Desabafo · Mercado Nacional

A triste história dos mangás que NUNCA vão sair no Brasil (e o motivo disso)

Já falei aqui em outra matéria, mas recentemente eu viajei para a Argentina (tem até matéria aqui sobre os mangás de lá) e aproveitei o passeio para trazer coisas que não temos no Brasil. Na mala, entre outras coisas, veio um My Hero Academia Vigilante, aquele mangá do Yamcha de Dragon Ball, as três primeiras edições de Mirmo Zibang em mangá, uma antologia de histórias curtas da Rumiko Takahashi e uma edição de luxo de Sakura Card Captor que não usa uma fonte parecida com Comic Sans na capa. Esses cinco exemplos citados não foram escolhidos a esmo para essa matéria, eles trazem uma estatística meio triste: arrisco dizer que somente 60% dos citados têm chances de chegar ao Brasil.

Parece meio óbvio pra mim que a JBC irá um dia publicar o spin-off de Vigilantes no universo de My Hero Academia, é só eles terminarem de lançar blocos de trocentos volumes ao mesmo tempo. Afinal, se até Fairy Tail tá ganhando spin-off até agora por aqui, imagina um mangá que aparentemente vende bem. Digo o mesmo do mangá do Yamcha: a Panini adora lançar alguma tranqueirinha derivada de série de sucesso, a gente teve até o mangá do Rock Lee gente! Por fim, cês duvidam que a JBC requenta Sakura (o “Card Captor”, porque o “Wars” tá morto né) de novo quando precisar de um dinheirinho? O do Yamcha e da Sakura ainda ganham pontos extras pelo fator nostalgia, que é algo que diminui a necessidade de se gastar com publicidade. Pra quê anunciar decentemente títulos que já serão divulgados por vários veículos do meio nerd? 

Os outros mangás é que estão numa situação mais complicada. Mirmo Zibang, para quem não conhece, foi um anime exibido nas tardes do Cartoon Network em meados de 2005. É destinado para garotas adolescentes de uns 10 a 14 anos, e conta a história de uma adolescente chamada Kaede Minami que tem uma fixação um pouco doentia por um nojentinho da escola chamado Setsu. Para ajudar a se aproximar de Setsu, ela consegue invocar o ser mágico Mirmo, que usa seus poderes em várias tarefas. Comecei a ver naquela época por curiosidade, e acabei meio que me apegando. A história não tratava os jovens de forma irreal, e eu enxergava na Kaede a adolescente de 14 anos que eu não via na Serena de Sailor Moon.

Depois de dar um uivinho de surpresa e comprar os primeiros volumes do mangá, fiquei com aquele medo de ser algo meio nostálgico. Porém, eu achei o mangá genuinamente bom. Claro, não estou falando que é melhor do que grandes clássicos do mangá, mas ele me divertiu bastante com a história leve e o humor bobinho. Após a leitura, me bateu uma sensação estranha: isso NUNCA vai ser publicado no Brasil.

O mangá de Mirmo Zibang tem todas as características que o tornam inviável no Brasil: 1- ele foi exibido somente num curto período de tempo em uma emissora fechada, sem muita repercussão 2- é um mangá destinado a garotas 3- é um mangá destinado a garotas de 10-14 anos 4- tem 12 volumes. A única chance de Mirmo Zibang ser publicado no Brasil é se eu, Mara, abrir uma editora (a Editora da Mara) e publicar isso, ao lado de outros títulos que nunca vão chegar aqui e que amo, como Twin Spica.

Embora editores de mangás digam o oposto, nosso mercado é basicamente formado por shonen de lutinha infinito e shonen pra adulto disfarçado de seinen psicológico. Qualquer coisa fora dessas demografias é um ponto fora da curva. Editores de mangás explicam sempre a inviabilidade de publicação de títulos maiores de 10 volumes, mas isso só vale quando não é um shonen de lutinha: a cada mudança de fase da Lua temos uma editora anunciando mais um shonen de lutinha sem prazo de acabar. Nem precisa ser conhecido, basta ser da demografia que vale a pena arriscar!

