MdOM Repórter

Continuamos sem entender o mercado mexicano de mangás

Após anos de exposição às insalubres palestras de editores de mangás do Brasil, posso falar que de alguma forma consigo compreender um pouco o mercado nacional de quadrinhos japonês aqui no Brasil, pelo menos uma pequena noção. Entendo os problemas de distribuição, o medo das editoras de lançar títulos longos e até tento compreender por que a Panini coloca honorífico nas traduções. Mas, mesmo com toda essa bagagem, me considero completamente incapaz de compreender o que está rolando no mercado de mangás mexicano.

O nascimento do mercado de mangás lá no México é um pouco como o livro de Gênesis: num dia havia nada e no outro Eva lendo 30 títulos enquanto comia uma maçã com a serpente falante. Os mangás tiveram uma pequena introdução cerca de 20 anos atrás através da editora Vid & Toukan, muito antes de qualquer modinha como Naruto dar as caras, mas aí eles desapareceram tal qual a vontade do Studio Pierrot de avançar a história do ninja loiro sem produzir fillers. O México ficou anos sem qualquer mangá na banca, até que veio o anjo salvador.

Foto de Raúl Martínez da Forbes México que roubei da matéria deles

Décadas depois, a Panini surgiu e atualmente inunda o mercado mexicano com um catálogo de mais de 80 títulos, um número que o próprio Brasil levou MUITO anos para alcançar. Por muito tempo eu achei que isso era apenas um monopólio básico da rainha das figurinhas, que tomou o mercado mexicano de um jeito tão grande para impossibilitar outras editoras… mas aparentemente não é isso que está acontecendo. Mesmo tendo outras editoras menores no mercado, a quantidade de títulos é próxima ao nível de chorume nas redes sociais: enorme!

Recentemente você deve ter visto em algum Biblioteca Brasileira de Mangás da vida que a editora SMASH (um braço da emissora Televisa, aquela mesma do Chaves e da Paola Bracho) anunciou a publicação de Battle Angel Alita no México. Em vez de fazer como a JBC no Brasil, que compilou tudo em 4 volumes da fase original para ter uma certeza maior de vendas, a SMASH vai publicar os 9 volumes da história original, os 15 da continuação Last Order e os 4 de Mars Chronicles, a continuação da continuação! E quer mais um dado assustador? Será um lançamento QUINZENAL. Nem se Beth Kodama, a editora da Panini Brasil, fosse subornada com uma conta vitalícia na Steam teríamos alguém que arriscaria uma periodicidade assim no Brasil. Sem contar que a mesma SMASH vai publicar GTO (aquele mangá que foi um parto para sair aqui) também quinzenalmente!

Qual será o truque do México? Difícil dizer. Os mangás da Panini, por exemplo, são feito de maneira terceirizada: todos os mangás do México são produzidos pela sobrecarregada equipe brasileira da Panini, e o país não enfrenta os problemas de distribuição que vemos no Brasil (e eles também não têm um território continental). E nem podemos falar que se trata de salários melhores e tal, porque o México tem um dos menores pagamentos do continente, cerca de 16 reais por dia.

Na busca de uma explicação, também encontrei apenas informações que não me explicam nada. Segundo uma pesquisa publicada na Forbes latina, os moradores de lá gastam cerca de 65 a 100 pesos por mês em revistas. O problema é que um mangá custa 85 pesos! Já a diretora da Panini dá um dado ainda mais confuso: eles estimam que cada otaku mexicano compra cerca de TRÊS títulos por mês.

Como eles fazem então para vender DEZENAS de títulos mensais? Como um país com sérios problemas socioeconômicos consegue sustentar um mercado com tanta variedade de revista? Segue sendo um mistério.

15 comentários em “Continuamos sem entender o mercado mexicano de mangás

  1. Sugiro pesquisar sobre a classe média mexicana que aumentou bastante e se estabilizou com a quantidade de indústrias que pularam a fronteira. Classe média estável gasta muito mais com entretenimento, para você ter uma ideia, a quantidade de salas de cinema duplicou em 10 anos. Por outro lado, no Brasil estamos em crise, com classe média segurando seus gastos. Eles estão numa época ótima para qualquer tipo de entretenimento, viagens a lazer e coisas do tipo, até a imigração ilegal mexicana diminuiu de tão bem que o país anda.

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  2. “Los consumidores mexicanos destinan entre 51 y 100 pesos a su gasto mensual para comprar revistas, de acuerdo con el Estudio Anual de Revistas 2017 del Departamento de Investigación de Merca 2.0. La directiva de Panini destaca que sus lectores, en promedio, compran cada mes tres ejemplares, con un valor individual de 85 pesos. Es decir, 255 pesos.”

    Ué Mara, isso é simples de explicar: na média, o mexicano gasta por mês, 51 a 100 pesos por revistas. Os leitores da Panini gastam, em média, 255 pesos. O que quer dizer que o consumidor da Panini México é um outlier que puxa a média pra cima, e se contrapõe à maioria da população que não compra revistas. É que nem falar que o salário médio entre eu, você e o Neymar é na casa dos milhões de reais mensais.

    Continuo concordando que o mercado de mangás lá é muito louco, já que o otaku médio mexicano gasta o equivalente a 10% de um salário mínimo por mês e sai só com três mangás (no Brasil cada mangá teria que custar 30 reais para chegar a isso)…

    Curtido por 5 pessoas

  3. Roses resumiu bem o motivo. Só porque o Brasil tá andando pra trás não quer dizer que o resto do mundo esteja.

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  4. Será que o mercado mexicano não está exportando para outros países de língua hispânica? Sei que os outros países não são os mais ricos do mundo, mas é de grão em grão que a galinha enche o papo. No Reino Unido, por exemplo, eles não tem uma editora pra eles de mangá, eles compram os dos EUA, assim como o Canadá. Acho que o mercado latino americano talvez esteja alimentando o mexicano.

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  5. Pela conversão do Google, os mangás deles estão num preço equiparado ao médio cobrado pela Panini (80 pesos tá 15 reais), então eu realmente fico abismado com dois volumes por mês!

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  6. “Mas só porquê o Brasil tá andando pra trás não quer dizer que os outros estejam”
    “O México ganhou uma classe média estabilizada devido aos Nafta e os acordos de livre-comércio”
    (Fonte: Comentários desse post)
    Err…
    https://www.terra.com.br/noticias/mundo/america-latina/pobreza-avanca-no-mexico-e-atinge-agora-462-da-populacao,0b0ce9060acd301befd2079fe457a1592hthRCRD.html
    http://brasil.agenciapulsar.org/dd-hh/apos-crise-de-2008-mexico-empurra-25-milhoes-de-pessoas-para-a-pobreza/
    https://brasil.elpais.com/brasil/2017/02/25/internacional/1487981840_513699.html
    http://br.rfi.fr/americas/20150723-mexico-ganhou-dois-milhoes-de-pobres-em-apenas-dois-anos

    A minha teoria é a de que essas editoras já chegaram direto apostando em obras de luxo, ou pelo menos com melhor acabamento.
    Se não for isso, então, realmente, o mercado mexicano de mangás é completamente louco, e, portanto, instável

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