Aleatoriedades

O que podemos aprender com o arco da eleição de Hunter x Hunter?

Se você está lendo esse post no present day, present time hahahahahaha, estamos em meio às eleições presidenciais de 2018. A cada debate, pesquisa e vídeo de presidente que aparece, menos a gente consegue prever o que pode acontecer com o Brasil nas próximas semanas. Isso aqui não é um blog político e não tenho qualquer intenção de me posicionar nessa disputa Bolsonaro nem fudendooooo, mas essa zona eleitoral me lembrou bastante do último arco do anime de Hunter x Hunter, também conhecido como o Arco da Eleição.

Yoshihiro Togashi é um mestre na arte de pegar qualquer coisa e transformar num shonen. As pessoas dizem que Hunter x Hunter é a desconstrução do shonen, mas eu diria que é a shonenficação de qualquer coisa. Ele pega, sei lá, um leilão, um jogo online e uma prova do MasterChef Brasil e consegue transformar tudo isso num autêntico shonen com treinamento e mind games. Isso também se aplica no arco da eleição, que vou explicar um pouco como funciona.

(preciso nem falar que tem spoilers, né?)

A função do Pariston na história

O arco da eleição é dividido em duas frentes distintas: de um lado temos Killua fazendo shonenzices para conseguir curar Gon (que praticamente vendeu a alma para o demônio e não aguentou pagar os juros) e do outro a gente acompanha a crise da Associação Hunter, que cuida dos Hunters no geral. Até então a gente conhecia apenas o presidente  Netero e achava que funcionava tudo como uma grande monarquia, porém descobrimos que a Associação Hunter é bem mais democrática do que parece.

Existe um conselho formado por 12 indivíduos que se veem na situação de usar cosplay de signos chineses, e todos eles são comandados pelo Neterão da massa. Esse grande apaziguador infelizmente se matou para deter Meruem no arco passado, então agora eles precisam resolver a cadeira vazia. É aí que conhecemos a figura do vice-presidente, representado por Pariston, uma figura pouco confiável e que já começa tentando dar um golpe para ficar com a presidência.

Um dos pontos mais interessantes que vejo na história é o questionamento de por que o Netero escolheu claramente uma pessoa com desvios éticos e morais como vice, e a resposta foi porque o presidente acha mais divertido ter alguém que discorde dele. Nas eleições brasileiras, tirando o caso da motosserra de ouro e do jumento de carga que quer dar rasteira no próprio cabeça de chapa, o que vemos são políticos se aliando a pessoas que concordam 100% com eles, excluindo qualquer possibilidade de um atrito ou um debate conciliatório.

Enfim, o golpe de Pariston é impedido pelo espírito da FESTA DA DEMOCRACIA, que decide realizar uma eleição.

A tal da eleição

O Togashi gosta muito de jogos, e olha que não estou falando das recorrentes piadas envolvendo Dragon Quest. Ele aprecia muito colocar regras e limitações em suas histórias como forma de dar um pouco mais de emoção na trama. Por isso, ele acabou colocando em Hunter x Hunter regras específicas para as eleições, afinal só espalhar urnas eletrônicas pelo continente não seria shonen o suficiente.

Mesmo com todo o clima de mangá, muitas coisas relacionadas a eleições reais acabam aparecendo no mangá. Noção de democracia, voto censitário (apenas Hunters podem votar para o presidente da Associação Hunter) e inclusive debates aparecem da forma mais shonen possível. Uma das regras da eleição Hunter é que todos os Hunters podem votar e ser candidatos, aproximando o resultado do que seria uma pesquisa espontânea. Ao colocar todos os hunters como possíveis presidentes, lembrei de um texto sobre como na Grécia Antiga existia a modalidade de escolher um representante na base do sorteio, embora nesse caso pareça mais um caso de que todos os competidores já cumprem os pré-requisitos de renda e habilidade.

Outra regra interessante da eleição é a obrigatoriedade de haver 95% dos votos válidos, senão a eleição vai continuando até chegar nesse nível. Por isso, mesmo que Pariston tivesse 249 votos contra 42 da Cheadle, ele não conseguiu pegar oficialmente a cadeira de presidente. E para alcançar a porcentagem exigida, eles se viram obrigados a tornar o voto obrigatório (imagino que os hunters não se sentissem muito motivados a votar diante daqueles candidatos).

