Mercado Nacional

Argentina: uma viagem pelo mercado de mangás dos nossos vizinhos

Talvez vocês não tenham percebido a ausência de matérias aqui no site, até porque nada de relevante aconteceu no nosso mercadinho, mas eu estava de férias. Meu husbando me ameaçou com uma arma, dizendo que eu precisava tirar férias, e assim fui com ele para a Argentina. Além dos passeios óbvios a se fazer, que envolveram encher o bucho de alfajor, empanada e carnes, o local também me interessava pelo seu mercado de mangá.

Ocasionalmente me via entrando em site de editora argentina para ver o que eles publicavam, formatos e os títulos que eles tinham e a gente não (sempre fiquei chateada que eles ganharam a publicação de Hungry Heart e a gente ficou mesmo com Pride – O Supercampeão incompleto). Uma viagem para a Argentina seria minha oportunidade de explorar esse mercado e saber como as coisas estão atualmente. Não consegui conversar com muitas pessoas sobre isso, até porque minhas habilidades de conversar em castellano é próxima à habilidade de luta do Yamcha em Dragon Ball Z, mas por observação deu para perceber diferenças e, infelizmente, muitas similaridades.

A qualquer momento você consegue encontrar o primeiro volume de uma série na Argentina. Já por aqui…

Uma das perguntas que mais me fizeram no Twitter quando eu postava aquisições de mangás na Argentina era PREÇO. Afinal, estamos em um período terrível no Brasil no qual um simples shonen de lutinha pode sair por 23 reais porque a editora disse estar privilegiando a qualidade do material.

Bem, a resposta sobre o preço de mangás na Argentina é bem pouco animadora: os mangás por lá custam praticamente o mesmo que os publicados aqui, às vezes até mais. Enquanto alguns títulos normais de banca podem sair por uns 250 pesos (o equivalente a uns 25 reais, bem mais ou menos), uma edição de luxo de Sakura Card Captor pode chegar a 400 pesos (consequentemente, uns 40 reais).

Se o preço é bem parecido, o mesmo não podemos falar sobre a qualidade. Eu fiquei muito impressionada com os volumes argentinos, que no geral têm uma qualidade de impressão ótima, papel bom (sem transparência) e sobrecapa no estilo dos volumes japoneses. A edição de luxo de Sakura que citei acima tem detalhes dourados na capa, e um design tão lindo que até eu que sou hater de Sakura cogitei pegar um volume (no fim, quem comprou foi meu husbando). Afinal, temos que valorizar republicações de luxo que não usam fonte parecida com Comic Sans na capa, né?

O mercado da Argentina é basicamente dominado pela editora Ivréa. Ela é tradicional como uma JBC, possui uma qualidade gráfica de uma NewPOP e um catálogo de títulos que se aproxima de uma Panini brasileira. Há décadas no mercado, ela foi indo de meio-tankos com impressão ruinzinha até volumes muito bem produzidos.

Atualmente, parece fazer de tudo para agradar os sommelieres hermanos: a publicação de The Promised Neverland deles tem três versões, uma normal, uma com capa alternativa e outra com uma garrafinha para tomar chá mate num valor próximo a 140 reais.

Os mangás da Larp eram vistos aos montes em livrarias e em estandes da Feira do Livro.

Uma outra editora argentina com paralelo brasileiro é a Larp, que poderia ser a nossa Conrad. Ou seja: ela se ferrou e perdeu um monte de licenças nos últimos anos. Consequentemente, outras editoras aproveitaram isso para “tomar” as licenças e publicar novas edições na Argentina. Também não posso deixar de citar a Panini, que tem colocado o pezinho aos poucos nesse mercado com mangás de qualidade gráfica bem mais simples.

Atualmente, o mangá mais longo em publicação deles é o Assassination Classroom, mas agora eles estão com Naruto e Berserk no comecinho. Detalhe: as edições argentinas da Panini são produzidas pela Mythos brasileira, que além de fazer os mangás da Panini no Brasil ainda produz tankos para váááários países latinos.

Quando tive aula sobre quadrinhos na universidade, os professores sempre comentavam sobre as grandes bancas de jornal na Argentina, que eram pólos para comprar os mais variados títulos. Agora em 2019, o que se vê é uma situação parecida com a do Brasil: as bancas se tornaram lojinhas de cacarecos variados, jornais, pelúcias e alguns raros mangás. A concentração maior de venda de quadrinhos está em livrarias (que são MUITAS) e nas comiquerias.

Uma das poucas bancas “saudáveis” que encontrei na Argentina

Na rua Florida, no centro autônomo de Buenos Aires, cheguei a visitar uma das mais impressionantes comiquerias que já vi. La Revistaria tem uma entrada simples, mas é só subir as escadas que você encontra uma loja de quadrinhos invejável. São vários “andares” divididos em categorias (literatura, quadrinhos americanos etc), tem uma cafeteria bem instagramável e a parte de mangás é simplesmente fenomenal. Na parede de uns cinco metros de altura, está disposta uma variedade incrível de mangás, e não só argentinos!

Por ser um país de língua espanhola, é muito fácil encontrar volumes de mangás da Espanha, é como em Portugal que durante muito tempo se importou mangás do Brasil por conta do idioma próximo. Inclusive foi graças a isso que comprei volumes de Mirmo Zibang, publicado na Espanha em 2007 (inclusive, os mangás estão num estado de conservação melhor do que muito título publicado aqui este ano, parabéns aos envolvidos).

