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Mangá em capa dura: precisamos disso?

Num dia desses, estava deitada na cama vendo programa de decoração no GNT e um telespectador aflito havia pedido auxílio de um especialista sobre como enfeitar uma prateleira em seu quarto. Antenado com as últimas tendências da classe média alta, o decorador sugeriu a utilização de plantas ou de livros. Peraí… mas livro é enfeite desde quando? Esse pequeno exemplo está aqui só para falar que a tendência de ter uma estante bonita não é exclusiva de pessoas com jardim de inverno, e afeta também o nosso mercadinho de mangás.

Às vésperas da exposição de Naoki Urasawa na Japan House de São Paulo, a Panini trouxe um presente para os fãs do autor. Não, ela não anunciou reimpressão de volumes raros de Monster ou 20th Century Boys, e sim anunciou a publicação da versão luxosa Monster Perfect Edition cuja lombada não parece tão perfect assim:

Desde o lançamento da edição definitiva de Cavaleiros do Zodíaco, quando a JBC viu uma oportunidade de transformar o produto em um tijolo desconfortável de se ler (embora ainda seja um tijolo muito bonito), as editoras de mangá foram colocando capa dura em tudo o que podiam. A própria JBC se gaba do produto ser muito fiel à edição original japonesa, como se a fidelidade fosse o maior mote, deixando de lado que a tal capa dura nem ao menos está presente no original.

No Japão, as tais edições de luxo parecem focar em trazer material exclusivo (como páginas coloridas), uma quantidade maior de páginas e um papel mais resistente e que torna o desenho mais bonito, quase como uma forma de se melhorar a experiência de ler mangá. Essa linha de pensamento infelizmente não veio para o nosso mercado, que prefere colocar itens que dificultam a leitura do mangá e priorizam deixar o mangá bonito, como uma boa decoração. Mas por que estamos vendo um aumento na quantidade de edições de luxo no Brasil? Bem… a crise brasileira pode explicar muita coisa.

Talvez seja uma grande surpresa para você leitor, mas o país está em crise. Com mais de 13 milhões de desempregados, fora os milhões em situação de emprego informal, está bem difícil acompanhar mangás. Um título popular como One Piece, por exemplo, passou por DOIS reajustes somente neste ano de 2019, mostrando que o mar não está para pirata de borracha e muito menos para o público.

Recentemente cheguei a perguntar para o pessoal que me segue no Twitter se eles continuavam comprando mangá normalmente, e muitos declararam que deixaram de adquirir muitos títulos. Claro, essa amostragem é uma bolha minúscula, mas a gente percebe pelo mercado o quanto as coisas estão retraindo. Por outro lado, houve um aumento exponencial de materiais de luxo: Ayako, Akira, Ghost in The Shell, Dragon Ballaté mesmo Fruits Basket que nunca foi um título grande a ponto de ganhar uma capa dura entrou no balaio!

Embora seja lógico imaginar que a editora lança um mangá para vender muito e ter lucro, esses títulos oferecem uma outra forma de conseguir dinheiro ao focar no público mais endinheirado e colecionador, disposto a pagar mais caro. Em vez de investir em publicidade para atrair um público consumidor em potencial, as editoras optaram por se retrair e satisfazer apenas o fã que tem dinheiro para gastar muito em um mangá. E essa minoria parece disposta a “sustentar” esse mercado comprando produtos de luxo.

A JBC anunciou que num futuro próximo irá lançar Sakura Wars e Gunsmith Cats Burst, e os dois títulos têm algo em comum: fazem parte da série C dos mangás. Não são títulos com garantia de venda e sucesso de crítica, têm mais cara daquele mangázinho de 15 reais que você pegaria pra ler e se distrair. Porém, a editora decidiu lançá-los em um formato um pouco mais impeditivo, o tal do “trig” que enfia 3 volumes em um único tomo. Se o preço de 2 volumes juntos já chega a 45 reais, imagina quanto vai sair comprar esses títulos que nem são tão bons assim!

Enquanto lá fora há uma tendência a lançar essas compilações como forma de economia para o público, aqui no Brasil esse formato serve para agradar a editora mesmo: se lança um título com menos volumes para ter mais garantia de que o público não vai se desanimar com um mangá ruim e longo. Já para o público que não se interessa por colecionismo, a correnteza não parece favorável. O tal formato do shonen de lutinha a 22 reais da Panini já foi abandonado e, a cada lançamento, a editora inventa um novo penduricalho para colocar o preço dos mangás em algo perto dos 30 reais.

A pergunta feita no título dessa matéria pode dar a entender que eu acho uma aberração um mangá de capa dura. Na verdade eu acho desnecessário, desconfortável e até feio (ainda mais no caso do Monster, que virá com uma sobrecapa também), mas não acho que é algo que deva desaparecer. Existe um público consumidor para isso e as editoras seriam trouxas se ignorassem esse pessoal. Porém, o problema é que há uma tendência a focar a maior parte dos esforços nisso e ignorar os títulos que deveriam ser mais acessíveis.

