MdOM Repórter

Como as lojas especializadas em mangás sobrevivem à Amazon?

O Brasil passa por muitos problemas relacionados aos quadrinhos japoneses, e olha que nem estou falando de editorazinha que coloca -chan e -kun e depois reclama que o mercado é pequeno e nichado. Um dos grandes problemas mesmo é a DISTRIBUIÇÃO de revistas no Brasil. Num passado não tão distante assim a NewPOP editora rompeu o namoro com a distribuição em bancas e passou a oferecer seus títulos de outras formas. Algum tempo depois isso também afetou a Panini, que passou a bancar a própria distribuição de quadrinhos. Atualmente, mesmo a JBC já declarou estar sofrendo no envio de seus mangazinhos pras bancas.

Você já deve ter lido esse chavão em muitas matérias e livros de geografia, mas o Brasil é um país de proporções continentais. Distribuir revistas por todo o território nacional é um exercício que demanda mais esforço que acompanhar o mangá de Bleach até o final. Além de ser um país com transporte caro feito na base de caminhões, a distribuição de revistas no país é feita por um pequeno monopólio que dita os preços e decide quando quer pagar as editoras. Assim não tem venda de mangá que cubra prejuízo.

Se os mangás não estão chegando às bancas, onde os otakus podem comprar seus títulos? Além de livrarias prestes a falir e alguns serviços de assinatura não tão eficientes assim (COFCOFpaniniCOFCOF), uma saída para o mangá chegar em todos os cantos do país é através das lojas especializadas online, que nada mais são do que lojas… especializadas… que trabalham via internet. Pouco faladas, mas muito importantes, esses pequenos vendedores foram se especializando e enfrentam seus próprios desafios na tarefa de distribuir a palavra dos descendentes espirituais de Osamu Tezuka.

Nas últimas semanas conversei com donos de algumas lojas especializadas online para entender direito o que pensam, do que se alimentam e se em alguma hora eles pensaram em tacar fogo nos tanko tudo diante das dificuldades. E o resultado dessas conversas você verá agora no Mais de Oito Mil.

Vendendo mangázinho pela internet

Temos muito contato com os produtores de mangás (no caso as editoras) e com quem consome o produto, mas pouco ouvimos falar sobre as pessoas que fazem o meio de campo. Hoje em dia há uma dificuldade imensa conseguir volumes de mangás se você mora longe dos grandes centros urbanos. Nesses locais as bancas são escassas e muitas vezes os quadrinhos chegam em poucas quantidades, isso quando não aparece com a qualidade debilitada por rasgos e amassados. Assim, uma parte crescente dos leitores de mangás fora das capitais vem aderindo à venda online de quadrinhos japoneses.

Não existe uma única unanimidade de pensamento, cada loja tem suas próprias especificidades e pontos divergentes. Ao mesmo tempo que conversei com lojista vendo as coisas pelo lado bom, rolou também quem enxergasse o copo meio vazio. É interessante notar que muitos começam um negócio não pelo dinheiro, mas sim porque gostam de mangás. “A minha primeira motivação foi poder completar a coleção de várias pessoas com os volumes de mangás que faltavam em suas coleções ❤“, esclareceu Amanda Leal, a dona (e colecionadora de mangás nas horas vagas) da loja Amora Book Store, com sede na cidade de Joinville lá no Sul do Brasil.

Vale comentar que, por razões econômicas, as editoras por muito tempo aderiram a lançamentos divididos em fases, com a fase 1 indo apenas para sudeste e algumas capitais. Já a fase 2 desse processo, ocorrendo meses depois do recolhimento dos mangás das bancas, é quando o mangá é enviado para todo o Brasil. Esse tipo de distribuição segmentada tem acabado, mas isso não faz com que os títulos cheguem simultaneamente em todo o país. Joinville está fora da chamada FASE 1 da distribuição de mangás em bancas, mas isso não significa que a Amora Book Store atende apenas sua própria região. “Atendemos muitos clientes da cidade e região pessoalmente, porém o maior público da loja é de fora”, explicou.

O colecionismo de mangá também foi o que motivou a Snow, da loja Cantinho da Snow. “Minha maior motivação veio da possibilidade de levar a satisfação aos colecionadores”, elucidou a dona da loja localizada no Rio de Janeiro. Já Henrique Lanute, o dono da loja Capitão Onigiri (e indicado váriasss vezes ao concurso de otaku mais belo aqui mesmo no Mais de Oito Mil), teve um impulso mais realista ao criar sua loja: ele atribuiu o surgimento da Capitão Onigiri à dificuldade de encontrar emprego na área em que formei e às frustrações com a rotina de assalariado. Quando Kami-Sama lhe fecha uma porta, ele pode abrir uma janela: “Decidi tentar por mim mesmo pois vi que lojas especializadas em mangás eram poucas”, expôs o dono da loja de São Paulo.

