Meu Passado Otaku

Meu Passado Otaku: Abri uma Shonen Jump de 2001 e veja o que encontrei

Os otakus passam por fases semelhantes na vida, e uma delas é a vontade louca de ir até o bairro da Liberdade e comprar uma edição da revista Shonen Jump, o almanaque semanal de mangás que é tipo a Meca dos shonens de todos os tempos. De verdade, eu cheguei a escrever numa redação da escola aos 10 anos que meu sonho era ir à Grande Nação Japonesa comprar uma Shonen Jump, olha o nível da otakice da pessoa! Por sorte existe a importação e no ano de 2001 eu comprei finalmente uma edição da revista e… eu não entendi nada.

Cadê Dragon Ball? Cadê Cavaleiros do Zodíaco? Fui enganada pela vendedora idosa da Livraria Sol??? Na verdade, eu era uma pobre e inocente otaka que estava acostumada com clássicos da década anterior, e não estava a par de todas as incríveis novidades que a Jump do ano 2001 proporcionava. Pois bem, como estou lutando contra meu lado acumuladora e tô me livrando e umas tralhas antigas de casa, decidi fazer essa matéria mostrando a edição de número 24 da Shonen Jump, lá do ano de 2001. IKIMASU descobrir o que podemos encontrar numa Jump velha nesse post com título clickbait?

Essa é a capa da Shonen Jump dessa edição. Você pode identificar uma revista japonesa através da diagramação confusa, múltiplas fontes, mistura não-homogênea de idiomas e muita poluição visual. No caso dessa edição de 2001, a revista estava trazendo com destaque a estreia de Karasu Man, do autor Hajime Kazu. Poderia ser uma edição histórica e valer milhões, mas é só mais um mangá flopado que ninguém aí sabe o que é.

Antes de começar o mangá, a editora preenche algumas páginas coloridas com muitos merchans de seus mangás de sucesso. Sim, porque os mangás não são publicados por pura dedicação à arte, eles precisam render alguma quinquilharia que faça os pequenos otacos gastarem rios de ienes. Reparem como QUALQUER COISA pode virar produto comerciável: cards de Yu-Gi-Oh pra você invocar o demônio em casa, travesseiro de Shaman King pra você ficar mais brisado que o Yoh e até um relógio oportunista de Hunter x Hunter.

Os mangás que estreiam na Jump sempre ganham páginas coloridas pra chegar chegando. Quando não rola estreia, a equipe editorial da revista tira no palitinho quem ganha as páginas com cor ou então atribuem dependendo do que precisam divulgar. Se uma série vai ganhar um anime ou vai rolar o final de uma saga, capaz de ganhar página colorida naquela semana.

A Shonen Jump topa qualquer negócio para faturar um trocado: além da revista servir como anúncio de produtos inspirados nas séries, eles ainda botam merchan de qualquer tranqueira. Observe este maravilhoso anúncio de aparelho para retardar o crescimento de barba, com direito a uma japonesa que estudou 4 anos de Wolf Maya para interpretar com naturalidade uma rejeição a homens barbados. Detalhe: mesmo com tanto anúncio e o papel horrível, a revista praticamente se paga. O lucro da Shueisha vem com os produtos licenciados e os mangás encadernados.

Após a estreia de Karasu Man (que, aliás, foi cancelada e teve apenas dois volumes encadernados), chegou a vez dos tradicionais mangás da Jump terem seus capítulos publicados. Caso você tenha batido a cabeça numa plaquinha e não saiba do que estou falando, a Shonen Jump publica semanalmente um capítulo de cada mangá, e depois junta os capítulos de cada série nos volumes encadernados. A ordem dos mangás varia toda semana, e tem a ver com a “audiência” de cada mangá, segundo votação dos leitores. Naquela fatídica edição, o primeiro mangá a aparecer (já que a estreia não conta) foi Bobobo-bo Bo-bobo (precisei jogar no Google pra escrever).

O terceiro mangá foi One Piece, que na época se encontrava na Saga de Alabasta. Percebemos que faz tempo porque ainda dá pra entender o que está rolando no traço do Oda, mesmo com o degradé-não-intencional causado pela impressão no papel horroroso.

Muito antes de começar o Arco dos Hiatos Infinitos, Togashi desenhava o Arco de Yorkshin de Hunter X Hunter. Logo mais entra a saga que o autor publicava garranchos a contragosto e depois redesenhava tudo decentemente nos volumes encadernados.

Às vezes a Shonen Jump tem páginas coloridas na metade da revista, que são usadas para imagens coloridas de abertura de mangás e merchandising temático, como foi o caso desse infográfico de Hikaru no Go.

Se as pessoas achavam que em 2001 teríamos uma odisseia no espaço, na verdade o que estava rolando era um torneio de card games infantis num dirigível flutuando sobre uma cidade, com um vilão egípcio tentando destruir a porra toda em Yu-gi-Oh.

A minha tekpix teve dificuldade de mostrar, mas logo adiante estava o capítulo 77 de Naruto. É só isso que eu tenho pra falar. Ah, e gostaria de mandar forças para os japoneses que em 2001 não faziam ideia que o negócio ia demorar tanto pra acabar.

A gente tem a péssima visão de que a Shonen Jump só publica sucessos internacionais, mas não. Além de Kochikame, sempre tem um espacinho para esses mangás de humor com traço escrachado e algumas piadas bem japonesas que nunca verão a luz do dia aqui no ocidente (aina bem, porque tô até agora procurando a graça de Arakawa Under the Bridge).

