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Promessas descumpridas e mangás a 3 reais: as palestras de editoras de 15 anos atrás

Daqui algumas semanas, eu e meu lindo estagiário estaremos acampados nas cadeiras de plástico da parte de palestras do Anime Friends para cobrir o que as editoras estão preparando pra gente. O aumento de procura sobre esse tipo de atração até engana a gente e parece que esse rolê de palestra de editoras e mesa-redonda foi algo inventado há pouco tempo, mas não. Há décadas os representantes de editoras já sentavam em fileirinha e aturavam perguntas de gente que acreditava em boatos e pedia título impossível. Por sorte graças à tecnologia eu posso falar um pouco sobre as palestras de 15 anos atrás.

Não, não estou viajando no tempo e nem usando apetrechos para recuperar minha memória do Animecon 2002, já danificada pelo uso excessivo de álcool. Acontece que, naquele evento, alguém teve uma ideia para arrancar dinheiro de otakus: “e se a gente contratasse uma equipe de filmagem de festa de aniversário pra gravar o evento e a gente vender a fita depois a 15 reais?“. Dito e feito, existem muitos registros em vídeos do Animecon 2002 que vocês podem ver graças a uma alma caridosa que upou no YouTube. Meu foco, entretanto, são as palestras editoriais com pessoas que participam desses eventos ATÉ HOJE.

Olha a falta que uma qualidade HD não faz hoje em dia. A imagem acima é da palestra da JBC que rolou no Animecon 2002, comandada basicamente pela dupla Júlio Moreno e Marcelo Del Greco no auge de sua juventude. Muito antes dos bordões “bacanudos” e da tentativa de nos fazer engolir a cantora Tsubasa, a editora já apresentava lançamentos em sua tradicional conversa com os leitores num auditório lotado de gente tão empolgada quanto as senhoras do Programa Silvio Santos.

Naquele ano, a JBC comemorava a repercussão de Love Hina e lançava no evento com muita expectativa o mangá Inuyasha (que, assim como hoje em dia, muita gente que não fazia ideia do que era estava ansiosa pra comprar). Contaram que estavam ajudando o estúdio Parisi Video na padronização da dublagem de Inuyasha e ainda contaram um anúncio: o primeiro título de Osamu Tezuka no Brasil, A Princesa e o Cavaleiro. Mas o público mesmo foi à loucura quando Del Greco anunciou que Inuyasha, que custava 3,50, estaria por apenas 3 reais no evento. Na hora, pessoas se levantaram e correram para o estande da JBC (para desespero do editor, que ainda tinha coisa para falar). Aliás, antes que você também venha falar que tempo bom era aquele, vale ler o post do Mais de Oito Mil analisando o preço dos mangás antigos aqui.

Um destaque que merece ser comentado é o cantinho das perguntas do público, porque um otaku perguntou se eles iriam ajudar na dublagem de Love Hina para home-video pelo Studio Gabia. Olhando com uma cara de “mas que porra é essa que você tá falando?“, Del Greco comentou que não tava sabendo de nada. Eis que o otaku, praticamente uma Mãe Dinah, afirmou que seria anunciado dali dois dias. Tenho spoilers do ano de 2017, caro otaku mediúnico: ISSO NUNCA ACONTECEU. Como a internet ainda engatinhava e tudo isso aqui era mato, era normal que certos tipos de boatos se espalhassem mais que cheiro de salgadinho.