O mercado de mangás no Japão é uma das coisas mais ricas e diversas que existem. Tem mangá para todo o tipo de demografia, gênero e nicho possível. No Brasil, por facilidade/preguiça, optou-se por focar em apenas um dos tipos: os mangás destinados a garotos. Claro, vai aparecer aí nos comentários alguém falando que isso é normal, e repetir a falácia de que shoujo mangá não vende no Brasil (claro, quando levamos em conta que essa demografia ganhou dezenas de títulos medíocres lançados pela Panini sem qualquer cuidado, aí é fácil falar que não vende), mas isso é mesmo verdade. Se shoujo não vende, o que explica as vendas supostamente boas de Aoharaido, coisas do Clamp ou Fruits Basket?

Claro que alguns títulos vendem mais do que outros. Não quero dizer aqui que um shoujo de sucesso tem o poder de vender mais que um Naruto ou um My Hero Academia, mas com uma publicidade decente e uma escolha de títulos, é possível ter mangás diferentes do shonen de lutinha nas bancas, e com vendas saudáveis. Aposto que, se o mercado brasileiro tivesse uma variedade maior de demografias, atraindo um tipo mais variado de público, estaria se saindo melhor no meio dessa crise. Mas é o contrário, estamos jogando todos os títulos possíveis em cima das costas do público que aprecia o shonen de lutinha, uma hora esse peso vai ficar grande demais pra carregar.

Por se concentrar num público muito específico, o admirador do shonen de lutinha, até mesmo outros tipos de shonen têm poucas chances de publicação. Ranma 1/2, por exemplo, é um mangá que saiu no limite do tempo que poderia ter saído, NUNCA seria lançado por aqui de novo. Imagina, um mangá mais de comédia romântica com 38 volumes? Imaginem Ah Megami-Sama! Se tá difícil pra Ranma 1/2 ou Inuyasha, que tiveram anime exibido no Brasil, imagina para Urusei Yatsura. Ou Rinne (que nem no Japão foi aqueeelas coisas)? Mas é nunca que sai por aqui. Todos eles (menos Ah Megami-Sama) são de Rumiko Takahashi, autora premiadíssima e genial… mas ela tem o azar de ter um traço ~~~velho~~~.

Histórias de um Espelho, a antologia da Rumiko que comprei na Argentina e citei no começo da matéria, é uma leitura fascinante. Estava acostumada aos mangás dela mais de ação, então é uma coisa muito legal ler histórias de outros gêneros, como terror. E são histórias diferentes do estilo dela, mas ao mesmo tempo totalmente no estilo dela. Sério, foi um dos mangás mais gostosos que li esse ano, e me parte o coração saber que as chances de uma JBC da vida trazê-lo são muito improváveis.

O mercado brasileiro já foi mais diverso. Em algum ponto nessas duas décadas de mangás em sentido oriental, tivemos uma variedade maior de shoujos, mangás para adultos, títulos infantis, coisa de luxo ao lado de material mais barato. Atualmente, preferimos acreditar que mangá é apenas aquela formulinha da Jump, ou então a formulinha da Jump aplicada em mangás teoricamente adultos. Com um mercado que está zero porcento interessado em renovar público, me questiono se daqui dez anos ainda teremos um mercado para poder falar aqui no site.

14 comentários em “A triste história dos mangás que NUNCA vão sair no Brasil (e o motivo disso)

  1. Falar do mercado tá complicado. Si conpro o q quero e foda-se, cansei de reclama dessa parada. N adianta mesmo.

    Em relação as chances do Titulo do Yamcha vir é algo um tanto questionável, visto q a Panini administra mal pra caramba a franquia Dragon Bal ( q é provado q dá dinheiro a rodo). Só lembrando q quando DBS tava no auge a Panini n anunciou nada, DBFZ tava fazendo sucesso e nada, Dragon Ball Super Broly foi sucesso nós cinema e veja só: NADA. DBS só saiu depois q a serie se encerrou, todos os outros países aproveitaram a onda de sucesso pra lançar tudo q podia de DB e aqui a panini dorme no ponto e só muito tempo depois anuncia o Kanzenban.
    “A mas tem o licenciamento”. Porra é licenciamento a passo de Tartaruga ? A Argentina tem o mangá do Yamcha e a gente n tem nada, até pro mangá do Jaco sair demorou pra caramba e nos EUA saiu quase de imediato após o Japão.

