Animes

Darling in the Franxx é o “O Outro Lado do Paraíso” dos animes

A cada temporada, os otakus que têm fetiche por rótulo tentam buscar qual vai ser o novo Evangelion. Assim como o Norvana, o anime que uniu todas as tribos ainda é referência e as pessoas aguardam a chegada de algo parecido mais do que uma segunda vinda de Jesus Cristo. Darling in the Franxx é o anime atual do estúdio Trigger (de Kill La Kill e Little Witch Academia) e as pessoas estão pirando nele, a ponto do Crunchyroll (o serviço que exibe esse negócio por aqui) ter publicado um editorial para o pessoal não ficar puto com uma personagem após o episódio 13. Mas será que esse é o novo Evangelion? Sinto informar, mas ele está mais perto da novela O Outro Lado do Paraíso.

Mesmo você que está fechado na sua timeline repleta de pessoas com avatar de anime deve saber que o atual dorama das nove da Globo Terebi é o sucesso O Outro Lado do Paraíso, uma trama levemente inspirada em O Conde de Monte Cristo. Mas embora a trama esteja fazendo um sucesso ABSURDO (numericamente ela tem mais público que o dorama “Avenida Brasil”), essa se trata de uma das piores produções audiovisuais brasileiras, e olha que estou contando com a novela misturando uma robô japonesa careca com dinossauros. Ninguém entende o motivo do sucesso, apenas aceita que ele existe sem qualquer explicação.

Mas vamos voltar para Darling in the Fraxx. O anime conta a história de uma galerinha pré adolescente que é incumbida da missão de proteger o futuro pós-apocalíptico de uns monstros chamados urrosauros. Nesse mundo, os robôs gigantes só podem ser pilotados por um casal de jovens, sendo que a mulher fica de quatro (!) enquanto o rapaz fica encaixado atrás dela (!!), comandando o mecha através de um dispositivo acoplado na bunda de sua parceira (!!!!!!). Um desses jovens é Hiro, um rapaz que não consegue pilotar os robôs gigantes por não ter compatibilidade com nenhuma garota, até que aparece a satânica Zero Two com quem ele tem uma sincronia absurdamente poderosa.

Darling in the Franxx é aquele anime que tem a vontade de contar uma grande alegoria sobre relacionamentos. Logo no primeiro episódio ouvimos um discursinho pseudo-filosófico sobre uma espécie de pássaro que tem apenas uma asa, e que para voar precisa se unir a alguém do sexo oposto, e durante toda série os papos sobre compatibilidade entre pilotos ou seus relacionamentos mais parecem conversas sobre namoros ou casamentos. Alguns dão certo, outro não, alguns acabam depois de um tempo e por aí vai.

O anime quer muito convencer o público de que tem uma história muito séria por trás de tudo. Longas cenas de personagens olhando o horizonte e filosofando estão presentes no roteiro, com direito até a uma narrativa mais cinematográfica que enfia borda preta nas bordas da tela para ficar ainda mais parecido com filme francês depressivo. O problema é que tudo isso é jogado no lixo pelos personagens estereotipados e pelo fan-service exagerado. E é aí que começam as semelhanças com O Outro Lado do Paraíso.

A novela tem um filtro bacana, umas imagens bonitas, mas a direção não casa com o texto medíocre e as resoluções absurdas. Os personagens têm um jeito grosseiro de falar que pode ser interpretado tanto como “representação do estado animalizado do homem” quanto “o autor escreve como em peça infantil da quinta-série”, isso sem contar as pessoas que são apenas uma grande esteriotipação sem qualquer personalidade. Darling in the Franxx sofre do mesmo problema: por mais que a produção e direção queira fazer algo profundo, o roteiro se perde com diálogos péssimos e personagens sem qualquer profundidade. Olhando assim, o Futoshi (o gordo cuja personalidade é apenas ser gordo e só fala de comida) não é muito diferente do cabeleireiro Marcel cuja personalidade é ser apenas um homossexual afetado que repete o bordão “Marcel que caiu do céu” como se isso significasse alguma coisa.