A figura do azarão

O Brasil está com uma insatisfação política generalizada desde que aumentaram em 20 centavos o preço da passagem de ônibus, e a situação foi seguindo num jeito que o pessoal tem topando votar até em gestor que se autoproclama “não-político“. Esse tipo de insatisfação e descrença não existe apenas no nosso país, e apareceu também nas eleições de Hunter x Hunter. Durante um debate entre os candidatos, Leorio aparece do nada para perguntar para Ging sobre seu filho Gon. Como o nosso secundário favorito não curtiu a resposta do Ging, Leorio simplesmente meteu um soco na cara do folgado ali no meio do debate.

Essa reação intempestiva tirou a disputa do marasmo. Como qualquer hunter poderia ser votado na eleição, Leorio acabou ganhando muitos votos dos hunters presentes. Alguns pela galhofa, outros por terem a vontade de bater no Ging saciada, mas Leorio se tornou o azarão da eleição, um “meu nome é Eneas” que vira meme por ser completamente diferente do resto. Posso até imaginar que o voto em Leorio era uma forma de “protesto” por parte dos demais eleitores cansados dos hunters tradicionais na disputa, como Pariston e Cheadle. E sabemos muito bem que um voto de protesto ou zoeira pode eleger muito palhaço na política.

Leorio nem ao menos tenta fingir sua falta de capacidade em ser presidente. Ele declara no debate antes da eleição como não tem aptidão para o cargo, e que seu plano era apenas usar sua força para fazer o que desse para salvar o Gon. Infelizmente esse sincericídio aumentou as chances do candidato, porque os eleitores viram uma “honestidade” rara de se encontrar.

O voto útil

Nós como leitores de Hunter x Hunter temos certeza do caráter duvidoso de Pariston, mas naquela situação de eleição ele é líder absoluto nas pesquisas. Talvez por prometer ser um não-Netero, talvez porque a oposição está ocupada defendendo um grande número de candidatos como Miozaistom, Cheadle e o próprio Leorio. A eleição vai avançando até que chega num momento decisivo, com um número reduzido de candidatos. Como as chances de derrotar Pariston seguem baixas, os candidatos partem para o Voto Útil. O problema foi que ninguém combinou isso antes.

O Voto Útil é quando votamos em alguém com mais chance de tirar algum outro candidato, ou quando se convenciona votar no ponto de intersecção dos desejos de todo mundo. Só que ele costuma ser sugerido pelos eleitores, e não como rolou em Hunter x Hunter.

Durante o debate, o candidato Mizaistom pediu que seus eleitores votassem na Cheadle em vez dele. Por sua vez, Cheadle anunciou que estava apoiando Leorio. O hunter que sonha em ser médico até conseguiu ficar em primeiro lugar, com Pariston em segundo… mas lembra que falei sobre o Gon? Então, Leorio recebe uma ligação sobre seu amigo estar bem, aí abandona a disputa. Nem a Esquerda brasileira é tão bagunçada quanto essa galera.

O que aprendemos com isso?

O arco da eleição de Hunter x Hunter mostra apenas que certas coisas que falamos “nossa, isso é muito Brasil’ na verdade fazem parte da natureza do homem, se repetindo em diversas culturas e eras diferentes. Conseguir identificar figuras brasileiras nesse arco de Hunter x Hunter só mostra que tudo é bem previsível.

Sobre a pergunta do título da matéria, eu não sei o que podemos aprender com isso, apenas escrevi esse texto pois estava pensando nisso outro dia. Obrigada pela atenção e votem com consciência, prefira um político que planeja proteger as instituições democráticas, os direitos humanos, a diversidade e a paz.

20 comentários em “O que podemos aprender com o arco da eleição de Hunter x Hunter?

  1. Po gostei do post, realmente um otimo paralelo q vc fez e nem fica fazendo propaganda pra candidato e tal. Realmente ficou muito bom.
    Sobre HxH se a “desconstrução” do Shonen, galera exagera forte e pelo q ando vendo os fãs de HxH são meio fanáticos em uns pontos. HxH é uma otima história, mas n desconstrói nada ele na verdade reforça o clima shonenzão e tal.

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  2. Apesar de pensar em votar no Amoedo, essa sua ultima frase me pareceu um “NÃO VOTEM NO BONORO2018, PFV NUNCA TE PEDI NADA!!!”. Ainda mais com essa história de voto útil. Não faz sentido você falar: “Vote com consciência” logo após comentar sobre o voto útil e ‘dar um toque’ pra galera de esquerda.

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  3. Aliás, odeio esse pessoal (principalmente da TV, Radio e internet) que quer falar de política, fala em voto consciente, mas NUNCA dá uma declaração dizendo em quem vai votar. Ninguém vai ser crucifixado por suas escolhas. Se as pessoas debatessem mais abertamente sobre seus prováveis candidatos e pensamentos sem medo de ser escrachado as pessoas votariam muito mais conscientes do que agora.