A bundinha da revista fica reservada para aqueles mangás que não fazem tanto sucesso assim com o público e ficam naquela eterna corda bamba do cancelamento. Em 2001, quem estava com um pezinho pra fora era Shaman King e Gun Blaze West (mangá de velho oeste do Watsuki, de Rurouni Kenshin).

Claro que nem sempre os mangás da bundinha são os próximos eliminados do paredão. A Shueisha tem seus protegidinhos quando sabe que rola um lucro com anime ou publicação de encadernados. Na época, a parte 6 de Jojo era publicada na revista antes de ser transferida para outro almanaque da editora.

E a revista termina com um pequeno glossário com uma twittada de cada autor falando sobre qualquer assunto. Infelizmente não dá pra saber o que eles estão falando porque 1- está em japonês 2- a fotografia está pavorosa. Embora eu tenha falado apenas da Shonen Jump, o funcionamento das outras revistas como Shonen Sunday e Shonen Magazine é bem parecido.

Agora que fiz a matéria posso devolver o mangá para a caixa das tranqueiras que vou vender e cuidar dessa minha rinite.

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17 comentários em “Meu Passado Otaku: Abri uma Shonen Jump de 2001 e veja o que encontrei

  1. Época doida que a gente tem de comprar uma publicação em uma língua que a gente não entende.

    Eu tive uma revista de animes em inglês uma vez, era até uma subpublicação da Wizard. O legal que o mercado de lá era bem mais amplo, mas tinha umas matérias similares a da imprensa daqui como a censura nos animes.

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  2. Saudosa parte 6 de JoJo! Até o momento é a única em que JoJo é uma mulher (não que seja fácil dizer, já que quase todos os personagens dessa série parecem travestis) – e uma bem diferente do perfil conservador japonês, uma adolescente revoltz na cadeia que gosta de bancar a DJ quando não está descendo o sarrafo em quem enche o saco dela. Curiosamente, a parte dela é considerada uma das piores de JoJo, mas ela mesma é considerada um dos melhores JoJos da série, vai entender.

    Sobre o papel da Jump ser ruim, vamos dar um desconto que até onde eu sei, é uma revista com uma porrada de páginas e com um preço barato (pelo menos pros padrões dos otakus japoneses).

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  3. “na verdade o que estava rolando era um torneio de card games infantis num dirigível flutuando sobre uma cidade, com um vilão egípcio tentando destruir a porra toda em Yu-gi-Oh.”

    Esses que eram os bons tempos

    Não os do Seiya dando cabeçadas em pilastras lol

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  4. Eu tenho alguns exemplares da Ribon (vantagens de ter parentes asiáticos) e é praticamente a mesma coisa, só que com “coisas fofas de menina”: bichinho, lacinho, coraçãozinho, florzinhas… Também tem sua cota de historinhas curtas com traço esculachado (no caso, High Score de Chinami Tsuyama).

    E se não me engano, essas revistas são feitas de material esculachado de propósito, não é? Eu tinha lido em algum lugar que no Japão essas revistas são muito baratas e os japoneses descartam depois de ler e pegar o brinde. Mais tarde eles compram os volumes compilados dos seus mangás favoritos e as revistas descartadas são recicladas e tal.

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  5. Por aí vc ve o erro da maioria dos almanaques brasileiros de mangá: a idéia do almanaque é divulgar as hqs e pegar pro feedback do público e investindo no que faz sucessso e eliminando que não tá agradando. Todo almanaque aqui foi pensando como uma simples coletânea. Algo nesse formato no Brasil, com a estrutura de distribuição que temos é imposssível, mas se as iniciativas se direcionassem para webcomics? O mercado independente aqui meio que já está se estruturando mais ou menos desse jeito. Se a galera gosta, apoia um kickstarter pra impressão, senão não vai impresso. É algo que a henshin e a panini podiam adotar, e que a Draco já começou a fazer.

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  6. A Shonen Jump tem esse papel barato porque os japoneses descartam a edição, mesmo. O que vale é investir nos encadernados de cada série.

    Além disso, se não me engano, eles costumam deixar as edições em qualquer lugar, pra que outras pessoas possam ler, também.

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  7. O ‘funcionamento’ da Shonen Magazine não é nada parecido com o da Jump semanal.

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  8. Ótimo post Mara. Apesar de não concordar muito quanto a Arakawa (eu gosto muito, mas respeito sua opinião) ri demais. É, pra quem estava lendo o capítulo 77 de Naruto na época, a barba cresceu esperando acabar (não se tiver feito uso do merchan do aparelho contra barbas).

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  9. Da pra sentir a poeira desse manga daqui. Putz.
    Até q me surpreendi com a quantidade de mangas bons (ou minimamente razoáveis) q tavam sendo publicados na época e como eu adoro ver esses fracassos bizarrões da Jump ganhando capa e tirando lugar de medalhões q renderiam uma venda bem mais fácil, se bem q a Jump nem precisa dessa artimanha.

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  10. Você estava com sorte nessa edição Mara, a que eu comprei alguns anos atrás tinha bem mais coisa flopada

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  11. Por falar em yu-gi-oh tu não vai falar da nova temporada com a dinâmica q tah separando os jogadores?xD
    Além disso qm tah comandando a temporada eh Yoshida Shin e todo mundo sabe a opinião dele sobre personagens mulheres.

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