As duas produções também apostam em anti-heroínas sem qualquer profundidade. Zero Two apenas cumpre o papel de personagem-safadíssima-que-tem-um-grande-segredo-que-ao-ser-revelado-não-é-tão-interessante, assim como Clara se trata apenas da vingativa que tem uma imagem cool para o público, mas que no fundo é apenas uma pobre imbecil incapaz de criar um plano crível para se vingar de seus algozes. Por algum motivo esses personagens mais “edgy” estão na moda e dão um toque de modernidade na trama, mesmo que as personagens sejam bem pouco inventivas. Tanto a novela quanto o anime tentam fisgar o público com reviravoltas cafonas que são vendidas como grandes viradas da história, dignas de um Game of Thrones.

Na minha tentativa de assistir à Darling in the Franxx me deparei com inúmeras cenas que os personagens falavam uma coisa um pouco mais profunda (com a borda widescreen), mas aí todo o clima era cortado por um close generoso na raba de uma das jovens. Mesmo a alegoria interessante sobre relacionamentos perde um pouco o sentido quando vemos o manche dos mechas se desacoplando da bunda das mulheres (enquanto elas gemem, claro). E eles nem se esforçaram para transformar tudo apenas numa interpretação de sexo, partiram mesmo para a visão mais barata da coisa ao colocar a piloto mulher de quatro na frente do rapaz mesmo.

Minha ideia era assistir Darling in the Franxx até o episódio 13 pelo menos, mas parei no meio do caminho. Tenho dificuldade para entender como algo tão medíocre conquistou tanta gente, mas aí eu lembro de O Outro Lado do Paraíso e a coisa fica mais clara. A novela é igualmente péssima, mas de alguma forma conseguiu atrair o público. Vai ver é um daqueles casos de série feita na hora certa para o que o público daquele momento gostaria de ver. Longe de mim falar que eu sou a superior e só assisto a coisas requintadas e profundas, muito pelo contrário, sou muito mais admiradora da farofa que do escargot, só acho que existem outros programas que não menosprezam a inteligência do público. Dá para fazer algo simples e bom sem apelar.

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21 comentários em “Darling in the Franxx é o “O Outro Lado do Paraíso” dos animes

  1. Essa análise me fez parecer que o anime é mais divertido do que dizem, talvez por isso o sucesso.

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  2. > Zero Two é apenas cumpre o papel de personagem-safadíssima-que-tem-um-grande-segredo-que-ao-ser-revelado-não-é-tão-interessante

    > Minha ideia era assistir Darling in the Franxx até o episódio 13 pelo menos, mas parei no meio do caminho.

    Dúvida honesta, o passado da Zero Two não foi revelado só lá pelos episódios 10+?

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  3. Por isso eu não assisto essa novela. O Conde Monte Cristo tem um filme que resume essa pataquada toda em 2 horas.

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  4. Esse anime é o supra-sumo da otakice, uma porcaria colossal que é ”vendida” pelos fãs como algo revolucionário e profundo, mas é tão profundo quanto um pires quebrado. Que bom que não é só no Brasil que o povo gosta de assistir porcarias.

    Curtido por 2 pessoas

  5. Falou tudo, mesmo que eu não goste de julgar um anime antes do finale, esse anime começou péssimo, e continua péssimo…
    Só criou esse status de fama pois é da mesma equipe de produção do Gurren-Lagann e Kill la Kill; só que Gurren e Kill tinham protagonistas muito bons e o desenvolvimento dos enredos eram bons e esse Franxx não.
    Esse Franxx mais parece propaganda para aumentar a taxa de natalidade dos otakus, fazendo os otakus verem como é importante ter um parceiro; que todos sabem que os parceiros não serão perfeitos, mas terão coisas boas para compartilhar. Como eu sou do movimento anti-romance e anti-moe já dropei esse e 75% animes da temporada.