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  4. Do texto do autor podemos ver um misto de terror e indecisão por conta do candidato mencionado na postagem com um risco, até por conta do meio e de seu circulo social claramente cercado por uma ideologia que se vê perdida. Afinal, praticamente toda a política foi feita em cima da esquerda em nosso país que se encontra num desgaste tremendo.

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  5. De onde é que tá brotando esse povo chato aqui no MDOM hein? Nem tinha isso uns tempos atrás.
    Enfim, o post foi bem legal mesmo pra mim que nunca leu HXH. A arte mal feita e os hiatos eternos me assustam. Quem sabe um dia.

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  6. RPM Souza, discordo de ti aí.

    Não falar sobre a escolha de um candidato na verdade até é uma pratica necessária, já que por lei o voto é secreto.

    A escolha deve ser individual, mas quando se critica uma posição política, é porque ela tem falhas.

    Na verdade, muitas pessoas são bem crucifixadas devido a suas escolhas políticas. E em tempos atuais de polarização, basta ver nos comentários o quanto os que apoiam o candidato que fala besteira e é preconceituoso, além de defender a ditadura; que estas pessoas que o apoiam ligaram o “phota-she”.

    Boa parte dos outros candidatos, tirando este defensor da ditadura, são recomendáveis. Até mesmo os que a galera chama de “representante do outro”. Qualquer um que compactue com a democracia, ou seja, com o direito do outro de participar politicamente, sempre será válido e positivo.

    Ignora-se muito o fato de que “direita e esquerda” são nuances políticas variáveis. Os que as pessoas chamam de “esquerda” na verdade teve atitudes de “centro esquerda”. E o cara que se diz “direita” tem atitudes próximas aos de ditadores (estatismo, controle militar, regulação maior e censura).

    Sugestão: acompanhem o twitter do Oito Mil pois a Mara fala um tequinho sobre suas posições lá, antes de defenderem alguém sem competência política para ser eleito.

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  7. Já que, inevitavelmente, por causa de um simples comentário da autora, começou aqui uma discussão política, seria bom lembrar que a lava jato provou que é mais fácil acreditar em discos voadores que em político honesto. O voto mais inteligente possível é votar em si mesmo. Você é quem decide como vai ser sua vida. Pois mesmo se Jesus Cristo se tornasse presidente do Brasil, se suas escolhas pessoais fossem uma merd@, sua vida seria uma merd@. E só pra constar, eu nunca votei (nem vou votar) em ninguém. Quem dirige minha vida sou eu. E seria muito bom se todos pensassem assim. E quanto à matéria, muito instrutiva. O autor de Hunter x Hunter é um mangaká incrível. Mesmo lutando contra uma doença terrível, ele continua firme e forte (além do miserável ser casado com ninguém mais que a autora de Sailor Moon…).

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  8. Nem um pouco duplamente intencionada essa matéria kkk, mas é exatamente isso, a galera esquece que antes do brasil ser feito de brasileiros ele é feito de humanos. O jogo Persona 5 mostrou exatamente isso com as tramoias de Masayoshi Shido para se tornar primeiro ministro e mesmo assim a comunidade gamer continua batendo palma para o discurso do bolsarminha.

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  9. Acho que política é bom pra todos, não gosto é de politicagem, e esse post teria sido otimo, mas parece que o pessoal desse site não consegue ser imparcial nem em comparações de animes nem em politica, man, vai la no YouTube procura “canal da ciência” ele fez um video sobre politica mesmo, sem se esconder atras de uma obra linda como hxh, tenta ser imparcial de verdade da proxima, sem essa onda se fantasiar de fã de anime so pra empurrar nos outros garganta a baixo a sua opinião de “voto consciente”.

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  10. Falou pouco, mas falou merda. Defende ai suas convicções, que eu defendo as minhas. Não preciso de nenhum hipócrita que se finja de imparcial.

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  11. Spoiler

    O Pariston (o cara almofadinha) ganha a eleição e renuncia logo em seguida ao cargo. Mas que filho da mãe.

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  12. Tinham várias opções de candidatos que não apoiam o bandido 9 dedos e escolhem logo o Haddad e Ciro pra segundo e terceiro colocado.

    Não adianta chorar depois que o Bolsonaro vencer.
    Achei que a Dilma quase ter quebrado a economia do país era a dica que desenvolventismo é péssimo, mas parece que precisa o país quebrar mais algumas vezes pra perceberem.

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  13. “além do miserável ser casado com ninguém mais que a autora de Sailor Moon…”

    Também conhecida no Mais de Oito Mil pelo apelido carinhoso de “Vagina Demoníaca”, vale lembrar.

    Curtido por 1 pessoa

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