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  2. Outra coisa que sinto falta são mangas de esporte… Príncipe do tênis e até captain Tsubasa (aqui super-campeões) que passaram na tv não tem chance, imagina outros menos famosos…

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  3. Ah Megami-Sama!, um mangá incrível! Que ainda teve a primeira leva de OVAs dublados em português, mas pelos motivos citados acima nunca sairá no Brasil, eu mesmo li a história toda e atualmente quero comprar os volumes físicos e vai ter q ser em outra lingua alem de ser importado. Acho q nosso mercado precisa de uma mudança ou vai continuar do mesmo jeito para sempre.

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  4. Acho que para o mercado de mangás aqui no Brasil se tornar de fato mais diverso, vai ter que deixar de ser direcionado exclusivamente ao público otaku e conseguir conquistar um novo público através de histórias que tenham um apelo mais universal, através inclusive de melhores propostas de marketing. Eu por exemplo, tenho alguns volumes de Aoharaido e já cheguei a indicá-los para minha sobrinha adolescente de 14 anos que se encaixa exatamente no público alvo da série, mas ela simplesmente ignorou mesmo hoje em uma fase mais leitora onde já leu vários livros tratando de romance e adolescência, tal qual como o mangá, chega até a ser meio absurdo.

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  5. Off-topic parcial: Eu via mto Mirmo Zibang quando era criança e várias pessoas tiravam um sarro comigo por causa disso (e olha que estava na “faixa etária”, tinha entre uns 12~14 anos), especialmente minha irmã mais velha. Mas às vezes ela via junto comigo mesmo assim, e a gente ria cada vez que a Kaede falava Setsu, pq soava mto parecido com “sexo” (cabeça de adolescente né kkkk). Legal saber que alguém se lembra de Mirmo Zibang além de mim!
    Sinceramente é mto provável que nunca mais colecione mangás na minha vida, ainda mais agora com iniciativas como o Manga Plus começando a surgir. Diminuir é que os preços não vão, e tô com ranço da Panini até hje por botar dois mangás que eu comprava (Tiger & Bunny e Kekkaishi) na geladeira. Pelo menos parei de comprar quando vi a merda q ia dar. Acho arriscadíssimo hoje em dia colecionar mangás lançados no Brasil, a menos que sejam shonenzões da vida, títulos com pouquíssimos volumes/one-shots ou não sendo lançados pela Panini, pelo menos.

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  6. Por um segundo ao ver o post no twitter pensei que teríamos Mirmo Zibang no Brasil… Passado a decepção vejo que é realmente impossível isso acontecer. Você está certa sobre mangás shoujo, Mara, e sinceramente não posso falar muito porque eu mesma sou uma pessoa bem seletiva com os que pego pra ler, visto que uma coisa que eu realmente não curto é romance água com açúcar, então prefiro títulos mais maduros, alternativos ou que o foco não seja romance. Na minha coleção tenho 4 obras da Kaori Yuki (sendo duas delas importadas dos EUA), umas três ou quatro da CLAMP, Psychic Detective Yakumo (inclusive quero vender esse se tiver alguém interessando, rs), Fruits Basket, MeruPuri, NANA, Rosa de Versalhes, Sailor Moon… e acho que de shoujo é só isso msm. Até tem outros títulos que gostaria de ter (meu sonho é publicarem mais coisas da Kaori Yuki no Brasil) mas também acho muito difícil eles virem pra cá.