Passado esse estado de encantamento, não posso deixar de observar como o mercado argentino é até bem parecido com o nosso. Não se trata de um entretenimento barato de adquirir, mas ainda é mais barato que os livros por lá (que são bem mais caros do que no Brasil). Os mangás passaram pelo mesmo processo de sair das bancas e irem para pontos de venda especializados, e com isso veio uma melhora real na qualidade (e não o que aconteceu com os tankos novos da Panini). Uma grande diferença é a variedade de títulos, algo que não vemos no nosso mercado especializado em “shonen de lutinha” e “seinen psicológico que na verdade é um shonen de lutinha com sangue“.

É um mercado com peculiaridades próprias que estão relacionadas à forma como o país vizinho trata a cultura da leitura. Considerando isso, é até inviável vir com alguma proposta de fazer as coisas de forma semelhante, mas fico com aquela invejinha de algumas coisas óbvias. Gostaria muito, por exemplo, que tivéssemos primeiros números de mangás facilmente adquiríveis, mas isso parece um sonho tão distante quanto esperarmos uma publicação de mais variedade por aqui.

14 comentários em “Argentina: uma viagem pelo mercado de mangás dos nossos vizinhos

  1. possui uma qualidade gráfica de uma NewPOP

    Coitados, então 90% das publicações da Ivréa também sofre com moiré?

    :(

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  2. Passei pela Argentina também em dezembro (antes da Mara) e lendo este post confesso que fiquei surpreso com algumas coisas que não tinha reparado. No entanto, posso confirmar que a grande parte do que ela diz é verdade. Um destaque que dou é que não achei nas minhas idas às (muitas) livrarias de Buenos Aires títulos que NÃO tinham no Brasil. Mesmo com o exemplo da Mara, acho bem difícil de achar.
    De qualquer maneira, aqui estão meus dois centavos de embasamento nesta postagem

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  3. Lá ao menos o departamento de marketing das editoras deve funcionar pra conseguirem publicar choro mangá. Porque aqui sempre foi um produto de nicho, quer queiram ou não. Mesmo lá e comum achar volumes importados segundo a matéria coisa que a Livraria Cultura fazia ou faz porque faz tempo que não piso numa uns 5 anos. E pelo que ouvi ta indo mal ou já deve ter falido.

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  4. Então um livro argentino é mais caro que sua contraparte brasileira? Estranho, dadas as tiragens e as vendas, até onde eu sei, maiores que as daqui em números absolutos (e ainda mais se pensarmos neles em relação à população).

    E agora um peso tá valendo DEZ pilas reais? Li que a inflação anda despontando por lá… Não sei se o hábito argentino de correr pro dólar ao menor boato de crise (ou de que a crise vai piorar) tem alguma contribuição pra esse aumento.

    Ah, Mara, já que lá se vende revista espanhola e argentina, seu husbando (uai, não era kareshi?) viu alguma grande diferença no texto do espanhol portenho pro espanhol espanhol (desculpem, não resisti!), como vemos do português brasileiro pro de Portugal? Algum(a) comentarista que já leu os dois sabe?

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  5. @Chefe O’Hara husbando aqui. Há diferenças sim, mas são mais sonoras na língua que escritas, de modo geral, a escrita espanhola é bem padronizada.

    O que se nota é diferença de expressões que são utilizadas as vezes, um termo mais comum em revistas ou quadrinhos Espanhóis, não necessariamente é utilizado na Argentina.

    Mas eles tem a vantagem de que como a grafia é igual, é bem intercambiável as edições. Espero ter ajudado ;D

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  6. Então Mara é fluente em casteliano?? Se a comparação for com a habilidade de luta do Deus Yamcha, é quase uma argentina essa Mara hahahaha

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  7. Olha ae!!! Lá na Argentina se n me engano tá numa crise tão lascada quanto a nossa, mas ainda se mantem a qualidade do negócio.
    Enquanto aqui além da qualidade questionável e trabalho de divulgação cagado, sou obrigado a ver editor da chilique no twitter e falar q a culpa é do leitor. Como dizem né: ISSO É BRASIL!!!!

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  8. Bacana.

    Mas comprou algum?
    Conversou com algum comprador? Imagino que eles não sejam retardados como os brasileiros nem fiquem culpando o Lula (pois é), pelo aumento de preço dos mangás.

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  9. Sr. Husbando: valeu pelas informações! Nós, por sinal, tamos precisando fazer como os argentinos e pegar umas publicações da “Pátria-irmã”, sobretudo aqueles álbuns de autores europeus que nunca dão as caras por aqui.

    Caeiou e Hagar: pelo que pude pegar do texto a Mara e o seu criador não têm nenhuma habilidade conversacional em castelhano. Só aquele basicão: “Puer favuer, un saco de pipueca y un cuepo de cueca-cuela”!

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  10. oi boa noite , então e vdd eu more em Argentina até os 19 anos e realmente era muito mais fácil conseguir edições completas ou as primeiras delas, mas também na época que comprava meus mangás, veia também que existiam muitas copias vagabundas de editoriais nacionais que queriam entrar no mercado , era muito engraçado ver a baixa qualidade do papel , dos desenhos e das historias; nada ver.
    Mas acho que o fator de ter mais vendas por lá e que realmente existe uma cultura um pouco mais conservadora com respeito ao uso do papel e cultura em si da leitura mais que de assistir em desenho animado.
    PD: desculpem meu português ainda to tentando aprender., se bem é parecido com espanhol…mas é bemmmm diferente.
    valeou pessoal !

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