Entrevistas · Mais de Oito Mil Interview

Mais de Oito Mil Entrevista… Kyon_45, o dono do site Biblioteca Brasileira de Mangás

Cresci nos anos 90, então está internalizada em mim a clássica frase da Companhia do Pagode: “tudo o que é bonito é pra se mostrar”. Ok, essa frase estava na canção “Dança do Strip-Tease”, mas vale também para a forma como eu trato a Imprensa Especializada (pff). Tem site que a gente zoa um monte porque usa excesso de exclamação, paga de isentão ou então cobra pra acessar listas 18+? Sim, aos montes, mas também há aquele tipo de site bom que precisa ser reconhecido. Um desses exemplos é a Biblioteca Brasileira de Mangás, um site que surgiu do nada há pouco tempo e hoje já é uma das melhores fontes para acompanhar notícias sobre mangás no Burajiru (até porque ele noticia coisas que nem tenho paciência para tratar aqui). Mas, afinal, quem é a pessoa por trás deste biblioteca? Conversei com o dono do site nessa entrevista bem legal que vale a pena conferir.

Mais de Oito Mil – Antes de mais nada gostaria de avisar que sou uma admiradora da Biblioteca Brasileira de Mangás, um dos sites mais sérios da nossa Imprensa Especializada (pff) e que conseguiu se destacar sem fazer parte da panelinha. Quem é Kyon_45 e de onde veio a ideia de fazer esse site?
Biblioteca Brasileira de Mangás Olá, o meu nome verdadeiro é João (e o pseudônimo Kyon_45 tem alguma relação com ele, adivinhe como^^), sou formado em letras e moro no fim do mundo chamado Vila Velha, uma cidade de 400 mil habitantes localizada no Espírito Santo. Sou quase um anti-otaku, pois jamais fui a um evento de anime, não conheço bandas japonesas, dubladores, quase nenhum estúdio de animação e não tenho o menor conhecimento e interesse sobre jogos de vídeo-game. Também não aprecio a culinária japonesa e o único lámen que eu como é o Miojo. Rs.

Adoro animes, mas o meu mundo são as publicações impressas (e digitais): livros e quadrinhos. Gosto tanto que até pensei em fazer um mestrado unindo literatura e hqs, estudei teóricos e tudo mais, mas acabei desistindo no meio do caminho.

A história de criação do site é meio longuinha e cansaria os leitores se eu respondesse pormenorizadamente, mas o resumo é o seguinte: o meu interesse por mangás tornou-se muito grande e não havia um site que me informasse todos os futuros lançamentos das editoras brasileiras, então eu resolvi criar um blog para ME MANTER informado^^.

A ideia era criar um espaço em que se pudesse reunir e organizar mais facilmente o máximo possível de informações sobre os mangás publicados, em publicação ou anunciados no Brasil. No meio disso, percebi que havia uma lacuna de informações e ideias erradas na cabeça dos consumidores. Era um filão de notícias e matérias a ser explorado. Se notar bem, boa parte das matérias do blog tem como objetivo modificar o senso comum do público que lê mangás ou pelo menos criticar a postura de alguns consumidores meio malucos que veem conspiração a torto e a direito^^.

MdOM – O site é praticamente uma database do que foi publicado de mangás no Brasil. Embora seja fácil de arranjar informações sobre os títulos da JBC e Panini, como faz pra escavar alguns fósseis tipo mangás eróticos publicados nos anos 90?
BBM – Guia dos Quadrinhos. Olha, se existe um site para ser louvado nesse sentido não é o BBM e sim o Guia dos Quadrinhos, pois ele é uma fonte de (quase) tudo o que se publicou de quadrinhos no Brasil.
É claro que só utilizar o Guia dos Quadrinhos não é suficiente para descobrir a existência de um título. Às vezes necessita-se de um pouco de sorte. No caso desses mangás eróticos, eles não são marcados no site como “mangás” , então descobri-los depende realmente daquele encontro fortuito. Um caso específico que me lembro agora é de um mangá chamado “Angel” que só descobri enquanto pesquisava sobre a primeira publicação de “Akira” no Brasil.

MdOM – Atualmente temos duas linhas de tradução no Brasil: a Panini que é extremamente purista (colocando honoríficos, por exemplo) e a JBC que é mais solta. Qual você acha que deveria ser o ideal dos mangás brasileiros?
BBM – Olhando unicamente esse aspecto “purismo” x “soltismo” o melhor seria o da JBC, visto que eu não gosto do método da Panini de usar honoríficos e de manter algumas palavras em japonês mesmo quando elas têm tradução para a nossa língua. Em minha opinião esse “purismo” atrapalha a fluidez e a experiência da leitura. Há quem goste (a maioria talvez), mas não é o meu caso.