Tudo isso apenas levanta dúvidas: o mercado parece propício ao colecionismo, mas será que os colecionadores vão carregar tudo nas costas quando aumentarem os lançamentos? O Dragon Ball da Panini, por exemplo, virou um título mensal custando 70 conto. E, nesse momento, as editoras lembrarão do público com menor poder aquisitivo? Talvez o decorador do GNT tenha uma ideia melhor do que vai se tornar o mercado de mangás no país.

23 comentários em “Mangá em capa dura: precisamos disso?

  1. Agradeço à mim mesma por não ser otaku cult interessada em títulos “clássicos” com chance de sair em edição de luxo ou estaria sofrendo da vontade de comprar e não conseguir.

    Há pouco tempo, com 50 reais, dava pra eu comprar 3 tankos e sobrava um troco prum salgado ou pra inteirar no quarto tanko do mês seguinte. Hoje com esses mesmos 50 reais só pego 2 e olhe lá. Às vezes deixo de comprar num mês pra comprar no seguinte só pra fechar a compra em 100 na amazon e ter o frete grátis, mas bate o desespero quando tem mangá da panini saindo porque se a gente não pega no lançamento não acha nunca mais.

    Já perdi totalmente minha fé na panini e só espero terminar Pandora Hearts pra largar de vez a editora. E parece que a JBC também está deixando o “otaku médio” de lado e investindo tudo nos financeiramente favorecidos. Falando por mim, detesto a estratégia de lançarem vários volumes de uma vez ou formatos 2 em 1. Sempre preferi pegar volume por volume e ler com calma. Gostaria muito de pegar Fruits Basket agora pois na primeira edição eu era uma adolescente que juntava troco do pão pra dar 4,90 num inuyasha. Pagar 10 reais em mangá na época me parecia algo totalmente inalcançável. E hoje, com esse formatão, continua sendo. É uma pena.

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  2. O problema é: existe público para mangá hoje em dia? Sério, todas as iniciativas para novo público naufragam. O tal do Crunchroll TV, que aparentemente era para ser uma solução pra saber “olha aqui, produto oriental existe”, nem se fala mais dele e foi esquecido num churrasco.

    Talvez seja a maneira de pegar o pouco público que lê mongas e que colecionou algum dos títulos citados em suas versões standard, como no caso Monster e Furuba, com uma edição mais requintada.

    Não adianta reclamar do mercado se nunca houve mercado decente mesmo.

    Tem que orar pra Kami Sama pra pedir um visionário que trabalhe a bagaça direito, ou vai ser sempre esse choro.

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  3. sinceramente, as editoras que lutem, acho que nem quem tenha mto poder aquisitivo vai querer gastar isso tudo. só se a pessoa for tipo, muuuuuuuuuiiiiitttttoooooo fã de monster (por exemplo).

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  4. Só um adendo: apesar de terem falado dessa mudança de Dragon Ball pra mensal, continuou sendo bimestral mesmo

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  5. N tem nem o q adicionar, o texto mostra mesmo a situação atual do mercado de mangás. Virou uma parada pra um nicho, foda q esse nicho é do pessoal endinheirado. Pior q a cada aumento de preço é terrivel ver q isso se reflete em um material porco e sem qualidade em sua maioria.
    Atualmente foco em comprar 3 mangás só e olhe lá.

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  6. Nessas horas que eu fico satisfeito de a uns dois anos atrás ter decidido não começar mais nenhuma coleção nova e só terminar as que eu já tenho em andamento. Só abri uma exceção pra JoJo.

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  7. Acho que as editoras estão começando a enxergar mangás com tanto valor literário quanto livros. Gosto dos meus livros de capa dura, que são bonitos e mesmo desconfortáveis, ainda são mais confortáveis do que calhamaços de 500 páginas. E uma edição de luxo que compila mais de um volume é mais viável do que um mangá de capa dura com meras 100 páginas custando 60 conto como A Garota do Outro Lado da Darkiside. Rosa de Versalhes mesmo merecia capa dura mais do que Fruits Basket, já que tem menos volumes e é mais histórico.

    Só que literatura não é muito acessível. Antigamente era artigo de luxo de gente rica por causa da dificuldade de produção. Hoje, mesmo acessível, ainda é caro e ainda continua sendo um artigo de luxo, tento capa dura ou não.

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  8. @Lis D
    como a panini tem a tradição de atrasar os seus títulos, todos os mangás acabam sendo bimestrais de uma forma ou de outra…

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  9. Mangá de Dragon Ball em capa cartão tradicional encontra-se completo à venda na loja da Panini, bem como na Amazon.

    Mangá de Cavaleiros do Zodíaco já foi publicado 2 vezes em capa cartão pela JBC.

    Se a reclamação não é pelo capa dura em si e você entende que há um público pra isso e os mangás que estão saindo nesse formato já saíram aqui em formato econômico em outras oportunidades. Onde está o problema?