Mas essa não foi a única palestra do evento. O organizador Sérgio Peixoto, sempre presente com cosplay de guardinha de trânsito e seu inseparável megafone, organizou uma espécie de mesa redonda com editoras de revistas especializadas e mangás. A seleção de convidados é tão primorosa que merece uma análise detalhada de quase todos eles:

E claro que deixei o melhor para o final, com a presença de duas pessoas que até hoje acompanhamos em mesas redondas do tipo: Marcelo Del Greco e Junior Fonseca (que na época era apenas editor de revistas especializadas e fazia valer o apelido de Garoto Formol que o Jbox lhe deu):

O divertido era que as pessoas aparentemente não faziam ideia do que deveriam ou não falar ao vivo para o público. Sérgio Peixoto, que também mediava a mesa redonda, pediu para cada um contar as novidades de suas editoras, e começou ele mesmo contando que as revistas em quadrinhos que editava e a revista especializada sob seu comando estavam todas canceladas porque venderam mal (!!!). Os representantes da Conrad basicamente fizeram promessas que não seriam cumpridas: no final de 2002 sairia Blade (que só foi lançado dois anos depois e ainda cancelado, sendo salvo muito tempo depois pela JBC) e anunciaram a quarta edição da Herói Mangá, que nunca saiu. Já a JBC anunciou o hiato da revista Henshin. Hoje em dia, se alguma editora anunciasse cancelamento ao vivo capaz dos otacos arremessarem canudos de Mupy no pobre porta-voz.

Por sorte, a instituição TRETA estava presente desde aqueles tempos. Marcelo Del Greco contava ao público que Video Girl Ai havia sido o primeiro mangá lançado no Burajiru sem apoio algum de desenho na TV e tal. Nessa mesma hora, a representante da editora Animangá (que acho que se chama Mara) interrompeu Marcelinho e reclamou “pera, e Ranma 1/2?”. A discussão seguiu com eventuais risadinhas de Junior Fonseca (futuro dono da NewPOP), que provavelmente devia pensar “ufa, que bom que não publico mangás pra ter de participar dessas tretas”.

Também legal ver que as perguntas do público naquela época também continuavam sem pé nem cabeça. Um dos leitores questionou a editora Animangá por que eles lançavam Ranma 1/2 bimestralmente naquele formato com apenas dois capítulos por edição. Ao mesmo tempo que pedia para o mangá ser mensal, ele reclamou da quantidade de títulos nas bancas, que o fez abandonar coisas por não poder comprar tudo. Na época a Conrad publicava 7 títulos mensais e um quinzenal nas bancas, e a JBC o mesmo número.

Para você que ficou com curiosidade, pode clicar aqui e ver o constrangimento em várias horas no YouTube. Tem até mesmo apresentação Cosplay daquela época para você acompanhar o excesso de fantasias de Dragon Ball e Sakura. E não percam a cobertura das palestras de 2017 aqui no Mais de Oito Mil.

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14 comentários em “Promessas descumpridas e mangás a 3 reais: as palestras de editoras de 15 anos atrás

  1. Junior fonseca, fez um pacto com o capiroto, como pode? a 15 anos atras eu era uma criança, hoje o junior, é mais novo q eu. como PODE?

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  2. Mara Guimarães com mais uma matéria direto do túnel do tempo.

    Ah, aparentemente, o nome da moça da Animangá (e mais umas trocentas editoras) é Mara Pontes.

    Curtido por 2 pessoas

  3. Minha nossa……
    Nao sei o que é mais medonho. A cara de “alegria” da plateia, a pose desconstruída desse pessoal “que entende de mercado editorial de mangá” e responde as perguntas sem noçao do público, com respostas mais estranhas ainda, ou o hahaha “concurso” de cosplay…..

    Nao.

    O mais medonho é continua do mesmo jeito. Até hoje….

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  4. “LOve Hina será lançado em video, vocês vão acompanhar pra a tradução pra ver se fica igual o mangá?”

    Pelo visto perguntas idiotas em palestras não são de hoje.

    Curtido por 1 pessoa

  5. “Love Hina será lançado em video, vocês vão acompanhar pra a tradução pra ver se fica igual o mangá?”

    E o pior é que, não é que a JBC realmente conseguiu até enfiar uns “Shinobu-chan” na versão dublada de Love Hina… ¯\_(ツ)_/¯

    Curtido por 1 pessoa

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