Entretanto as coisas não são tão preto no branco assim. A Panini possui algumas adaptações que, se você não tivesse honoríficos, seria uma adaptação idêntica à da JBC. Um exemplo é Lovely Complex. A editora utiliza-se de uma linguagem mais informal, com gírias e tudo mais. Acho que só não tem meme, mas há até mesmo uma referência a uma música brasileira^^. Isso é muito Black Mirror JBC.

Contudo, apesar de preferir o método da JBC, eu não diria que ele seja o ideal por causa do didatismo da editora. A empresa vive colocando notas de rodapé explicando coisas que não precisava. O excesso dessas notas acaba atrapalhando um pouco a fluidez da leitura em alguns mangás. Não adianta nada a editora não ser purista se, mesmo assim, precisa explicar um monte de coisas em notas.

MdOM – A BBM costuma ser bem crítica nas resenhas, alguma editora já virou o olho virtualmente para vocês?
BBM – Não. Se bem que a Alto Astral não responde mais meus e-mails perguntando quando (ou se) eles vão lançar a continuação dos mangás deles.

MdOM – Qual mangá já publicado no Brasil você considera que foi injustiçado pelos leitores e por que respondeu Lúcifer e o Martelo?
BBM – Lúcifer e o martelo é um dos raros mangás que você nota facilmente que o autor pensou em (quase) todos os detalhes da trama do início ao fim. Ele possui uma história fechada e muito bem amarradinha em que quase nada soa dispensável. O autor sabe utilizar muito bem os elementos da narrativa e não inventa coisas. Ele segue o básico e o faz muito bem. Muitas obras mais famosas e elogiadas pelo público sequer apresentam o básico de forma satisfatória.

Além disso, o mangá apresenta muitas discussões interessantes sobre vida, morte, ser adulto, ser criança e, principalmente, amadurecimento. Por isso eu acho meio um absurdo esse título ter sido relegado e, pior, mal interpretado. O cúmulo disso é que na época do lançamento cansei de ver resenhas falando o quanto ele era um “shonen genérico” ¬¬.

MdOM – Tá rolando uma moda de publicar as coisas em formato luxo, seja a JBC com Cavaleiros, Akira quanto a Panini e seus quase-kanzenbans. Na posição de leitor e crítico, como enxerga isso?
BBM – Minha opinião como leitor é: manda mais que tá pouco. Quero mais mangá em capa dura, mais mangá com sobrecapa, mais mangá em offset com orelhas, etc. Como colecionador eu vejo que a qualidade física dos mangás no Brasil é pífia e precisamos de melhorias. Isso e tão verdade que chamamos os quase-kanzenbans da Panini de “luxo”, sendo que se você for ver um livro básico da Record ou da Companhia das letras notará mais qualidade neles do que nos mangás da Panini e nem por isso esses livros são chamados de “luxo”. Vale lembrar que enquanto material físico (ou como diria Roger Chartier enquanto “suporte”) mangá é um livro, portanto não faz sentido você chamar um certo produto de “luxo”, quando existe um outro em um padrão superior (papel melhor, costurado, etc) e não é considerado.

Só que na posição de crítico eu sei perfeitamente que não dá para “mandar mais”, pois mangá com melhor acabamento implica em um custo maior e quanto mais caro for o produto, menor é o público que o consome. Eu acho muito bom que a Panini esteja lançando várias obras em um acabamento melhor e adoraria que se tornasse o padrão da editora, mas eu compreendo que é inviável fazer isso a curto prazo. A Panini lança em média 20 mangás por mês e não dá para você sair do preço padrão de R$ 13,90 para R$ 16,90, R$ 17,90 o volume em pouco tempo. Parece uma diferença mínima se você compra apenas um ou dois por mês, mas quem compra vários sofrerá o impacto e terá que diminuir o número de séries que acompanha. É claro que existem os descontos e promoções das megastores, mas a maioria do público da editora ainda compra em banca de revista, então se você publica um monte de novas séries por um valor mais elevado, decerto as vendas de algumas sofrerão negativamente. E em época de crise econômica isso pode não ser bom para o mercado.