    Panini já publicou Monster antes, tá publicando de novo agora em outro formato pra aproveitar outro público. JBC fez o mesmo com CDZ, assim como a Panini imitou e está fazendo com DBZ. Se você não é o público-alvo desses lançamentos, compra a versão padrão em algum sebo e seja feliz.

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  10. Eu não entendo o porque reclamar disso. É uma baita matéria tendenciosa.
    E a resposta é muito simples: Sim, há público pra isso. Mesmo todo mundo falando contra, CDZ capa dura e Dragon Ball tá indo de vento a popa. Estranho como num país de Crise, esse material caro tá vendendo! :o

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  11. Fiquei curioso. achei que só DB e Cavaleiros teriam capa dura. Virou tendência. Teremos sailor Moon luxo mas parece que não será capa dura. Qual é o próximo?

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  12. Geralmente, quem se interessa por estes titulos com capa dura são os famigerados LOMBADEIROS. Eles são tarados por capas duras! As lombadas quadradas ficam ótimas nas estantes… É ótimo para dar aquela esnobada básica naquele amiguinho que não têm dinheiro pra comprar toda a coleção…

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  13. E vc torcendo pra q o manga d cdz fosse um flop pra vc criar mais uma materia lixo ..
    Parece q vc c lascou kkkkkk

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  14. Eu acho que comentei algo aqui ou no Blog BBM, mas repito: estamos confortáveis nesse mundo de mangás capa dura. Não é como se as editoras tivessem grana de sobra pra ficar lançando mangás assim, então essa limitação orçamentária é meio que nossa segurança monetária.
    Vocês viram a putaria que virou o mercado de capa dura de Comics? A Panini já tinha uma linha de capa dura, mas o bagulho enlouqueceu depois que a Salvat abriu a porteira da “capa dura a preço “popular”.
    Não acho que mangás de capa dura sejam necessários, o mercado tá funcionando a mais de 10 anos com formatos mais simples e acho que eventualmente isso vai voltar a ser a regra única, não a exceção.

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  15. Eu tenho e li toda a obra Monster em formato jornal. Acho muito válido ter agora em capa dura a mesma obra. Vai ser legal de reler, vai ser mais durável e ficará mais bonito na estante.

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  16. Se é pra lançar coisa em edição de luxo, por que não os números 6 e 7 da Nausicaä? Essa eu compraria, só pra completar a coleção (porque ler, mesmo, eu li no “scan”. E em italiano, a única lingua disponível no bit-torrent, consultando o dicionário o tempo todo!).

    Aliás, do lado ocidental também tem muita coisa sem sentido saindo em capa dura sem precisar, como “Kick-Ass”, “Miss Marvel” ou “Cruzada Infinita”. Só material normal, que cabia num encadernado simplesinho. E temos até absurdos como “Terra X” ou “Next Men” saindo em edição de luxo pela bagatela de CEM carluxos!

    Talvez alguém se lembre de eu ter comentado sobre o encadernado n° 10 de “Y: o Último Homem”, o gibi que ninguém leu porque devem ter saído só dez exemplares. Pois a Panini relançou a série, num formato “big”, coletando dois encadernados em um e com capa dura e acabamento de luxo. Até pensei em comprar, mas quase infartei com o novo preço no site de Panini (claro, porque essa também não chegou às gibiterias): se a original, com seis histórias, capa cartonada e papel “revista Veja” custava R$ 25 (vamos botar R$ 30 pela inflação do período), a nova, com doze histórias, capa dura e papel cuchê sai pela troncheira de R$ 96!!!!! Duas edições pelo preço de três!

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  17. Lança seu proprio manga entao, com a capa fina

    reclamar ta cheio de bostinha reclamando, mas fazer msm são poucos

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  18. A está usando a exposição que Naoki Urasawa está recebendo no Japan House pra ganhar mais uns $$ com uma versão gourmet de Monster. Ok, faz parte. É um relançamento (mais um), e acho válido. O difícil é que Pluto, que saiu há pouquíssimo tempo tenha volumes esgotados (praticamente desde de o lançamento) e a editora não pensou em repor visando esta mesma exposição.
    Na Espanha Pluto foi lançado pela Planeta DeAgostini em 2017. Todas as edições estão disponíveis.
    Antes de pensar no formato devia-se pensar é nessa política de distribuição dos produtos. No caso da Panini, depiis de 06 meses boa parte do catálogo está como esgotados, mesmo aqueles que foram fracassos de venda (Toriko).

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  19. @Urashima: Isso aí deve ter sido rolo com a distribuidora, a Dinap. Eles pegaram vários e vários volumes de mangás e simplesmente não entregaram nas bancas e demais pontos de venda. Com a falência da distribuidora muitos mangás foram devolvidos pra Panini que está distribuindo eles pra banca de novo. Olha no site da Biblioteca Brasileira de Mangás que eles estão sempre postando quando ocorrem redistribuição de títulos.

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