Trabalhar com o que gosta

Há um ditado muito espalhado nas redes sociais que é “trabalhe com o que gosta e não precisará trabalhar um único dia de sua vida”. Sinto muito ser aquela pessoa que coloca a colher lambida na jarra de suco, mas isso não existe. E trabalhar com mangá também tem suas dificuldades.

“Confesso que minou um pouco a minha paixão por mangás”, explicou o Capitão Onigiri, que prosseguiu: “já foi assunto de terapia, as leituras que fazia pro canal acabaram se transformando em obrigação”. O jovem empreendedor contou que boa parte de sua crise com leitura de mangás também foi seu próprio gosto se transformando, pois ele passou a ler outros tipos de quadrinhos (que ele não vende na própria loja). “Mas pra quem tem interesse de trabalhar com um hobby, saiba separar o momento de trabalho e o momento de usufruir do hobby como um lazer“, disse Capitão Onigiri sobre o assunto.

Essa etapa de não misturar o prazer com os negócios parece uma unanimidade entre os lojistas especializados, pois tanto a dona do Cantinho da Snow quanto a da Amora Book Store também comentaram sobre o tempo que pega de folga para seus hobbies (só que no caso delas, o hobby ainda é o mangázin).

O período de folga é necessário, pois muitas dificuldades circulam o pequeno lojista de mangás na internet. Uma série de dificuldades impedem o avanço desse tipo de serviço, e o pessoal vai tentando se virar como dá. Amanda Leal, da Amora Book Store, comenta a expansão das Megastores e a dependência dos Correios. Já o Henrique faz uma lista bem grande de dificuldades que jogam contra o lojista: os produtos que evaporam poucos meses depois do lançamento, a distribuição que deixa as lojas especializadas em segundo plano e a tributação.

A gigante Amazon

Seria impossível realizar uma conversa com lojistas de mangás sem perguntar do Freeza dos conglomerados editoriais. A Amazon chegou ao Brasil em 2014 prometendo preços convidativos e entregas rápidas. As demais lojas nacionais tentaram ao máximo competir, mas a loja gringa usou o truque do “dinheiro infinito” para bancar descontos REALMENTE convidativos.

Hoje em dia nenhuma livraria parece conseguir disputar com a Amazon, tanto nos preços quanto na preferência dos otakus em grupos de mangás nas redes sociais. É só sair a notícia do preço de um mangá que logo pulam várias mensagens falando “vou pegar com desconto na Amazon”. Os efeitos de um possível monopólio da Amazon só serão percebidos a médio prazo, mas aos poucos vamos vendo uma diminuição nos descontos aplicados na megastore.

É difícil ganhar dos preços de uma mega livraria (…). Claro que eu gostaria de dar 20% de desconto nos lançamentos para os meus clientes + frete grátis, mas isso está muito longe da realidade de qualquer loja pequena/média.“, ilustrou Henrique, da loja Capitão Onigiri. O lojista ainda relata não ter muito o que fazer diante de uma concorrência desleal, então só resta contar com a fidelização dos clientes.

As outras lojas procuradas pelo site também tinham posições parecidas, e todo mundo parece contar como diferencial a personalização do serviço. “Priorizamos o atendimento com excelência, e podemos dar atenção a cada pedido que sai da nossa loja com dedicação e comprometimento”, revela a dona do Cantinho da Snow. Já a Amanda da Amora Book Store revela que a chave para disputar um lugarzinho ao sol é procurar por diferenciais competitivos na gestão do negócio.

Um dos diferenciais é a venda de produtos mais antigos e usados. Enquanto as editoras e grandes lojas focam apenas no volume atual, todos se esquecem que os novos leitores precisam encontrar os volumes antigos da coleção. “A loja Onigiri vem focando na venda de produtos usados, coleções fechadas, raridades, acessórios e produtos exclusivos que as lojas citadas não exploram”, revelou Henrique. 

É possível ajudar as lojas especializadas? Sim!

Se você chegou a essa parte do texto, provavelmente deve pensar que vou escrever “gente, comprem das lojas especializadas mesmo que seja mais caro que na Amazon“, mas na verdade defendo que o consumidor sempre compre em quem oferecer mais vantagens. Só não é muito justo que algumas lojas tenham possibilidades próprias de bancar descontos quase obscenos enquanto outras não. Isso é um assunto complicado, mas de qualquer forma os lojistas têm coisas simples para pleitear.