    Mas queria acrescentar que ultimamente além dos mangás shoujo quase não virem pra cá, quando vem eles vem em edição especial e custam os olhos da cara (ex: Sailor Moon que tava 20 pila e Rosa de Versalhes que tá 40 (QUARENTA!!!!)), o que dificulta ainda mais nas vendas, creio eu. Outra pessoa comentou que josei é ainda mais difícil de vir pra cá e eu concordo, o que é uma pena, porque existem obras maravilhosas nesse gênero.

    Mas é isso aí, seguimos a vida com shounen de lutinha porque é o que tem pra hoje né. Enquanto isso eu choro num canto porque mesmo sendo shounen, dois dos meus preferidos não tem a mínima chance de vir pro Brasil (Konjiki no Gash!! aka Zatch Bell!! e Majin Tantei Nougami Neuro que é do mesmo autor de Assassination Classroom).

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  7. Quero aqui os mangás de Konjiki no Gash Bell(Zatch Bell – 33 Volumes) e Jibaku-kun(Bucky – 6 Volumes)

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  8. Mais uma vez o mercado de mangas e de nicho. Não ha interesse em Choro Manga e este deveria nem ter sido alto na epoca.

    Talvez essa supoata alta venda de Choros Manga deve ser a procura por serem titulos melhorzinhos, mas isso vem num pessimo momento. Com um mercado sucateado.

    Falta de mangas infantis? Nao foi a Sr(a) que malhou o lancamento de Super Onze anos atras?

    Manga no Brasil nunca foi bem trabalhado tinha que contar com os animes na tv pra vitrine. Hoje em dia trocado por outros produtos como series netflix.

    O manga da materia da Rumiko Takahashi podia ter sido lançado na epoca quando Inu Yasha passava na TV, mas isso seria o risco.

    Fas de Choro Manga naos os entendo. Choram ate quando supostamente os Choros Manga lancados aqui vendem supostamente bem.

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  9. Isso me lembra que os otakinhos br sempre tiveram um ódio mortal de Hamtaro.

    Mas eu sempre achei um anime com um story telling do caramba? Na moral, melhor que muito desses lixos publicados

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  10. O que não ajuda também é que esses otakus desinformados que acham que sabem tudo e com muito tempo pra bostejar na internet só conhecem a Jump semanal. E porque ela é a mais vendida, eles pensam que tudo que vem dela é bom e exemplar.

    Claro que falta mais investimento por parte das editoras, mas elas sempre vão usar a desculpa que o Brasil é um país continental, monopólio na distribuição (tudo verdade), que encarecem o produto e torna arriscada uma aposta.

    Só mesmo uma editora grande pra bancar isso, mas parece que nem a LP&M animou.

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  11. De verdade? Eu não aguento mais esse descaso, a falta de diversidade aqui no Brasil me faz querer chorar de nervoso. A Panini tá publicando Wotakoi, um josei super leve e relatable (eu amo demais que ódio) com uma qualidade relativamente boa e postcard até o volume 6 por 17,90, mas o público real não faz nem IDEIA do que caralhos seja um Wotakoi sendo que é provavelmente o melhor mangá de romance deles desde Lovecom (que também teve uma divulgação horrível kk’). Agora anunciaram que vai sair Witch Hat Atelier, também pela Panini, que é um mangá LINDO, tanto a arte quanto a história, coberto por uma aura de mistério e curiosidade bem mais sensível e melhor trabalhada que 90% dos shounens que eles publicam, mas obviamente não vai ter divulgação NENHUMA. Tô torcendo pra que venha num formato mais baratinho, assim como Wotakoi, ou, se vier numa edição mais cara, como The Promised Neverland, que seja trimestral. Little Witch Academia é uma leitura super divertida e para um público de garotas como o Mirmo Zibang do post, e o que a JBC fez? Há meses terminou a publicação no Japão e nos EUA e só agora eles tão publicando o vol. 2. Tem muita coisa legal voltada pra garotas que vem barato e que simplesmente não É DIVULGADO porque fica mais fácil dizer que não vende que investir em comunicação e divulgação feita da forma certa; do jeito que tá, as editoras que se fodam. Uma hora nem o consumidor médio de Black Clover vai aguentar.

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