    Queremos mais estratégia, mais ação e mais aventura! Ou seja, queremos mais raiz, e menos nutella!

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  6. “O anime quer muito convencer o público de que tem uma história muito séria por trás de tudo.” Resumo da ópe… novela. Fui dar uma chance nisso e não desceu, parei no segundo mesmo. O problema é que quem assiste isso, se projeta no protagonista, leva as ações do anime como se tivesse acontecido com eles, ficando verdadeiramente putos com os acontecimentos. Comparando com Black Clover (que foi outra coisa que não gostei), BC deixa bem claro que é uma receita de bolo, um shonen bem genérico, apesar de eu ter achado bem mal executado, ele não tenta fazer uma propaganda falsa, é um shonen de lutinha com protagonista que tem alguma desvantagem, assiste quem quer. Agora Darling in the Franx tenta ser filosófico, colocar simbolismo sem necessidade, querendo criar trocentas coisas pra no final tudo se resumir em Chiquititas Shippuden.

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  7. Tem um outro anime modinha do momento que o Kitsune tirou sarro lá que parece ser maior novelão também

    Não lembro o nome

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  8. LIXO, mas a novela ainda é melhor que esse anime pois pelo menos a parte da kapopera traumatizada lá foi realmente legal e até um pouco impactante -apesar de no meio do caminho começar umas palhaçadas mesmo nesta subtrama-. Ou seja, The Other Side of Paradise ao menos tem um trechinho que valia a pena as cenas gravadas. Este anime não é 95% ruim, é 100% mesmo pois não tem absolutamente nada que salve. Conceito morre quando sai do papel.

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  9. Rapaz, vocês têm certeza de que esse desenho não foi escrito pra tirar onda, não? Um negócio em que uma garota de quatro serve de suporte para manche de pilotagem é ridículo demais pra ser levado a sério. Ainda mais em cenas pseudoprofundas que contam com “moldura” clichê.

    Tem um caso mais ou menos semelhante nos quadrinhos norte-americanos envolvendo “Batman: o Cavaleiro das Trevas” (1986), de Frank Miller. A história é aclamada no mundo inteiro e redefiniu o modo como se escreve o Morcegão (e muitos outros heróis, abrindo caminho pro movimento “Grim and Gritty”, aquele dos anti-heróis sinistrões e violentos de roupas escuras, dentes rangendo e moral duvidosa). Mas uma corrente afirma que o cara não pode ter escrito aquilo a sério: a ultraviolência é tão “ultra” que chega a ser caricata, e os monólogos do Batman parecem ser escritos por alguém que viu muito filme de detetive “noir”.

    (Miller, uns quinze anos depois, disse em uma entrevista que realmente redigiu a história num tom de sátira, mas isso pode muito bem ser alguém desdenhando hoje de algo que na época escreveu achando o máximo…)

    Curtido por 2 pessoas

  10. Agora, pensando melhor, se fosse pra fazer uma analogia sobre sexo E ser levado a sério em algum grau, talvez fosse melhor, digamos, colocar os dois pilotos flutuando na cabine (pode ser câmara antigravidade portátil, contêiner de líquido LCL, sei lá) de costas um pro outro, com um em cima, outro embaixo e os dois se alternando nas posições no decorrer da luta, podendo até ficar “de ladinho”. Melhor que essa coisa ridícula que ilustra esta resenha.

    Curtido por 1 pessoa

  11. Resenha ovoexcelente! É por esse tipo de conteúdo que sempre acesso mensalmente o blog.

    Minha dúvida sobre Darlinn In the Franxx:
    é uma péssima ficção científica com ecchi ou um excelente ecchi com ficção científica?

    Porque também não curto ecchi, mas os pontos destacados na resenha são justamente as característica básicas do gênero, então a análise fica comprometida. Mas ri demais, então já valeu.

    Curtido por 1 pessoa

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