Amanda, da Amora Book Store, demonstrou uma medida que poderia ajudar na competição com as gigantes: “a limitação de desconto que o lojista compra da editora para revender. Por exemplo, hoje a editora X oferece ao lojista menor 40% de desconto em um certo mangá. Porém, para a Megastore oferece 60% a 70%. É difícil competir com isto, mesmo sabendo que estas empresas possuem um capital mil vezes elevado”.

Os tão falados brindes também ajudam e muito esses vendedores. Henrique, da Capitão Onigiri, deu o exemplo dos brindes exclusivos feitos pela JBC para Fullmetal Alchemist e My Hero Academia. Só por causa das sobrecapas mandadas para as lojas especializadas as vendas foram estrondosas. Além disso, o lojista chegou a pensar se não seria viável a reimpressão de volumes esgotados só para as lojas especializadas, pois isso impede que novas pessoas comecem a colecionar os títulos e, consequentemente, comprar os volumes atuais.

Sugestões à parte, a situação das lojas especializadas continua complicada. Entretanto, elas têm um papel importante no meio de campo entre a editora e o público, mas não parecem ter o devido respeito pelas duas pontas. “Para as lojas menores conseguirem ter mais espaço uma lista enorme de fatores precisa mudar, e vão além das responsabilidades das editoras“, finalizou o dono da Capitão Onigiri.

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Se quiser conhecer as lojas, e ver seus serviços, clique nos links abaixo:

Amora Book Store

Cantinho da Snow

Capitão Onigiri

16 comentários em “Como as lojas especializadas em mangás sobrevivem à Amazon?

  1. Não apenas problemas de transporte, mas também tem outra coisa: brasileiro ODEIA ler. E estou falando de gente que tem acesso a informação, internet e boa educação formal desde que nasceu, tá?

    Não que nos outros países todo mundo seja um poço de cultura, mas a proporção de leitores é maior. Tenho pena de quem fica impressionado com a população grande do Brasil e pensa que vai ganhar zilhões publicando seu livro/quadrinhos/mangá por aqui. Mauricio de Sousa teve sorte porque na época dele não tinha muitas opções melhores de entretenimento, mas até ele já está investindo mais em desenho animado do que em gibi.

    Curtido por 3 pessoas

  2. Adorei essas lojas, me cadastrei em todas e botei nos favoritos :)

    Bem que eu gostaria de comprar na amazon também, mas eu não tenho cartão então né. Que baita preconceito com quem paga por boleto kkkkkkkkkk

    Vou comprar das lojas especializadas sim, mas é uma pena que o estoque deles seja menor do que os da amazon :/

    Curtido por 1 pessoa

  3. Sou cliente fiel da Amora Book Store desde que meus mangás começaram a sumir das bancas e tem sido uma mão na roda desde então ♥
    Facilita muito poder pagar por depósito já que cartão de crédito é um luxo que eu não posso me dar :’D

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  4. “Freeza dos conglomerados editoriais” acho que foi a melhor definição da Amazon até agora.
    Excelente matéria por sinal parabéns

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  5. Outro motivo pra comprar das lojas especializadas são os saquinhos plásticos, feitos especialmente pra qualquer uma das edições de mangás que lancem por aqui.

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  6. Eu compro com o Daniel do RJ, desde os problemas que tive na banca da minha cidade, o atendimento oferecido por vendedores especializados é outro nível. A única coisa que pesa pra mim é só o frete que os correios cobram que beiram a imoralidade.

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  7. Excelente post, e chagando bem numa hora em que estava começando a ficar preocupado com a distribuição aqui onde moro.

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  8. Excelente matéria, Mara!
    Eu particularmente descobri uma lojinha online de Franca que vende mangá (AlfaTech informática) que me atende bem nos quesitos de encontrar coisa mais antiga a preços normais (geralmente é o preço de capa com um desconto). Só lá mesmo para poder achar volumes passados de Arakawa!

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  9. perdão mas eu sempre acabo comprando da amazon.

    nem os descontos da saraiva online conseguem competir com ela.

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  10. Aki onde moro (no fim do mundo talvez…) acabaram com frete gratis para nordeste e o frete dos correios aumentou descaradamente…..

    P.S. Agora é continuar a ler scans.

    SALVE SCANLATORS!

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  11. Matéria muito boa! Como você vai notar pela minha sugestão a seguir eu não entendo nada da distribuição de das editoras, mas porque elas não se juntam todas e fazem o próprio serviço de distribuição? Espero que não seja uma dúvida muito idiota

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  12. Li tardiamente, que lamentável da minha parte.

    EXCELENTE matéria, Mara, realmente é mais uma daquelas suas que faz a gente entender melhor a dinâmica do mercado da qual somos mais um elo do processo. Muitíssimo interessante o material, já estou recomendando para meus amigos a leitura.

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