Eu vejo o caso dos mangás da JBC de forma diferente. Nitidamente, Akira, Cavaleiros e Ghost In The Shell são voltados para uma parcela diferenciada da população, mais rica e que pode arcar com publicações mais caras. Não são obras para o consumidor padrão de mangás (embora nada impeça eles de adquirirem os produtos). Tanto é assim que eu não vejo outros títulos que possam ser publicados em capa dura por exemplo. É lógico que eu queria uma edição assim de alguns mangás de minha predileção como Card Captor Sakura ou mesmo Lúcifer e o martelo, mas não me parecem títulos que venderiam a um valor tão alto. Eu mesmo só compraria em promoções, já que não faço parte da parcela privilegiada da população.

Em resumo, eu acho que o está sendo feito agora é algo bom para o mercado, pois estamos tendo uma diversidade de formatos muito interessante e isso pode contribuir, a longo prazo, para uma melhoria total de todas as publicações de mangás no Brasil.

MdOM – No começo dos anos 2000 qualquer coisa conseguia vender nas bancas, vide Fushigi Yuugi com aquela adaptação ruim da Conrad. Consegue explicar o que pode ter dado errado com Dr Slump e prever se a Panini tem chances de ter um resultado parecido?
BBM – Em 2002, Dr. Slump era um ponto fora da curva no mercado, pois era centrado só em comédia, sem aquele sentimento de ação e aventura ou mesmo romance que os outros mangás da época traziam. É fácil imaginar as pessoas desistindo no meio do caminho por se cansarem daquilo. Eu mesmo não li mais do que dois volumes.
Atualmente temos um pouco (muito pouco) mais de variedade e mangás focados só em comédia já estão aparecendo. Não sei se o mangá será um sucesso, mas acho que ao menos ele se pagará e a Panini irá lançá-lo até o fim.

MdOM – Se você viesse a abrir uma editora brasileira e lhe dessem a chance de publicar qualquer título, qual escolheria e por quê?
BBM – Algum título qualquer que estivesse fazendo muito sucesso, com anime em exibição, e que fosse vender como água, de modo que a editora continuasse a existir e eu pudesse publicar um monte de títulos de minha predileção (como Bokurano, Nodame Cantabile, Spirit Circle, Ah! megami sama, entre outros), mas que só umas dez pessoas iriam comprar.

MdOM – Agora é a hora das perguntas rapidinhas. Falarei alguns tópicos e você precisa responder com apenas duas palavras.
Revisão da NewPOP?
Muito inconstante.
Anúncios da Panini?
Bem razoáveis…
Mangás de 70 reais?
Não, obrigado.
Ninja Slayer?
Muito dispensável.
Henshin Drive?
Aguardo ansiosamente.

MdOM – Agradeço a entrevista, agora você pode deixar seu recadinho pra família, anunciar a venda de algum carro usado ou mandar um salve pro pessoal do Mais de Oito Mil.
BBM – Eu é que agradeço a oportunidade^^. Confesso que jamais imaginei fazer uma entrevista para o blog e me sinto realmente honrado pelo convite :).  No mais, aos leitores do MdOM que ainda não conhecem o blog BBM e gostam de mangás, faço um convite para conhecer. Tem matérias e notícias (quase) todo dia e talvez (só talvez) um ou outro de vocês goste^^.

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12 comentários em “Mais de Oito Mil Entrevista… Kyon_45, o dono do site Biblioteca Brasileira de Mangás

  1. Gostei da entrevista. A resposta dele é bem colecionador padrão, mas consciente: admite que edições de luxo não são para todos os públicos e tem uma noção dos percalços do mercado nacional. Enfim uma entrevista que compensou.

    Curtido por 1 pessoa

  2. adorei a entrevista e AAA eu não tava sabendo do henshin drive eu tava querendo tanto isso. quem aguenta ficar procurando mangá antigo pra comprar bicho
    vou acompanhar o BBM a partir de agora com certeza ainda mais agora que

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  3. Ah só comprei o mangá LÚCIFER E O MARTELO por causa da Capa do Blog, por causa da frase arrebatadora! E não me arrependi! Muito obrigado!

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  4. BBM é um dos 3 blogs, q sempre entro diariamente, sempre nos atualizando sobre o mercado, sem precisar seguir nas redes sociais, todos os funcionários das editoras. kkkkk

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  5. Eu nao conhecia. Salvei o link. Muito boa entrevista.
    Só não concordo em vir mais ed. de luxo do preço e da maneira que as editoras andam fazendo.

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