meu ver, quando a Marvel esgotar as fichas dos super heróis e comprar direitos de produções japonesas para fazer cinema.

    Eu mesmo tenho contato com tanta gente que acha anime/mangá bobo, mas venera personagem de HQ (que em muitos casos é a mesma coisa)

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